Página inicial > Oriente > Extremo Oriente > Suzuki (DZNM:14-19) – Doutrina da Não-Mente

A Doutrina Zen da Não-Mente

Suzuki (DZNM:14-19) – Doutrina da Não-Mente

Capítulo 1

sexta-feira 16 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

SUZUKI  , D. T.. A Doutrina   Zen da Não-Mente  . Tr. Elza Bebiano. São Paulo  : Pensamento,1993

Shen  -hsiu, como outros mestres zen, reconhece que a Mente   existe e precisa ser procurada dentro da mente individual de cada um, a qual contém todas as qualidades do Buda  . Essa verdade não é compreendida por estarmos sempre a correr atrás   de coisas exteriores, que obscurecem a luz   da mente interior. Em vez de fugir   do próprio pai  , aconselha Shen-hsiu, dever  -se-ia voltar os olhos para dentro por meio da prática da tranquilização. Até aqui, muito bem; mas Shen-hsiu carece de penetração metafísica   e seu método ressente-se dessa deficiência  . É o que se costuma chamar de “artificial” ou “fazendo algo” (yu-tso), o que é diverso de “nada fazer” (wu-tso) ou “estar em si mesmo  ” (tzu-hsing  ).

    

Antes de continuarmos a expor os pontos de vista de Hui-neng sobre o Budismo  , apresentemos os de Shen  -hsiu, sempre confrontados com os primeiros, pois a rivalidade entre os dois   líderes ajudou a definir   a natureza do Zen com mais clareza   do que antes. Hung-jen foi um grande mestre zen e teve muitos discípulos de peso, mais de uma dúzia dos quais deixou seu nome na história. Mas Hui-neng e Shen-hsiu estavam muito acima dos outros, e foi por causa   deles que o Zen se dividiu em duas Escolas: a do Sul   e a do Norte. Quando, portanto, conhecermos os ensinamentos de Shen-hsiu, o líder   da Escola do Norte, será mais fácil compreendermos Hui-neng, em quem estamos particularmente interessados.

Infelizmente, não sabemos muito acerca dos ensinamentos de Shen-hsiu, pois o fato de sua Escola ter deixado de prosperar frente à do Sul acarretou o desaparecimento de sua literatura. O que conhecemos sobre ela vem de duas fontes: primeiro, os documentos da Escola do Sul, tais como o T’an-ching e os escritos de Tsung-mi; em segundo lugar, dois manuscritos de Tun-huang que encontrei na Biblioteca Nacional de Paris. Um desses escritos da Escola do Norte está incompleto e o outro é imperfeito quanto ao significado. Shen-hsiu, por sua vez, também nada escreveu. Tal como o T’an-ching, o manuscrito consta de anotações tomadas pelos discípulos sobre as conferências do Mestre.

O título do manuscrito é O Ensinamento dos Cinco   Meios Segundo a Escola do Norte. Aqui, a palavra meio, ou método (upaya  , em sânscrito), é aparentemente usada sem sentido especial; os cinco meios são cinco tópicos de referências aos Sutras   do Mahayana, assim como do ensinamento na Escola do Norte. Esse ensinamento é: (1) o estado   de Buda é Iluminação  , e a Iluminação consiste em não despertar   a mente  ; (2) quando se mantém a mente   imóvel  , os sentidos se aquietam e, nesse estado, o portal do conhecimento supremo se abre; (3) essa abertura do conhecimento supremo leva a uma emancipação mística da mente e do corpo. Isso, contudo, não significa o quietismo absoluto do Nirvana   dos hinayanistas, pois o conhecimento supremo atingido pelos bodhisattvas requer atividades desprendidas dos sentidos; (4) essa atividade   desprendida significa estar livre do dualismo mente-corpo, estado em que o verdadeiro caráter das coisas é apreendido; (5) por fim, vem o caminho   da Unidade  , levando a um mundo de quididade, onde não há qualquer obstáculo  , qualquer diferença  . Nisso consiste a Iluminação.

É interessante comparar isto com o comentário de Tsung-mi, da Escola do Sul. Conforme escreve no Diagrama da Sucessão Patriarcal no Ensino do Zen: “A Escola do Norte ensina que todos os seres são originalmente dotados de Iluminação, assim como é próprio ao espelho   iluminar. Quando as paixões turvam o espelho, este fica invisível  , como se estivesse obscurecido pela poeira. Se, de acordo com as instruções do mestre, os falsos pensamentos forem subjugados e aniquilados, eles já não ressurgirão. A mente, então, ficará iluminada, como é por natureza, e nada deixará de conhecer. É como limpar um espelho. Quando não há mais poeira, o espelho fica claro, nada deixando de refletir.” De acordo com esse pensamento, o grande mestre e líder da Escola do Norte, Shen-hsiu, escreveu a seguinte gatha, que apresentou ao 5o Patriarca:

Este corpo é a árvore Bodhi  ,
A mente é como um espelho iluminado;
Empenhai-vos em mantê-la sempre limpa
Sem deixar que nela se junte o pó.

