PhiloSophia

PHILO = Apreço + SOPHIA = Compreensão

Version imprimable de cet article Version imprimable

Accueil > Ocidente > Blaise Pascal (1623-1662) > Blaise Pascal (1623-1662)

O TEMA DO HOMEM

Blaise Pascal (1623-1662)

JULIÁN MARIÁS

samedi 11 septembre 2021

[Julián Marías — O TEMA DO HOMEM]

Blaise Pascal? nasce em 1623 e morre, antes de completar os quarenta anos, em 1662. Sua vida? precoce, atormentada e genial é bem? conhecida. Suas descobertas matemáticas, suas polêmicas teológicas, sua relação? com os jansenistas franceses, determinam sua figura?, especialmente interessante? e enigmática. Por outro? lado, sua paixão?, seu apelo ao que chama "coeur", seu caráter? de pensador agônico, como dizia Unamuno?, deram-lhe um? atrativo extraordinário?, não? sem o risco? de certa equivocidade?. A própria índole fragmentária de toda sua obra, e em particular? de seus Pensamentos?, contribuiu para tornar difícil a reta compreensão? do pensamento? pascaliano.

Em certa medida? — sobretudo na medida em que se opõe a ele —, Pascal é cartesiano ; não é possível? entender a nenhum pensador do século XVII sem nele incluir uma referência? — de qualquer sinal? que seja — a Descartes?. Mas, por outro lado, Pascal é, rigorosamente, uma mente? cristã ; quero dizer com isto que seu pensamento filosófico está determinado por pressupostos religiosos. O homem? filosofa sempre, queira ou não, a partir de uma situação? concreta, parcialmente histórica, e esta situação condiciona sua filosofia? ; pois bem, a situação de que parte? Pascal, embora sendo em uma dimensão? o mundo? intelectual cartesiano do século XVII, é antes de tudo, simplesmente, o cristianismo, em uma de suas formas mais vivas e autênticas.

Revela-se isto com a máxima? clareza em sua visão? do homem. Os Pensamentos incidem e reincidem repetidas vezes sobre a realidade? humana, e esta aparece neles captada numa imediatez peculiar e estranha. Pascal sublinha cartesianamente a essência? pensante do homem, mas ao mesmo tempo? sente toda sua constitutiva fragilidade, carência? e miséria : é um caniço, um caniço pensante, cheio de miséria e niilidade, mas cheio de grandeza? porque conhece essa miséria e porque pode chegar a Deus?. Esta radicalidade do ponto? de partida faz com que Pascal aborde com rara agudeza o tema? do homem ; porque não só o considera como um ente? dotado de propriedades determinadas mas se detém na consideração direta de sua vida e dos pressupostos desse viver. A ontologia? do ente humano, que em Pascal está apenas esboçada, assinala no entanto suas dimensões decisivas, com uma atualidade? que hoje nos parece surpreendente. Sua doutrina acerca do "coração?", sua análise? da diversão, sua íntima angústia? pelo problema? da imortalidade? pessoal, apreendem, por vezes só como meros vislumbres, estratos decisivos do ser? do homem, que interessam hoje mais que nunca à filosofia, porque, talvez pela primeira vez na história?, está em situação de dar inteira conta deles, ou pelo menos tentá-lo com meios proporcionados ao alcance das questões que levantam.

Sobre Pascal : E. Boutroux : Pascal (1900) ; F. Strowski : Pascal et son temps (1907-1909) ; J. Chevalier :. Pascal (1922) ; L. Brunschwicg? : Le gênie de Pascal (1924) ; E. Jovy : Études pascaliennes (1927-1928).