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Dasein

segunda-feira 28 de março de 2022

Michael Zimmerman  : HEIDEGGER  , BUDDHISM  , AND DEEP ECOLOGY

Heidegger   definiu «ser» de uma maneira diferente da maioria dos filósofos. Tradicionalmente, filósofos definiram o «ser» de uma entidade como sua base ou substância, aquilo que provê a «fundação» para a coisa. Platão   chamava esta fundação de forma eterna das coisas; Aristóteles  , sua substância; os teólogos medievais, seu Criador. Recusando conceber o ser como uma espécie de entidade superior, uma fundação eterna, base, causa, ou origem das coisas, Heidegger   argumentou que para algo «ser» significa para ela des-cobrimento - desvendar-se ou apresentar-se. Para esta presentificação (Anwesen) ou auto-manifestação ocorrer, deveria haver uma clareira, uma abertura, um vazio, um nada, uma ausência (Abwesen). A existência humana constitui a abertura necessária para ter lugar a presentificação (ser) de entes - entidades. Quando tal presentificação ocorre através da abertura que sou, encontro uma ente - entidade como uma ente - entidade; ou seja, compreendo o que é. Heidegger   usou o termo «Dasein» para nomear esta receptividade particular da existência humana para o ser (auto-manifestação) de ente - entidade. Em alemão, da significa «aqui» ou «aí», enquanto sein é o verbo alemão «ser». Assim, Dasein significa o lugar no qual ser ocorre, a abertura na qual presentificação transpira. Para Heidegger  , nem temporalidade (ausência, nada) nem ser (presentificação, auto-manifestação) é uma «ente - entidade». Ao invés, são condições necessárias para entes - entidades aparecerem como tal. Nunca «vemos» tempo ou «tocamos» a presentificação de coisas; ao invés, vemos e tocamos as coisas que se manifestam ou se apresentam elas mesmas.

Marcia Schuback: A perplexidade da presença (em sua tradução de Ser e Tempo)

Quando se aceita que a oposição fundamental em Ser e tempo e na filosofia de Heidegger de modo geral é entre Dasein e Vorhandenheit e que Vorhandenheit significa ser simplesmente dado, uma atualidade, aí pode-se entender porque a tradução de Dasein por ser ou estar aí não é muito apropriada. Com efeito, ser-aí ou estar-aí traduzem ainda melhor do que ser simplesmente dado o que Heidegger   chamou de Vorhandenheit. Traduzir Dasein por ser-aí ou estar-aí ou até mesmo por "ser-o-lá", "être-le-là", como sugeriu o próprio Heidegger   em francês na Carta sobre o humanismo, seria manter a compreensão de Dasein na tonalidade substancial e substantiva de Vorhandenheit. Usar o "estar-aí" em lugar de "ser-aí" tem o inconveniente fatal de obrigar a compreensão de Dasein a orientar-se por um entendimento ôntico de ser-no-mundo como circunstancialismo e situacionismo. Acompanhando com atenção os escritos, as preleções e cursos de Heidegger  , logo após a publicação de Ser e tempo, pode-se observar que o fio condutor de suas [26] preocupações é mostrar que e porque Dasein não é uma estrutura "mais dinâmica" de sujeito - subjetividade e que ser-no-mundo não deve ser entendido como simples mundo-circundante, circunstancialidade e situacionismo. Heidegger   busca responder assim às críticas de seu mestre Husserl   - Edmund Husserl   e da primeira geração de fenomenologia - fenomenólogos como, por exemplo, Edith Stein  , Max Scheler   e Hedwig Conrad-Martius, que viram em Ser e tempo tão somente uma "antropologia filosófica". Pode-se dizer que Heidegger   aprofunda a diferença sutil, mas muito decisiva em Ser e tempo entre Sein-in e In-sein, ser-dentro-de... e ser-em, que em alemão se diz literalmente na distinção entre ser-em e em-ser. Ser-no-mundo não diz ser dentro do mundo, mas fundamentalmente ser mundo, e isso na experiência de sendo em ser, de existir na dimensão infinitiva de ser, ou seja, de existir na abertura do a-ser. Isto significa que ser-no-mundo não constitui, de forma alguma, uma oposição, mesmo que amigável, à temporalidade de Dasein. Ser-no-mundo é o sentido concreto do que Heidegger   chama de temporalidade por oposição ao conceito vulgar de tempo. Neste sentido, Heidegger   afirma que "Somente partindo do enraizamento da presença na temporalidade é que se pode penetrar na possibilidade existencial do fenômeno ser-no-mundo que, no começo da analítica da presença, fez-se conhecer como constituição fundamental" (Ser e tempo, 69). Em relação a "estar-aí", "ser-aí" tem a vantagem relativa de guardar a forma infinitiva de sein, ser. Mas a sua desvantagem absoluta é traduzir "da" por "aí" e "lá", por localidades e determinações espaciais, o que deita por terra o esforço de Ser e tempo de pensar o ser desde a experiência da finitude - finitude do tempo.

