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Heidegger, Phenomenology and Indian Thought

Wilberg (HPIT) – As Sutras de Heidegger

HEIDEGGER’S YOGA SUTRAS

sábado 17 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Dizemos que olhamos para o horizonte  . Portanto, o campo   de visão   é algo aberto, mas sua abertura não se deve ao nosso olhar. Pelo contrário, nosso olhar se deve a esta abertura.

    

O “Discurso sobre o Pensamento  ” de Heidegger   [GA77], publicado pela primeira vez em 1959, inclui duas peças notáveis ​​e profundas – seu Memorial   em homenagem ao compositor alemão Conradin Kreutzer, e sua “Conversação em uma trilha campestre”. Em sua introdução à tradução inglesa de ambas as peças, John Anderson observa como elas levam adiante uma mudança   significativa do pensamento anterior   de Heidegger em Ser e Tempo – uma mudança   reconhecida pelo próprio Heidegger em sua coleção   de ensaios, publicada no mesmo ano, intitulado A caminho   da linguagem.

“Abandonei uma posição   anterior, não para trocá-la por outra, mas porque mesmo a posição anterior era apenas uma pausa no caminho. O que perdura no pensamento é o caminho.”

Anderson resume a natureza essencial do modo meditativo de pensar que Heidegger introduz no Discurso da seguinte forma:

“… é um pensamento que permite que o conteúdo emerja no ser/estar-ciente   [awareness], um pensamento que está aberto ao conteúdo. Ora, o pensamento que constrói um mundo de objetos compreende estes objetos; mas o pensamento meditativo começa com um ser/estar-ciente do campo   dentro do qual estes objetos estão, um ser/estar-ciente do horizonte   e não dos objetos da compreensão comum. O pensamento meditativo começa com um ser/estar-ciente deste tipo, e assim começa com... o próprio campo do ser/estar-ciente”.

A abertura e a receptividade a este campo de ser/estar-ciente é descrita por Heidegger como “solver” (Gelassenheit [1]). Heidegger nomeia o próprio campo usando uma variedade de termos relacionados, como ’região’ (Gegend), ’regionalizar’ (gegnen) e ’isso-que-regionaliza’, todos os quais estão em uma relação dinâmica com a palavra alemã para um ’objeto’. Esta palavra (Gegenstand) implica algo que posta-se diante e contra (gegen) o observador, em oposição ao “campo” ou “região” aberto em que primeiro se destaca ou “existe” como um objeto. Surge então a questão sobre a natureza e o ‘horizonte’ deste campo ou região, uma questão abordada na Conversação em primeiro lugar em relação ao nosso campo visual de ser/estar-ciente:

Mestre: Dizemos que olhamos para o horizonte. Portanto, o campo de visão   é algo aberto, mas sua abertura não se deve ao nosso olhar.
 
Estudioso: Da mesma forma, não colocamos a aparição dos objetos, que a visão dentro de um campo de visão nos oferece, nesta abertura...
 
Cientista: ... ou melhor, que [a aparição] surja deste [campo] para nos vir ao encontro (begegnen).
 
Mestre: O que é evidente   do horizonte, então, é apenas o lado voltado para nós de uma abertura que nos cerca; uma abertura que é preenchida com visões das aparições do que para nossa representação [no pensamento] são objetos.
 
Cientista: ... Mas o que é esta abertura enquanto tal, se desconsiderarmos que ela também pode aparecer como o horizonte de nossa reapresentação?
 
Mestre: Parece-me algo como uma região, uma região encantada onde tudo o que pertence a ela volta para aquilo em que repousa.

A região é, portanto, aquela “expansão aberta” na qual as coisas nem sequer se põem adiante como objetos, mas “descansam” ou “perduram” em sua natureza e origem – “a região”. No entanto, como observa Anderson, a expansão espacial da região não é um vácuo ou uma esfera   estática de vazio   ou “não-ser”. Isto porque seu horizonte, como limite, deve, por sua própria natureza, ter um outro lado que não aquele que está diante de nós – um lado “transcendental”. O lado transcendental do horizonte é a “regionalização da região” ativa ou o “aquilo-que-regionaliza”. Pois é o que vem ao nosso encontro como o horizonte do nosso campo de ser/estar-ciente, e o que primeiro abre a expansão desse campo para nós dentro deste horizonte. Mas e quanto à natureza ou auto-ser de “aquilo-que-regionaliza” – o que é “em si” ao invés de puramente “para nós”?