Mais adiante, Tsung-mi ilustra a posição   de Shen-hsiu com a imagem de uma bola de cristal. A mente, diz ele, é como uma bola de cristal, destituída de cor própria. É pura e perfeita, em si. Mas tão logo seja exposta ao mundo exterior, apresenta todas as cores e formas de diferenciação. Essa diferenciação está no mundo exterior; a mente, por si, não apresenta qualquer alteração  . Suponhamos agora que a bola seja colocada diante de alguma coisa contrária ao que é, tomando-se, assim, uma bola escura. Por mais pura que fosse antes, é agora uma bola escura, sendo essa cor vista como se fizesse parte da natureza da bola desde o princípio. Apresentada deste modo a pessoas desprevenidas, estas imediatamente concluirão que a bola é turva e não se deixarão convencer facilmente sobre sua pureza   essencial. Mesmo os que a conheceram pura acham-na agora escura porque assim a veem; e esforçar-se  -ão para limpá-la, para torná-la capaz de recobrar aquilo que perdeu. Os que se aplicam a limpá-la, segundo Tsung-mi, são os adeptos da Escola do Norte — aqueles que imaginam que se deve descobrir a bola de cristal em sua pureza sob o estado de obscuridade em que se encontra.

Essa atitude de “limpar a poeira”, que é a de Shen-hsiu e seus seguidores, leva inevitavelmente ao método quietista de meditação  . Este, na verdade, era o método que eles recomendavam. Ensinavam o acesso ao samadhi   por meio da concentração, e a purificar a mente fixando-a num só pensamento. Ensinavam, ainda, que pelo despertar dos pensamentos um mundo objetivo se ilumina e que pelo recolhimento um mundo interior é percebido.

Shen-hsiu, como outros mestres zen, reconhece que a Mente existe e precisa ser procurada dentro da mente individual de cada um, a qual contém todas as qualidades do Buda. Essa verdade não é compreendida por estarmos sempre a correr atrás de coisas exteriores, que obscurecem a luz da mente interior. Em vez de fugir   do próprio pai  , aconselha Shen-hsiu, dever  -se-ia voltar os olhos para dentro por meio da prática da tranquilização. Até aqui, muito bem; mas Shen-hsiu carece de penetração metafísica   e seu método ressente-se dessa deficiência  . É o que se costuma chamar de “artificial” ou “fazendo algo” (yu-tso), o que é diverso de “nada fazer” (wu-tso) ou “estar em si mesmo  ” (tzu-hsing  ).

O seguinte relato, encontrado no T’art-ching e visto à luz do que foi dito acima, é elucidativo: [1]

40. ”Shen-hsiu, ao ver o povo comentar o método rápido e direto de apontar a verdade, empregado por Hui-neng, chamou à parte um de seus próprios discípulos, de nome Chi-ch’eng, e lhe disse: — És muito inteligente e cheio de sabedoria  . Vai em meu lugar a Ts’ao-ch’i Shan e ao encontrares Hui-neng presta-lhe homenagem e apenas escuta o que ele disser. Não deixes que ele perceba que foste enviado por mim  . Assim que compreenderes o sentido das coisas que ouvires, guarda-o na memória e volta para contar-me tudo sobre Hui-neng. Então verei se é mais rápido o meu ensino ou o dele.
 
”Obedecendo às ordens de seu mestre com o coração   cheio de alegria  , Chi-ch’eng chegou a Ts’ao-ch’i Shan após a metade de um mês de viagem  . Prestou a homenagem devida a Hui-neng e pôs-se a ouvi-lo, sem deixar que ele percebesse de onde vinha. E ouvindo-o, a mente de Chi-ch’eng imediatamente apreendeu o significado dos ensinamentos de Hui-neng. Compreendeu o que este queria dizer quando falava em Mente Original. Levantou-se e fez reverências, dizendo: — Venho do mosteiro de Yu-ch’uan, mas junto de meu Mestre Hsiu não consegui chegar à compreensão. Agora, ouvindo o teu sermão, atingi imediatamente a compreensão da Mente Original. Tenha compaixão  , Mestre, e ensine-me mais sobre isso.
 
”Hui-neng, o grande Mestre, disse-lhe: — Se vens de lá, és um espião.
 
”Chi-ch’eng disse: — Antes de declarar quem era, sim; mas após minha declaração, não o sou   mais.
 
”O 6o Patriarca, então, disse: — Assim também acontece com a afirmação de que as paixões (klesa) não são senão iluminação (bodhi).”
 
