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Religion after Religion

Wasserstrom: Fenomenologia da Religião

terça-feira 23 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Excertos da tradução em português de Dimas David   Santos Silva, do livro de Steven Wasserstrom  , «Religion after Religion»

    

O enfoque europeu no período entreguerras, no mito   e no símbolo, com sua concomitante rejeição pelo academicismo, correu o risco de estetização. Uma resposta   a este sério   dilema pareceu, durante um certo período, ter-se originado daquilo que veio a ser chamado de ‘fenomenologia das religiões’. Nos anos cinquenta, Mircea Eliade  , Henry Corbin   e Gershom Scholem   se autodenominavam ‘fenomenologistas’, embora Eliade o tenha feito com muito menos frequência do que os outros. A nova ‘História das Religiões’ de Eliade, contudo, foi planejada explicitamente para agrupar a ‘fenomenologia da religião’. Em 1961 ele abriu seu novo jornal, História das Religiões, com um manifesto  , a ‘História das Religiões e um Novo Humanismo’. No mesmo, em uma de suas declarações metodologicamente mais explícitas, ele buscou um enfoque à religião que transcendesse a fenomenologia e a história ‘para atingir uma perspectiva mais ampla na qual essas duas operações intelectuais pudessem se aplicar juntas’.

Gershom Scholem conheceu a fenomenológica ‘intuição   das essências’ de Edmund Husserl   (Reine Wesenschau) durante seus estudos na faculdade em 1917-1918, em Jena. Como mais tarde escreveu, tinha considerado ‘suspeito’ o conceito. Por volta de 1919, ‘cheguei a rejeitar a fenomenologia de Husserl, embora tivesse tido muita simpatia pela mesma durante vários anos’. Ainda assim, Husserl foi para Scholem ‘talvez a mente   mais aguda a surgir   entre os judeus   alemães’. Meio século mais tarde, a 14 de julho de 1968, Gershom Scholem apresentou um discurso de abertura em Jerusalém com o tema da redenção, na Associação Internacional de História das Religiões. Ali fez talvez sua discussão mais veemente da ‘História das Religiões’ e da ‘fenomenologia das religiões’. Depois de levantar uma longa série de questões retóricas, ficou aguardando as respostas. Muito especialmente, reconheceu as legítimas diferenças que distinguiam esse campo   da teologia. Quaisquer que sejam tais diferenças, continuou ele, invocando o agrupamento praticado na fenomenologia da religião — Religionswissenschaftler, para usar o termo comumente aceito — têm a grande virtude de manter consigo seu julgamento  .

Contudo, entrando na esfera   da pesquisa em profundidade do fenômeno da religião, todos nós concordamos que as declarações que se referem às últimas verdades ou ao valor   de um determinado sistema ou série de fatos não nos dizem respeito. Tentar descrever ou compreender os fenômenos da religião pode ser algo muito modesto em comparação com as aspirações ambíguas daqueles que clamam ter uma mensagem, sejam teólogos ou testemunhas da Verdade. No entanto, isto é o que o estudo histórico pretende e, para atingir isto, é necessário um imenso esforço de mentes disciplinadas e a cooperação de muitos estudiosos dos quatro cantos da Terra  .

Na introdução da sua primeira série de palestras de Eranos, ele citou fenomenologia como essencial para entender os sistemas simbólicos. «Um entendimento apropriado deles requer tanto uma atitude ‘fenomenológica’ para ver as coisas como um todo e um dom para a análise histórica». A nota obituária de Alexander Altmann para Gershom Scholem parece acurada quando ele fala do ‘enfoque fenomenológico’ de Scholem em Eranos. A respeito da identificação de Scholem como ‘fenomenologista’, o aluno   de Altmann, Elliot Wolfson, concorda. Moshe Idel  , outro líder   sucessor de Scholem, falou muitas vezes das concepções de Scholem sobre o ‘estado   de muito estudo do fenômeno religioso’ e especialmente sobre a relação íntima entre suas noções de ‘História das Religiões’, fenomenologia da religião e religião comparada’. Em resumo, como Eliade, Scholem tentou ser não somente um historiador mas também um fenomenologista. ‘Nihilismus ais religiose Phänomen’, a última palestra de Scholem em Eranos, ainda apontava para sua permanente preocupação com os fenômenos da religião. As entidades ou categorias   fundamentais, com as quais Gershom Scholem organizou os dados, em suma, não eram arquétipos, mas sim fenômenos.

