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SABEDORIA DOS PROFETAS

Burckhardt – Apresentação do Fusus

Introdução

sábado 23 de abril de 2022, por Cardoso de Castro

Sabedoria dos Profetas

  Sommaire  

Precisemos que o título "A Sabedoria dos Profetas  " não é senão uma paráfrase, doravante consagrada pelo uso, do título árabe Fuçûç al-Hikam, que significa literalmente “os engastes das sabedorias”. Esta expressão define menos o conteúdo do livro do que apenas o resume simbolicamente, e não poderia ser compreendida sem conhecimento prévio do simbolismo do qual se trata: al-façç — singular de fuçûç — é o engaste ao qual se incrusta a pedra ou o sinete (al-khatam) de um anel; por sabedorias é preciso aqui compreender os aspectos da Sabedoria divina. Os “engastes” que incrustam as pedras preciosas da Sabedoria (al-hikmah) eterna são as “formas” espirituais dos diferentes profetas, a natureza respectiva de cada um deles, ao mesmo tempo humana e espiritual, que veicula tal ou tal aspecto do Conhecimento divino. O caráter incorruptível da pedra preciosa corresponde à natureza imutável da Sabedoria.

A metáfora do engaste que guarda a pedra preciosa da Sabedoria e se casa ao tamanho dela concerne a natureza humana de um profeta enquanto recipiente da Sabedoria divina; entretanto, este aspecto do simbolismo, que corresponde à aparência humana das coisas, encontra-se compensado e como ampliado pela fórmula que Ibn Arabi   adota para os títulos das diversas partes de seu livro: “O ENGASTE DA SABEDORIA DIVINA NO VERBO ADÂMICO”, “O ENGASTE DA SABEDORIA DIVINA DA INSPIRAÇÃO DIVINA NO VERBO DE SETH”, “O ENGASTE DA SABEDORIA DA TRANSCENDÊNCIA NO VERBO DE NOÉ”, etc. Segundo estas expressões, o engaste, quer dizer a forma individual do profeta, é por sua vez contida no verbo (al-kalimah), que é a realidade essencial e divina deste mesmo profeta; com efeito, por sua identificação “ativa” com a Sabedoria divina, todo profeta é uma determinação imediata do Verbo - Verbo eterno, que é a “enunciação” primordial de Deus. São os “verbos” que contêm os “engastes”, pois é o individual que é contido pelo universal e não inversamente, apesar das aparências humanas. Todo profeta, enquanto homem perfeito, logo se contém ele mesmo, posto que “contém” a Sabedoria divina e que, no tocante a sua realidade interior e supra-individual, ele “é” esta Sabedoria; ora esta contém a humanidade perfeita do Homem-Deus, e é este aspecto das coisas que corresponde à realidade ontológica, sem anular no entanto a “realidade” aparente do ponto de vista humano. Enfim, é preciso não esquecer de adicionar que a humanidade dos profetas que, por definição, é perfeita e “fora de série”, reflete em sua particularidade — o “engaste” (façç) que tem tal e tal forma — tal aspecto ou Nome divino, o que volta a dizer que o profeta se identifica em última análise a este Nome, este “abrindo a via” à Essência divina indiferenciada.

Esta complexidade de aspectos aparentemente contraditórios, integrados em um síntese supra-racional, é característica no ensinamento de Ibn Arabi  .


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