O que diz o alemão "da"? "Da" não diz nem aí, nem lá, nem cá. O "da" é etimologicamente palavra de intensificação, tendo a função primária de avivar, marcar, ressaltar, não possuindo propriamente nenhuma determinação espacial. Humboldt   considera o [27] "da" como expressão primordial da segunda pessoa, do "tu", ou seja, do outro na concretude de sua face e, assim, numa relação. Heidegger   tematiza o Da em Ser e tempo como sentido temporal do entre, que define a transcendência da existência, a conjugação do si mesmo como vida da alteridade, da diferença. Por isso, Heidegger   afirma que é desde o "da" que um aqui, um aí, um lá podem definir-se (Ser e tempo, 28). Na ek-sistência, pode-se dizer que posição é situação quando se entende situação como temporalidade de abertura e não fechamento de uma determinação ôntica e situacionista do espaço. O "da" diz precisamente a abertura da cura, um anteceder-a-si-mesmo em já sendo em e junto a. Como traduzir então esse "da"? O prefixo latino que mais próximo se encontra de "da" é "prae". O problema não é somente como entender o "da" em alemão, mas igualmente como apreender o prefixo latino "prae". Um grande equívoco envolve a compreensão desse prefixo latino, equívoco que se deve à tentativa de provar que a palavra latina praesens é a tradução do grego parousia. Essa tese defendida por Wackernagel, sobre em quem Heidegger   se apoia para as suas considerações sobre o termo praesentia, prevaleceu durante um certo tempo. Bem mais convincente, mesmo do ponto de vista da linguística, porém, é a posição de Emile Benvéniste que afirma, em seu exaustivo estudo sobre as preposições latinas, que "por preasens não se entende propriamente o que está aí, ou seja, o ‘pró’, mas sim o que me ultrapassa, o que se me adianta, ou seja, o iminente, urgente, como na palavra inglesa ahead". Ora o que diz Benvéniste senão que a palavra latina praesens significa o que Heidegger   entende por cura, o anteceder-a-si-mesmo já sendo em, junto a, ou seja, "da"? O desafio que se apresenta nas línguas de derivação latina é, portanto, o de dissociar praesentia de parousia, que é para Heidegger   o sentido grego de Vorhandenheit, de ser simplesmente dado, assim como é tarefa no alemão dissociar Dasein de Vorhandenheit. O que Heidegger   propriamente discute ao criticar "présence" é o grego parousia e toda a sua implicação onto-teo-lógica. Em toda a análise, digamos temporal, da espacialidade, em que espaço mostra-se como modo ou aspecto verbal, Heidegger   insiste que "da", "pre" não é um lugar-aqui, mas proximidade do distante e distância da proximidade, a espacialidade própria do anteceder-a-si-mesmo em já sendo. Isso se afirma ainda uma vez na forma do gerúndio sens, que forma "-sença", a qual indica o em sendo no a ser. Essa minúcia filológica foi discutida não apenas por mim em alguns artigos já publicados, mas de maneira ainda mais exaustiva por Henri Maldiney  , sobretudo no livro intitulado Aîtres de la langue et demeures de la pensée, em que apresenta um estudo aprofundado da estrutura aspectual dos verbos gregos, assumindo também a tradução de Dasein em Heidegger   por présence. Henri Birault, outro grande estudioso na França da obra de Heidegger  , afirmou igualmente que "se for preciso escolher uma palavra francesa para traduzir Dasein, adotaria présence..., pois nesse caso presença exprimiria o fazer-se presença do homem ao ser e o fazer-se presença do ser ao homem". A mesma sugestão já havia sido feita por Emmanuel Carneiro Leão, na década de 60, antes de Birault e Maldiney  .