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Imame

segunda-feira 28 de março de 2022

Islamismo
Daryush Shayegan: HENRY CORBIN  

A palavra árabe Imam significa «aquele que se mantém adiante». É portanto o mestre - guia espiritual. A qualificação abraça o grupo dos «Doze», quer dizer os onze Imãs descendendo do Maomé   - profeta por sua filha Fátima (al-Zayra, a Resplandecente) e seu primo, o primeiro dos Doze, Ali Ibn Abi Talib. O xiismo duodécimo é por vezes nomeado também «imamismo». O Imã é o suporte da haqiqat (Verdade espiritual) que mantém e a lei e a hermenêutica do Corão. Pois os Imãs detêm a chave do Corão - Livro, eles mantêm o sentido do Corão - Livro na ausência do Maomé   - Profeta, donde a proclamação do Quinto Imã: «Se o Imã foi elevado da terra uma única hora, ela estremecerá em vagas que rolariam seus habitantes como o mar rola em suas vagas os seres que o habitam».

Se, do lado xiita, o Imã é o polo ao redor do qual pivotam a coesão e a coerência do ser, aquela cuja função iniciática se abre sobre uma perspectiva escatológica, do lado sunita, em revanche, o Imã permanece o pivô da ordem social sem assumir um cargo hermenêutico nem metafísico. «sua necessidade não procede senão da consideração das coisas temporais; não é um conceito sacral (implicando uma sacralização do universo) mas um conceito secular e laico». Não é imaculado e puro (ismat); sua escolha depende do consenso; é eleito, enquanto o Imã no sentido xiita sendo uma pessoa sagrada (entendemos os doze Imãs e não seus representantes), escapa a toda eleição. Ele simboliza a realidade essencial do homem, seu Alter Ego espiritual, donde a sentença: «Aquele que morre sem conhecer seu Imã (quer dizer sem conhecer seu Si), morre da morte dos inconscientes».

O Corão por si só não pode ser Respondente (Hojjat), testemunha, enquanto não há um Mantenedor, um hermeneuta (mofassir) que conheça a gnose   integral. Este mantenedor, é o Imã, o Guia. Pois se a herança concedeu aos profetas em virtude da função legisladora do qual estavam investidos foi aquele de fazer descer (tanzil) a Revelação sob a forma de Livro, aquele dos Imãs foi em revanche de conduzir (tawil) a letra desta revelação a sua fonte. Eis porque todo o ciclo da walayat simbolizado pela sucessão dos doze Imãs é orientado para o Retorno à Origem.

Os Imãs beneficiam do nass (designação expressa pelo Imã predecessor), da pureza, da impecabilidade (ismat). Donde o termo «Quatorze Imaculados» (chahardah masum, em persa) para designar o Maomé   - Profeta, sua filha Fátima e os Doze Imãs. A ideia da infalibilidade está em relação com a função hierofânica dos Imãs enquanto «polo do mundo» ou «polo dos polos» sem o qual a existência terrestre não poderia continuar um instante mais. Ora o polo pode ser ora visível, ora invisível, oculto entretempo. Tal é o estado atual das coisas, posto que estamos neste momento em período de ocultação.

O Imã é face de Deus e face do Homem; é uma forma teofânica (mazhar) porque a «teofania é como tal a instauração de uma relação entre aquele que se mostra (motajalli) e aquele a quem ele se mostra (matajalla laho), aquele que se mostra o faz necessariamente sob uma forma proporcionada e correspondendo àquele a quem ele se mostra». Salvando a teofania, o Imã torna possível o Amor, posto que é o Amor que permite a visão interior, a visão do coração. Assim não somente o Imã torna possível o amor incluso em todo face a face entre o amante e o amado, mas funda igualmente o tawhid ontológico. Pois a divindade em si não é nem visível, nem conhecível: não se pode admirar que a divindade revelada nas formas epifânicas.

O primeiro período começa com o primeiro Imã, Ali Ibn Abi Talib. Este foi o confidente dos segredos do profeta do Islã. A seu respeito, o profeta teria dito: «Sou a Cidade do Conhecimento, Ali está na porta». Este período vai até o ano que marca a «Grande Ocultação» do décimo segundo Imã, quer dizer 940 AD. É portanto o ano onde o morre o grande compilador Muhammad_ibn_Ya’qub_al-Kulayni - Mohammad ibn Yaqub Kolayni que recolheu jundo dos últimos representantes do Duodécimo Imã, os hadiths constituindo o mais antigo recolho de tradições xiitas. Um segundo período se estende de Kolayni até Nasir_al-Din_al-Tusi - Nasiroddin Tusi (1270) que participou também do xiismo ismaeliano. Este período é marcado, diz Corbin, «pela elaboração das grandes somas de tradições xiitas, as obras consagradas a tal ou tal tema particular, os grandes tafsir ou comentários xiitas do Corão». Um terceiro período vai de Tusi (após a invasão mongol) até a época safávida, no início do século XVI. Ela é marcada pela obra importante de Haydar Amoli que tentou conciliar o sufismo e o xiismo constituindo um xiismo integral. O quarto período começa a partir da época safávida (após a Escola de Ispahan), dominada por Mir Damad e seu alunos, e englobando o período qadjar, chegou até nossos dias.