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Criatura

segunda-feira 28 de março de 2022

    

VIDE: CRIAR; LUGAR; AHAMKARA  ; indivíduo - INDIVÍDUO; PESSOA; EGO; PERSONALIDADE; MULHER  ; HOMEM; HOMEM-MULHER; ANIMAL  

FILOSOFIA
Marcia Sá Cavalcante Schuback  
A análise compreensiva de Mestre Eckhart   distingue, implicitamente, porém, o Lugar de Deus   do lugar das criaturas. Não se trata de dois   Lugar - lugares distintos no espaço, no sentido que nós damos ao lugar, mas de dois modos   radicalmente distintos numa única e mesma integração, num único e mesmo lugar, no lugar de todos os Lugar - lugares. É por isso que Mestre Eckhart dá prioridade à expressão   «ser-em» para designar o Lugar de Deus - lugar de deus relativamente aos sentidos de face - ser-diante-de e Dasein   - ser aí. Pois tanto a acepção imediata de «face - diante de» como o «Dasein - aí» pressupõem uma distinção espacial e não modal. Para Mestre Eckhart e a totalidade   do pensamento   medieval, a diferença   fundamental entre o criador e as criaturas, entre deus e as coisas é uma diferença de modalidade, deus e as criaturas estão sempre numa unidade   - unidade radical, a criar - unidade da criação. Buscar a diferença entre o criador e as criaturas como uma diferença entre duas coisa - coisas-objetos é sempre retirar o criador e as criaturas da unicidade - unidade radical da criação. A questão da diferença entre deus e as coisas é a questão de uma diferença no seio do mesmo. Para a experiência religiosa medieval, não há um «fora» de deus. Todo «fora» de deus já é dentro da divindade - divindade de deus. Isso é o que vai explicar por que os medievais entendem todo «antes», como por exemplo o antes do acontecimento   do Cristo  , como uma prefiguração. Para nós é difícil representar um «fora» que está «dentro». Essa dificuldade   só pode se desfazer quando nos aproximamos do que é a totalidade de deus, o lugar de todos os Lugar - lugares. No Eckhart Sermão 9 - sermão número   IX, Mestre Eckhart vai mostrar que a totalidade - totalidade de deus é o modo - modo dos modos, é um uno - ser-uno, um todo - ser-inteiramente, indivisamente, integralmente. E esse modo que fundamenta a diferença entre o Lugar de Deus - lugar de deus e o lugar das criaturas. Mestre Eckhart diz que o ser  -inteiramente de deus é como «a alma   que está inteira, indivisa e integralmente no pé, no olho e em cada membro». uno - Ser uno é ser não um, isto é, uma parte individuada e autônoma, mas ser inteiramente em cada parte, em cada divisão   e limitação  . Somente na pressuposição de uma indivíduo - parte individuada e autônoma é que uma coisa pode ser «fora» da outra, pode ser «diante» da outra, pode Dasein - ser-aí. Mas deus está para as coisas assim como a alma está para as partes do corpo. Essa relação de analogia   com a alma quer indicar não somente o modo em que deus é e está em todas as criaturas, mas também o modo em que se deve apreender o que é ser-criatura, o que é possuir ser, ou seja, tempo e lugar, e, dessa forma, estar sujeito a limitações. Com base na analogia estabelecida por Mestre Eckhart, ser criatura é ser-parte ou membro e não uma individualidade autônoma e independente. Ser criatura é ser num pertencimento inalienável. À base da analogia está, portanto, uma apreensão   do Lugar de Deus - lugar de deus como o modo de ser inteiramente uno e uma apreensão do lugar das criaturas como o modo de ser parte integrante e orgânica, de ser num pertencimento.

Christophe Andruzac: RENÉ GUÉNON, LA CONTEMPLATION MÉTAPHYSIQUE ET L’EXPÉRIENCE MYSTIQUE

Segundo trabalhos de M.D. Philippe, precisemos que a «pessoa» (apreendida ao metafísica   - nível metafísico, ao nível do ser, e não ao psique - nível psicológico — onde se vê o crescimento vital e o condicionamento) não é um princípio; ela exprime o «pos», o «como», a maneira de ser da mais perfeita ousia   que o filósofo pode experimentar diretamente: o homem, ser dotado de espiritualidade (intelecto - intelectualidade e amor - amor espiritual). Se, segundo Guénon, o Si é mais que a personalidade, se é «o princípio transcendente e permanente do qual [... por exemplo] o homem não é senão uma modificação   transitória e contingente» e se «imutável   em sua própria natureza não é afetado pelo desenvolvimento das possibilidades indefinidas das ato-potência - passagens da potência ao ato» do ser do qual é princípio, devemos convir que por nenhum aspecto dele mesmo o Si é ser-em-potência. Se além do mais ele não difere de Brahma  , então é «algo» do divino ele mesmo. Mestre Eckhart dele fala nestes termos: «Há na alma algo que é incriado e incriável — e isso é o Intelecto». Enfim Tomás de Aquino   nos fornece a chave última de compreensão, apesar de em sua obra ter evitado de uma maneira geral se referir às outras tradições que aquela de sua Igreja  : «A criatura, em Deus, é a essência divina ela mesma». É dizer que há no divino o arquétipo de cada criatura. O fim último de todo ser dotado de espiritualidade, dele somente, é, de certa maneira, de «retorno - retornar» a este estado   principial de onde procede.