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Espinosa (Ética) – Corpo, Mente, Natureza, Perenidade, Afetos, Paixões, Razão, Virtude, Ser, Imortalidade, Felicidade

Excertos de Julián Mariás

samedi 11 septembre 2021

Excertos da Ética de Espinosa, por Julián Mariás

O CORPO? DO HOMEM?

O corpo humano compõe-se de muitos indivíduos (de diversa natureza?), cada um? dos quais é muito complexo?.

Entre os indivíduos de que se compõe o corpo humano, alguns são fluidos, outros macios, outros por último? são duros.

Os indivíduos componentes do corpo humano, e por conseguinte o corpo humano mesmo, é afetado de muitos modos pelos corpos externos.

O corpo humano necessita para conservar-se de outros muitos corpos, pelos quais se regenera, por assim dizer, continuamente.

(Ethica, p. II, post. MV.)

A MENTE? HUMANA

A mente humana não? só percebe as afecções do corpo [1], como também as ideias? destas afecções.

A mente só se conhece a si mesma enquanto percebe as ideias das afecções do corpo.

A mente humana tem um conhecimento? adequado? da essência? eterna e infinita de Deus?.

Na mente humana não há nenhuma vontade? absoluta ou livre ; a mente determina-se a querer isto ou aquilo por sua causa?, que também está determinada por outra, e esta por sua vez por outra, e assim até o infinito?.

Na mente não se dá nenhuma volição, ou seja afirmação? ou negação?, fora daquela que envolve a ideia? enquanto é ideia. A vontade e o entendimento? são uma e a mesma coisa?.

(Ethica, p. II, prop. XXII, XXIII, XLVII, XLVIII, XLIX.)

O HOMEM NA NATUREZA

A maior parte? dos que escreveram acerca das paixões e do modo? de viver dos homens não parecem tratar de coisas? naturais, que seguem as leis comuns da natureza, e sim de coisas que estão fora da natureza.

Inclusive parecem conceber o homem na natureza como um império dentro de um império. Pois creem que o homem mais perturba que segue a ordem? da natureza, e que ele próprio? tem um poder absoluto? em suas ações?, e não se determina a não ser? por si mesmo. Finalmente, atribuem a causa da impotência a inconstância humana, não à potência? comum da natureza mas a não sei que vício? da natureza humana, pelo qual choram, riem, desprezam ou, como ocorre com muita frequência, aborrecem ; e aquele que soube captar com mais eloquência ou agudeza a impotência da mente humana, é tido por divino. (...) Quero voltar aos que preferem aborrecer as paixões e as ações dos homens, ou se rirem delas, melhor que entendê-las. A estes sem dúvida? parecerá estranho que tente descrever os vícios e a estupidez dos homens segundo o uso? geométrico, e queira demonstrar por uma razão? certa o que, segundo proclamam, repugna a razão, o que é vão, absurdo? e horrendo. Mas minha razão é esta. Nada? acontece na natureza que possa ser atribuído a vício desta ; e a natureza é sempre a mesma, e em todas partes é uma e a mesma sua virtude? e seu poder de atuação? ; isto é, as leis e regras da natureza, segundo as quais todas as coisas sucedem, e variam de umas formas para outras, são em todas partes e sempre as mesmas, e portanto uma e a mesma deve ser também a razão para entender as coisas de qualquer natureza : a saber?, pelas leis e pelas regras universais? da natureza. Portanto, as paixões do ódio, da ira, da inveja etc, consideradas em si mesmas, são consequência? da mesma necessidade? e virtude da natureza que as demais coisas singulares ; e por isso têm certas causas, pelas quais se entendem, e certas propriedades, igualmente dignas de nosso conhecimento que as propriedades de qualquer outra coisa, com cuja contemplação nos deleitamos. Tratarei, pois, da natureza e forças dos afetos e do poder da mente sobre eles, com o mesmo método? com que antes tratei de Deus e da mente, e considerarei as ações e os apetites humanos como se fosse questão? de linhas, de planos ou de corpos.

(Ethica, p. III, prefácio.)

O ANSEIO DE PERDURAÇÃO

Toda coisa, enquanto é, tende a perseverar em seu ser.

O impulso? pelo qual toda coisa tende a perseverar em seu ser, não é outra coisa que a essência atual dessa mesma coisa.

O impulso pelo qual toda coisa tende a perseverar em seu ser, não envolve um tempo? finito?, mas indefinido?.

A mente, tanto enquanto tem ideias claras e distintas como enquanto as tem confusas, tende a perseverar em seu ser em certa duração? indefinida, e tem consciência? deste impulso.

Este impulso enquanto se refere à mente só, chama-se vontade, mas quando se refere a uma vez à mente e ao corpo, chama-se apetite? ; o qual, portanto, não é outra coisa que a própria essência do homem, de cuja natureza se seguem necessariamente as coisas que servem para sua conservação ; e por isso o homem está determinado a fazê-las. Ademais, entre o apetite e o desejo? não há nenhuma diferença?, referindo-se o desejo, no geral?, aos homens enquanto são conscientes de seu apetite, e por isto se pode definir? assim : o desejo é o apetite com consciência dele mesmo. Consta, portanto, de tudo isto, que nós não procuramos, queremos, apetecemos nem desejamos qualquer coisa porque julguemos que é bom?, mas pelo contrário, julgamos que algo é bom porque o procuramos, queremos, apetecemos e desejamos.