41. ”O grande Mestre disse a Chi-ch’eng: — Ouço dizer que teu mestre somente ensina a tríplice disciplina de Preceitos (síla), Meditação (dhyana  ) e Conhecimento Transcendental (prajna  ). Conte-me como teu mestre ensina isso.
 
”Chi-ch’eng disse: — O mestre Hsiu ensina os Preceitos, a Meditação e o Conhecimento Transcendental deste modo: não praticar o mal é Preceito; praticar todo o bem é Conhecimento; purificar a própria mente é Meditação. Este é o seu ponto de vista sobre a tríplice disciplina e seus ensinamentos seguem esse princípio. Qual é o seu ponto de vista, Mestre?
 
”Hui-neng respondeu: — Essa é uma maravilhosa maneira de ver, mas a minha é diferente.
 
”Chi-ch’eng perguntou: — Em que diferem?
 
”Hui-neng respondeu: — Há uma maneira vagarosa de ver e há uma maneira rápida de ver.
 
”Chi-ch’eng pediu ao Mestre que lhe explicasse o seu ponto de vista acerca do Preceito, da Meditação e do Conhecimento.
 
”O grande Mestre disse: — Ouça então meu ensinamento. A meu ver, a Mente, tal como é em si mesma, não está sujeita a males — este é o Preceito do Ser-em-si [2]. A Mente, Tal como é em si mesma, é isenta de perturbações — isto é a Meditação do Ser-em-si. A Mente, tal como é em si mesma,é isenta de insensatez — isto é o Conhecimento do Ser-em-si.
 
”Hui-neng, o grande Mestre, continuou: — A Tríplice Disciplina ensinada por teu mestre destina-se a pessoas menos dotadas, enquanto que o meu ensino da Tríplice Disciplina destina-se a pessoas superiores. Quando se entende o Ser-em-si, não há mais necessidade   de estabelecer a Tríplice Disciplina.
 
”Chi-ch’eng disse: — Por favor, fale-me do significado dessa “não-necessidade”.
 
”O grande Mestre disse: — [A Mente], enquanto Ser-em-si, está livre de males, perturbações e insensatez, e assim todo pensamento é Conhecimento Transcendental; e dentro do alcance dessa luz iluminadora não existem formas a serem reconhecidas como tais. Sendo assim, não há necessidade de se estabelecer coisa alguma. A pessoa desperta para este Ser-em-si abruptamente; não há uma compreensão gradual; esta é a razão para o não-estabelecer.
 
”Chi-ch’eng prestou-lhe reverências e nunca mais saiu de Ts’ao-ch’i Shan. Tornou-se discípulo   do grande Mestre e esteve sempre a ouvi-lo.”

Por meio dessa contraposição entre Shen-hsiu e Hui-neng podemos compreender por que o ponto de vista de Shen-hsiu sobre a Tríplice Disciplina foi designado por Shen-hui   — um dos grandes discípulos de Hui-neng, — como sendo do tipo “fazer algo” e o de Hui-neng do tipo “Ser-em-si”, que se caracteriza como vazio, sereno e iluminador. Shen-hui fala ainda de um terceiro tipo, chamado “nada fazer”, pelo qual a Tríplice Disciplina é assim compreendida: quando não surgem pensamentos errôneos, isso é Preceito; quando não há mais pensamentos errôneos, isso é Meditação; e quando a inexistência de pensamentos errôneos se toma consciente, isso é Conhecimento Transcendental. O tipo “nada fazer” e o tipo “Ser-em-si” são idênticos; um enuncia de modo negativo o que o outro enuncia de modo positivo.

Além desses assuntos, afirma-se que Shen-hsiu expressou sua maneira de ver sobre os cinco pontos que se seguem com base no Despertar da Fé no Mahayana, no Sadharma-pundarika, no Sutra Vimalakirti, no Shiyaku-kyo e no Sutra Avatamsaka. Os cinco pontos são: (1) O corpo de Buda, que significa perfeita iluminação, expressando a si próprio sob a forma do Dharmakaya do Tathagata  ; (2) o conhecimento intuitivo pertencente ao Buda, mantido inteiramente recoberto pelos seis sentidos; (3) a emancipação que transcende as medidas intelectuais, própria do Bodhisattva; (4) a natureza verdadeira de todas as coisas em seu estado sereno e imperturbável; (5) a passagem absolutamente desimpedida, aberta para o progresso da Iluminação, que é atingida penetrando-se na verdade da não-diferenciação.


Ver online : D. T. Suzuki


[1Manuscrito de Tun-huang, §§ 40 e 41. A cópia Koshoji, §§ 42 e 43.

[2Em inglês, self-being, a expressão que Suzuki usou para captar o sentido de tzu-hsing. Em português, poderíamos ainda tentar verter self-being por estar-em-si mesmo, ou ser-o-que-se-é, ou ser-próprio.