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Cassiano Collatio Prefacio

terça-feira 29 de março de 2022

PREFÁCIO
A dívida que prometi ao santo bispo Castor no prefácio dos volumes em que tratei, com a ajuda do Senhor e na medida da minha modéstia, das instituições cenobíticas e dos remédios dos oito vícios principais, foi de algum modo satisfeita.

Cabe-me certamente a mim ver o juízo que ele e vós, em vossa equidade, fizestes sobre esta obra. Em assuntos tão profundos e sublimes, que, segundo penso, nunca foram antes tratados por algum escritor, terei eu publicado um trabalho digno do vosso conhecimento e do desejo de tantos santos irmãos?

O mesmo pontifica, em seu incomparável ardor pela santidade, me tinha então pedido que lhe escrevesse no mesmo estilo estas dez conferências dos maiores Pais, isto é, dos anacoretas que moravam no deserto de Scete. Sua imensa caridade não lhe permitia avaliar o peso que punha em meus ombros tão fracos.

Agora, porém, que ele nos deixou e partiu para o Cristo, é a vós, santo bispo Leôncio e venerável irmão Heládio, que julguei dever dedicá-las.

Um de vós, com efeito, unido a ele pelos laços da fraternidade, a dignidade do sacerdócio e, o que é mais o fervor do santo empenho, merece por direito a herança fraterna desta minha dívida. O outro procurou seguir o sublime modo de viver dos anacoretas, não, como alguns, por sua própria presunção, mas tomando, por sugestão do Espírito santo, o caminho legitimo da doutrina, quase antes mesmo de aprendê-la, pois preferiu se formar pelas próprias tradições dos solitários, e não por suas descobertas pessoais.

Agora que me encontro estabelecido num porto de silêncio, vejo abrir-se diante de mim um oceano ilimitado, se ouso transmitir à memória literária algo do sistema de vida e dos ensinamentos de tão grandes varões.

Quanto mais a vida solitária ganha em grandeza e sublimidade sobre os mosteiros cenobiticos, e a contemplação de Deus, à qual aqueles inestimáveis varões estão sempre aplicados, sobre a vida ativa praticada em comunidades, tanto mais longínqua será também a navegação a que se lançará, com perigo, a minha frágil barca.

Vosso dever é ajudar com vossas preces piedosas os meus esforços, a fim de que tão santa matéria, a ser exposta pela minha palavra inexperiente, embora fiel, não sofra perigo por minha culpa, ou que, ao contrário, a minha rusticidade não seja engolida pelos abismos do mesmo tema.

Passemos, portanto, do lado exterior e visível da vida dos monges, que tratamos nos primeiros livros, ao invisível modo de viver do homem interior. E o nosso discurso se eleve do modo da oração canônica ao dessa oração ininterrupta que constitui um preceito do Apóstolo  .

Sé alguém já mereceu, pela leitura da obra anterior, o nome daquele Jacó espiritual que suplantou os vícios carnais, agora então, acolhendo não os meus, mas os ensinamentos dos Pais, passe, pela contemplação da pureza divina, ao mérito e até mesmo, se assim posso dizer, à dignidade de Israel, e seja igualmente instruído sobre tudo que deve observar nesse cume da perfeição.

Possam, portanto, as vossas orações obter daquele que nos julgou dignos de vê-los, a graça de ser seus discípulos e entrar em comunhão com a sua vida. Que ele nos conceda uma lembrança perfeita das suas tradições e uma palavra fácil para exprimi-las.

Se isso pedimos, é para que possamos explicar a sua doutrina de modo tão santo e integral como deles recebemos, de sorte que nos seja dado mostrá-los de certo modo encarnados nos seus ensinamentos e - o que é mais importante - falando-vos na língua latina.

Antes de tudo, porém, queremos prevenir o leitor destas Conferências e dos livros anteriores, para que fique bem avisado do seguinte.

Se, porventura, ali encontrar coisas que ele ache impossíveis ou duras, segundo a natureza do seu estado e propósito ou em relação ao modo de vida comum, não as meça conforme a sua própria fraqueza, mas segundo a dignidade e a perfeição dos que falam. Pense, antes, na profissão e no propósito desses varões. Por ele, mortos à vida segundo o mundo, não estão presos a nenhum laço com parentes carnais nem com assuntos do século.

Em seguida, deve também considerar a natureza dos lugares em que moram. É uma solidão vastíssima, onde vivem separados do convívio de todos os mortais, possuindo, por isso mesmo a iluminação das suas faculdades, com que contemplam e podem dizer coisas que parecem, talvez, impossíveis a quem não as experimenta nem conhece, em razão da condição e da mediocridade do seu modo de viver.

Se, contudo, alguém quiser proferir um julgamento verdadeiro sobre tais coisas, e deseja experimentar a sua possibilidade, corra antes a assumir, com igual aplicação e sistema de vida, o propósito deles. Concluirá, então, que tudo aquilo que lhes parecia acima das forças do homem, é não só possível, mas até mesmo de extrema suavidade.

Mas já é hora de correr às suas conferências e ensinamento.


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