(Ethica, p. III, prop. VI-IX e escólio.)

OS AFETOS HUMANOS

O desejo é a própria essência do homem, na medida? em que se a concebe — por qualquer afecção? sua — como determinada a fazer algo.

A alegria? é a passagem do homem de uma perfeição? menor a uma maior.

A tristeza é a passagem do homem de uma perfeição maior a uma menor.

Digo passagem, pois a alegria não é a perfeição mesma. Pois se o homem nascesse com a perfeição à qual passa, a possuiria sem afeto? de alegria ; o que fica mais claro no afeto da tristeza, que é contrário a este. Pois ninguém pode negar que a tristeza consiste na passagem a uma perfeição menor, visto que o homem não se pode entristecer na medida em que participa de alguma perfeição. E não podemos dizer que a tristeza consista na privação? de uma perfeição maior ; pois a privação nada é, e o afeto de tristeza, pelo contrário, é um ato? que, portanto, não pode ser outro? que o ato de passar a uma perfeição menor, isto é, o ato pelo qual se diminui ou dificulta a potência de obrar do homem.

O amor? é a alegria acompanhada da ideia de uma causa externa. O ódio é a tristeza acompanhada da ideia de uma causa externa.

(Ethica, p. III, definições das afeições I, II, III, VI, VII.)

O HOMEM E AS PAIXÕES

À impotência humana para moderar e reprimir os afetos chamo escravidão? ; pois o homem submetido às paixões não é dono de si, mas escravo da sorte? ; está de tal modo em poder desta, que com frequência se vê obrigado, embora veja o que é melhor para cie, a seguir o pior. (...)

Por virtude e potência entendo o mesmo ; isto é, a virtude, enquanto se refere ao homem, é a essência mesma ou natureza do homem, enquanto tem poderio para fazer certas coisas que se podem entender pelas únicas leis dessa mesma natureza.

A força? pela qual o homem persevera em existir?, é limitada, e é superada infinitamente pela potência das causas externas.

Não é possível? que o homem não seja uma parte da natureza, e que não possa sofrer mais mutações que as que se possam entender só por sua natureza e das quais seja causa adequada.

Segue-se daqui que o homem está sempre submetido necessariamente às paixões e segue a ordem comum da natureza e lhe obedece, e acomoda-se a ela quanto o exige a natureza das coisas.

(Ethica, p. IV, prefácio, def. VIII e prop. III e IV.)

A RAZÃO, A VIRTUDE E O SER

Ninguém pode desejar ser feliz, bem? agir e bem viver, sem desejar ao mesmo tempo ser, agir e viver, isto é, existir em ato.

Não se pode conceber nenhuma virtude como anterior a esta (isto é, o impulso de conservar-se).

Agir absolutamente por virtude não é em nós outra coisa que agir, viver, conservar seu ser (estas três coisas significam o mesmo), guiados pela razão, pelo fundamento? de procurar a própria utilidade.

Ninguém se esforça por conservar seu ser movido por outra coisa.

O sumo? bem da mente é o conhecimento de Deus, e a suprema virtude da mente, conhecer Deus.

Na medida em que os homens estão dominados por afetos que são paixões, podem ser contrários entre si.

Só na medida em que os homens vivem guiados pela razão convêm sempre necessariamente por natureza.

O homem livre em nada pensa menos que na morte? ; e sua sabedoria? não é meditação? da morte e sim da vida?.

(Ethica, p. IV, prop. XXI, XXII, XXIV, XXV, XXVIII, XXXIV, XXXV, LXVII.)

A IMORTALIDADE? E A FELICIDADE?

A mente só pode imaginar qualquer coisa, ou lembrar-se das coisas passadas, enquanto durar o corpo.

A mente humana não pode destruir-se absolutamente com o corpo, mas algo dela permanece, que é eterno.

O amor intelectual da mente a Deus é o amor mesmo de Deus, pelo qual Deus se ama a si mesmo, não enquanto é infinito, mas enquanto se pode explicar? pela essência da mente humana, considerada sob a espécie? da eternidade? ; isto é, o amor intelectual da mente a Deus é uma parte do amor infinito com que Deus se ama a si mesmo.

A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a virtude mesma ; e não gozamos dela porque reprimamos os impulsos viciosos, mas pelo contrário, porque gozamos dela, podemos reprimir os impulsos viciosos.

(Ethica, p. V, prop. XXI, XXIII, XXXVI, XLII.)


[1Em Spinoza, afecção não é algo simplesmente passivo ; é o modo da substância, de sorte que este modo equivale a suas afecções. Esclarece ele : "Entendo por afecções, as afecções do corpo por meio das quais aumenta ou diminui, acrescenta-se ou reduz-se a potência de obrar do dito corpo, e ao mesmo tempo as ideias de suas afecções." Veja-se José Ferrater Mora. Diccionario de Filosofia, palavra afectar (N. do T.).