Cientista: Mas aquilo-que-regionaliza e sua natureza não podem realmente ser duas coisas diferentes – se é que podemos falar aqui de coisas.
 
Estudioso: O si mesmo   daquilo-que-regionaliza é presumivelmente sua natureza e idêntico a si mesmo.
 
Mestre: Porque aquilo-que-regionaliza regionaliza tudo, juntando tudo e deixando tudo voltar a si mesmo, repousar em sua própria identidade.

A frase “sua própria identidade”, entretanto, não pode ser tomada como referindo-se simplesmente à identidade de qualquer coisa dada, pois esta, por sua vez, consiste em permanecer em sua própria origem – naquilo-que-regionaliza si mesmo.

Ninguém familiarizado com o pensamento religioso indiano pode deixar de ouvir   neste discurso um eco da noção   shivaista de caitanyamatma – aquele ‘si’ cuja verdadeira ‘identidade’ consiste em permanecer em sua própria origem – o campo do universal   ser/estar-ciente (Shiva  ) dentro do qual a abertura da expansão e o horizonte do ser/estar-ciente de cada indivíduo   se abre. E “permanecer nas origens de sua natureza” é a própria definição de Heidegger de “Ayran” em seu significado básico de “nobre”.

Tampouco podemos deixar de reconhecer   nesta e em outras partes da Conversação de Heidegger uma profunda reafirmação da essência   do yoga   como um caminho que conduz o indivíduo de volta ao seu verdadeiro si e, portanto, também à liberdade, liberação   ou ‘solver’ nesta vida (jivanmukta). O “caminho” de Heidegger é kriya yoga como Patanjali o descreveu, mas entendendo a renúncia da ação e do pensamento “egoicos” como um “passo para trás” ativo em um ser/estar-ciente anterior a todo pensamento e uma renúncia à ação e pensamento intencionais.

Cientista: Agora o solver autêntico consiste nisto: que o homem   em sua própria natureza pertence àquilo-que-regionaliza, ou seja, ele é soluto para tal.
 
Estudioso: Não ocasionalmente, mas – como diremos – antes de tudo.
 
Professora: …. Porque a natureza do pensamento começa aí.
 
Cientista: Assim, a natureza do homem é soluta para aquilo-que-regionaliza no que é anterior ao pensamento.……
 
Mestre: E assim, permanecendo em sua origem, o homem seria atraído pelo que é nobre em sua natureza. Ele teria um pressentimento da mente   nobre.
 
... uma paciente nobreza de espírito   seria puro repouso em si daquele querer que, renunciando ao querer, se entregou ao que não é vontade.
 
Quanto ao culto (puja), entendido como um modo de agradecer, esse agradecimento, entendido como a própria essência do pensamento nobre, não requer nenhum ’ser’ para agradecer e nenhuma ’coisa’ para agradecer, além de um “ser deixado agradecer".
 
Estudioso: A nobreza de espírito seria a natureza do pensamento e, portanto, do agradecimento.
 
Mestre: Daquele agradecer que não tem que agradecer por algo, mas apenas agradecer por se deixar agradecer.

Esta compreensão do pensamento meditativo e do agradecimento deve ser colocada em contraste com sua sombra e contraparte – aquele “pensamento calculista” que Heidegger descreveu como a ordem   do dia na era da tecnologia   global. No Memorial, é este “pensamento” que é abordado e trazido à nosso ser/estar-ciente em termos inequívocos.

“Tal pensamento continua sendo cálculo mesmo que não trabalhe com números ou use uma máquina   de somar ou computador. O pensamento calculista calcula. Ele computa possibilidades cada vez mais novas, cada vez mais promissoras e ao mesmo tempo cada vez mais econômicas. O pensamento calculista corre de uma perspectiva para outra. O pensamento calculista nunca para, nunca se recompõe. O pensamento calculista não é um pensamento meditativo, não é um pensamento que medita o sentido que reina em tudo o que existe.”