É notável que tanto Scholem quanto Corbin diziam que a fenomenologia foi antecipada pelos místicos que eles estudaram. Scholem afirmou que Cordovero, o cabalista do século dezesseis, foi um deles: «Cordovero wäre als Phänomenologe». De maneira similar, Henry Corbin fez tal afirmação em relação a seus teosofistas: ‘Tusi analisa com a mão   segura do fenomenologista«.»Tusi traça um início em relação a essa fenomenologia, com dados notáveis". Portanto, a ideia — explicitamente evidenciada por Scholem e Corbin — é que o erudito estuda os fenômenos apresentados nos termos em que os mesmos se apresentam. Este enfoque presume uma ‘realidade religiosa’ ou, como disse Gershom Scholem a respeito do judaísmo, ‘um fenômeno espiritual, um organismo vivo’. Portanto, pode muito bem ser que símbolos para Gershom Scholem, até o ponto em que expressam a ‘realidade religiosa’ do processo teogônico, sejam, sem dúvida, tautegóricos. Para Corbin, de forma similar, algo que transcenda a mera vida física   se expressa categoricamente através dos fenômenos religiosos. Estes fenômenos tautegoricamente se confundem com o Deus   inicial de um mundo em formação.

Os fenômenos da religião, então, podem ser vistos como se referindo significativamente, de algum modo, a si mesmos, precisamente para se perceber a transcendência   através deles. A fenomenologia, por conseguinte, para Corbin, estava em atrito com o historicismo: «Não tentamos produzir obras de pura erudição histórica, visto que, de nossa parte, não temos inclinação   a nos fechar dentro das perspectivas neutras e impessoais do historicismo. O que buscamos em primeiro lugar ressaltar é uma fenomenologia dos símbolos avicenos em seu contexto iraniano.» Corbin insistiu que tal fenomenologia penetrou em verdades que, de outra maneira, ficariam obscuras na pesquisa histórica. «Em cada caso a luz   reveladora precedeu a luz revelada e a fenomenologia não faz nada mais do que desvelar mais tarde o fato já acontecido». Em outro ponto ele definiu fenomenologia como a «redescoberta dos fenômenos, isto é, encontrando-os onde acontecem e onde costumam acontecer». Ele foi geralmente cuidadoso em distinguir   a pura fenomenologia como o ponto de vista da teologia da História das Religiões. ‘A pura fenomenologia’, explicou ele, era aquela ‘análise que revela a intenção   oculta em um fenômeno, sob o que está aparente, sob o zahir. Portanto, fenomenologia é exatamente kashf   al-mahjub, kashf al-asrar (revelação do oculto, dos segredos — SMW)’. Talvez sua mais sucinta formulação do método fenomenológico seja encontrada em sua História da Filosofia Islâmica. A pesquisa fenomenológica, observou ele,

é baseada na regra   sozein tu phainomena, guardar as aparências — isto é, levar em conta o que está por baixo do fenômeno, como estes aparecem e para quem aparecem. O fenomenologista não esta interessado em dados materiais em si — é muito fácil dizer que tais dados estão ‘sem validade’ (nossos dados modernos e científicos perdem a validade com a maior facilidade passados apenas dez   anos). O que o fenomenologista está interessado em descobrir é a imagem primordial — a imago mundi a priori   — que é o órgão e a forma de percepção desses fenômenos.

A fenomenologia de Corbin, em parte, se baseia no conceito de Goethe   do Urphänomen. Ele descreveu este conceito como ‘o fato inicial, objetivo, absolutamente primário e irredutível (Urphänomen) de um mundo de imagens arquetípicas ou fontes de imagens cuja origem   é não racional e cuja incursão em nosso mundo é imprevisível, mas cujo postulado compele ao reconhecimento’. Os Urphänomen, insistiu ele, eram irredutíveis. ‘Não importam quantas circunstâncias externas sejam cotejadas, a soma ou o produto delas nunca resultará no fenômeno religioso inicial (Urphänomen), que é tão irredutível quanto a percepção do som   ou da cor’.

As experiências de um Shaikh Ahmad, como de todos os grandes visionários, têm as características de um fenômeno básico (Urphänomen), tão irredutíveis quanto a percepção do som ou da cor. A fenomenologia da experiência religiosa não deve ser inferida de nada mais, nem reduzida a algo mais através de explanações causais ilusórias.

Para terminar, deve-se notar que, quando Carl Jung   veio se reunir   em uma apresentação em Eranos, para uma plateia americana, em 1939, ele disse o seguinte: «Apesar da grande variedade dessas contribuições na forma e na temática, estão todas relacionadas com ideias centrais e transcendentes — ou seja, com a ideologia e a fenomenologia do caminho   da salvação   ou da redenção.»