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PENSAMENTOS

Pascal (P:S22,512) – espírito de geometria e de finura

samedi 11 septembre 2021

Excerto de PASCAL, Blaise. Pensamentos. Tr. Mario Laranjeira. São Paulo : Martins Fontes, 2005, p. 235-237

Num [espírito? de geometria?] os princípios? são palpáveis mas afastados do uso? comum, de sorte? que se tem dificuldade para virar a cabeça para esse? lado, por falta? de hábito? : mas, por pouco que se vire, veem-se os princípios plenamente ; e seria preciso ter? o espírito totalmente falso? para raciocinar? mal? sobre princípios tão patentes que é quase impossível? que eles escapem.

Mas, no espírito de finura, os princípios estão no uso comum e diante dos olhos de toda gente. Não? adianta virar a cabeça, nem fazer violência? ; a questão? resume-se em se ter boa vista, mas é necessário? tê-la boa : pois os princípios estão tão desconexos e em tão grande número? que é quase impossível não escaparem. Ora, a omissão de um? princípio? conduz ao erro? ; assim é preciso ter a vista bem? clara para ver todos os princípios e em seguida o espírito justo para não raciocinar de modo? falso sobre princípios conhecidos.

Todos os geômetras seriam então finos se tivessem vista boa, pois não raciocinam erradamente sobre os princípios que conhecem. E os espíritos finos seriam geômetras se pudessem voltar sua vista para os princípios inabituais da geometria.

Isso faz, então, que certos espíritos finos não sejam geômetras

Virar.

é que eles são totalmente incapazes de se virar para os princípios de geometria, mas o que faz com que geômetras não sejam finos é que eles não veem o que está diante deles e que, estando acostumados aos princípios claros e grosseiros de geometria e a não raciocinar senão depois de ter visto e manuseado bem os seus princípios, perdem-se nas coisas? de finura, em que os princípios não se deixam manusear assim. Mal se consegue vê-los, pode-se senti-los mais facilmente do que vê-los, têm-se infinitas dificuldades para fazer com que aqueles que não os sentem por si mesmos passem a senti-los. São coisas tão delicadas e tão numerosas que é necessário ter um senso? bem delicado e bem claro para as sentir e julgar de modo justo e correto, segundo esse sentimento?, sem poder, no mais das vezes, demonstrá-lo por ordem? como em geometria, porque não se possuem assim os seus princípios, e seria uma tarefa? infinita tentar possuí-los. É preciso ver a coisa? num único? relance, num único olhar e não por progresso? de raciocínio?, pelo menos até certo grau?. E assim é raro que os geômetras sejam finos e que os finos sejam geômetras, por quererem os geômetras tratar geometricamente essas coisas finas, e se tornam ridículos, querendo começar pelas definições e em seguida pelos princípios, o que não é a maneira de agir? nesta espécie? de arrazoado. Não é que o espírito não o faça, mas ele o faz tacitamente, naturalmente e sem arteCampo Oculto?. Pois a sua expressão? ultrapassa todos os homens e o seu sentimento pertence apenas a poucos homens. E os espíritos finos, ao contrário, tendo assim o costume? de julgar num único relance de olhos, ficam tão admirados quando se lhes apresentam proposições de que não entendem nada? e em que, para entrar, é preciso passar por definições e princípios tão estéreis que não estão habituados a ver assim em pormenores, que isso lhes repugna e os desgosta.

Mas os espíritos falsos nunca são finos nem geômetras.

Os geômetras que só são geômetras têm, pois, o espírito reto, mas desde que lhes expliquem bem todas as coisas por definições e princípios ; fora disso, são falsos e insuportáveis, pois apenas são retos sobre os princípios bem esclarecidos.

E os finos que só são finos não conseguem ter a paciência de descer até aos primeiros princípios das coisas especulativas e de imaginação? que jamais viram no mundo?, e totalmente sem uso.


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