Este pensamento é, acima de tudo, um pensamento intencional, voltado para a manipulação calculada de tudo e qualquer coisa. Prescientemente, Heidegger cita as palavras de um químico americano, proferidas em uma reunião de ganhadores do Prêmio Nobel em 1955: “Está próxima a hora em que a vida será colocada nas mãos do químico que será capaz de sintetizar, dividir e mudar a substância viva à vontade.” Comentário de Heidegger:

“Tomamos conhecimento de tal declaração. Até nos maravilhamos com a ousadia da pesquisa científica, sem pensar nisso. Não paramos para considerar que um ataque   com meios tecnológicos está sendo preparado sobre a vida e a natureza da humanidade, comparado com o qual a explosão da bomba de hidrogênio significa pouco”.

A vontade de manipular e explorar a própria substância viva, no entanto, é apenas uma expressão   da essência do pensamento calculista como pensamento intencional – não pensamento premeditado pacientemente, mas pensamento pré-motivado. Mesmo a simples vontade de reapresentar as coisas em pensamento é uma forma de querer.

Cientista para Professor: ... Você quer um não-querer no sentido de uma renúncia ao querer, para que através disso possamos solver, ou pelo menos nos preparar para nos solver para a essência procurada de um pensamento que não é um querer.
 
Cientista: Com a melhor boa vontade, não posso re-presentar   a mim mesmo esta natureza de pensamento.
 
Mestre: Precisamente porque esta sua vontade e seu modo de pensar como re-presentação o impedem.
 
Cientista: Mas então o que devo fazer no mundo.
 
Estudioso: Estou me perguntando isto também.
 
Mestre: Não há nada a fazer além de esperar.

O “solver”, portanto, não pertence ao domínio   da vontade e não é nada que se queira, mas é uma preparação para um pensamento que emerge não do querer, mas da espera paciente. No entanto, a não vontade ou a não ação não é um mero estado   passivo de inação, mas sim “uma ação mais elevada do que a encontrada em todas as ações do mundo e nas maquinações de toda a humanidade”. E, em contraste com todos o querer, “a região” simplesmente “se reúne, como se nada estivesse acontecendo, cada um a cada um e cada um a todos em uma permanência, enquanto repousa em si mesma”. Nisto há o caráter essencial do quiescente ser/estar-ciente associado a SHIVA, enquanto todo pensamento tem o caráter de SHAKTI   – uma atividade   autônoma que surge de dentro do campo deste quiescente ser/estar-ciente. É por isso que o pensamento meditativo também não implica inação no mundo.

“Enquanto os imprudentes agem por causa   de seu apego à ação, … também os sábios devem agir, mas sem apego, desejando o bem do mundo.” [Bhagavad Gita]

No entanto, quer falemos de Shiva-Shakti ou de Krishna  -Arjuna, dos Vedas   ou Upanishads  , dos Yoga Sutras   de Patanjali ou dos Shiva-Sutras de Vasugupta, não encontraremos nenhum tratado ou tantra que exponha mais profundamente sua essência impensada do que o de Heidegger. Discurso sobre o pensamento – não obra de um indólogo ou mesmo de um filósofo indiano, mas de um pensador alemão do século XX – um europeu. O caráter tântrico deste Discurso transparece tanto em seu caráter dialógico quanto em sua própria linguagem. Pois o solver «àquilo-que-regionaliza» é uma interpretação   desconhecida do suporte ou mudra mais básico do tantra Shaivista — Khechari mudra.

‘Khechari’, comumente traduzido como ‘movendo-se no vazio’, é uma referência a este ‘espaço’ de puro ser/estar-ciente, que é SHIVA – transcendendo a fronteira ou horizonte de nosso campo de ser/estar-ciente e, ao mesmo tempo, permeando este campo. Khechari mudra é a prática meditativa de identificação com o próprio espaço – não como vazio, mas como um campo de puro ser/estar-ciente.

“... o poder do espaço é inerente à alma   como verdadeira subjetividade, que é ao mesmo tempo vazia de objetos e que também fornece um lugar no qual os objetos podem ser conhecidos.” [Abhinavagupta  ]

Khechari é reconhecido nos tantras como o mudra supremo que pode nos solver em uma experiência de um “espaço” transcendentalmente ilimitado de ser/estar-ciente que é além e atrás do horizonte de nosso próprio campo de ser/estar-ciente espacialmente – mas também se move através ou regiões dentro de seu horizonte. Solutos no ser/estar-ciente que regionaliza em e como nossa experiência do espaço, nós mesmos nos tornamos “mobilizadores no vazio”. A natureza até então impensada desse “movimento” também é trazida à luz na Conversação. O horizonte último do espaço é distante. Ainda mais distante pareceria ser a natureza deste campo ou espaço de ser/estar-ciente dentro do qual o horizonte se abre, mas que também está “transcendentalmente” além e atrás dele. No entanto, “aquilo-que-regionaliza” pode ser sentido e pensado como um “movimento-para-proximidade” desta distância, na verdade sua mais íntima proximidade ou “imanência  ”. Assim, o movimento essencial do ser/estar-ciente que é “anterior ao pensamento” é um “aproximar-se da distância” – uma distância que, ao se aproximar de nós, não apenas vem ao nosso encontro, mas nos solve nela, e assim nos permite habitar   e nos mover mais intimamente dentro dela – permanecer em nossa origem.

É nestes termos que encontramos expressa a própria alma do pensamento religioso indiano. Este não é um pensamento concentrado na relação entre Pensar e Ser, mas na relação entre Pensar e Ser/Estar-Ciente – em particular o reconhecimento da identidade essencial do si (atman  ) ou alma limitada (jiva) com o ’universal ser/estar-ciente’ ou campo ilimitado de ser/estar-ciente que é denominado BRAHMAN   ou SHIVA. É este reconhecimento (pratyabhijna  ) que, por sua vez, permite a “solvência” da subjetividade individual da sujeição a todo pensamento e ação intencional e objetivante. No entanto, não é o pensamento em si que traz a “solvência”, mas a graça   de SHIVA – aquilo que “regionaliza” como o “horizonte transcendental” de nosso próprio ser/estar-ciente limitado enquanto ao mesmo tempo é imanente dentro dele. Tal modo de pensar é exatamente o oposto de qualquer tipo de subjetivismo filosófico que reduz a própria subjetividade à percepção do indivíduo e à representação intelectual de um mundo de objetos. Na “Conversação em uma trilha campestre” de Heidegger, vemos um tipo de conversão para a verdade mais profunda de uma tradição   religiosa, que não conhece fronteiras de País ou Região. Pois aquilo-que-regionaliza dentro dela nos move para a proximidade das próprias distâncias, culturais e cronológicas, que parecem separar diferentes tradições. Os fios ou sutras de pensamento que a Conversação tece, marcam Martin Heidegger não apenas como um filósofo europeu, mas como um professor ou guru religioso – antecipando o alvorecer de um novo pensamento religioso que reencarna o “élan secreto” de suas primeiras raízes.

Quais são essas raízes? Como J.L. Mehta nos lembra:

“Segundo Heidegger, a ciência e a tecnologia, elas próprias enraizadas na “filosofia” e na “metafísica  ” como formas de pensamento caracteristicamente gregas, triunfam universalmente porque são instrumentos inigualáveis ​​de poder sobre o que é, sobre todo ser ou entidade, tal como apresentado à luz da concepção de Ser implícita na tradição metafísica ocidental. É quando os seres são vistos sob esta luz que eles adquirem seu caráter de puras entidades a serem medidas e manobradas”

Todavia:

“O pensamento do impensado deste imperecível começo ocidental, no entanto, é também a liberação do pensamento de seu molde   paroquial e seu encontro com o impensado dos outros poucos, realmente grandes começos da história humana. Em nenhum caso pode ser apenas um retorno a estes começos, mas apenas a reunião de recursos para um outro começo no campo do pensamento, para o qual talvez, como Heidegger espera, a iniciativa e a preparação possam vir da Europa, “esta terra   crepuscular da qual pode vir o alvorecer de uma nova manhã, de outro destino mundial.”


Ver online : PETER WILBERG


[1«Serenidade», nas traduções de Heidegger em português.