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Olho Triângulo

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Perenialistas
René Guénon: Guenon Olho Que Tudo Ve - OLHO QUE TUDO VÊ
Um dos símbolos comuns ao cristianismo e à maçonaria é o triângulo no qual está inscrito o Tetragrama   hebraico, [1] ou algumas vezes apenas um iod, primeira letra   do Tetragrama, que pode ser considerado como sua abreviação, [2] e que, além disso, em virtude de   sua significação primordial, [3] constitui-se também em um nome divino e mesmo o primeiro de todos segundo certas tradições. [4] Por vezes, também, o próprio iod é substituído por um olho, que, em geral, é designado como o «Guenon Olho Que Tudo Ve - Olho que tudo vê» (The_All-Seeing_Eye - The All-Seeing Eye). A semelhança   de forma entre o iod e o olho pode de fato prestar-se a uma assimilação, que tem aliás inúmeras significações e sobre as quais, sem pretender aqui desenvolvê-las inteiramente, talvez seja interessante oferecer   ao menos algumas indicações.

Em primeiro lugar, podemos notar que o triângulo em questão ocupa sempre uma posição   central [5] e que, mais ainda, na maçonaria, está expressamente colocado entre o Sol   e a Lua  . Disso resulta que o olho contido no triângulo não deveria ser representado sob a forma de um olho comum, direito ou esquerdo, pois na verdade são o Sol e a Lua que correspondem respectivamente ao olho direito e ao olho esquerdo do «Homem   Universal  », na medida em que este se identifica ao Macrocosmo. [6] Para que o simbolismo seja inteiramente correto, esse olho deveria ser «frontal» ou «central», isto é, um «terceiro olho  », cuja semelhança com o iod é ainda mais admirável. E, de fato, é esse «terceiro olho» que «tudo vê» na perfeita simultaneidade do eterno presente. [7] A propósito, há nas figurações comuns uma inexatidão, introduzindo-lhe uma assimetria injustificável, e que se deve, sem dúvida, ao fato de que a representação do «terceiro olho» parece inusitada na iconografia ocidental; no entanto, todo aquele que compreende bem esse simbolismo pode facilmente retificá-la.

O triângulo direito refere-se essencialmente ao Princípio; mas quando está invertido por reflexo na manifestação  , o olhar do olho nele contido parece de algum modo estar dirigido «para baixo», [8] isto é, do Princípio para a própria manifestação, e, além do seu sentido geral de «onipresença», adquire então de modo mais claro a significação especial de «Providência». Por outro lado, se o reflexo é considerado em particular no ser humano, deve-se observar   que a forma do triângulo invertido é exatamente o esquema geométrico do coração  ; [9] o olho que está no seu centro   é então, na verdade, o «olho do coração» (aynul-qalb do esoterismo   islâmico), com todas as significações que implica. Convém ainda acrescentar que é por isso que, de acordo com uma outra expressão  , o coração está «aberto» (el-qalbul-maf-túh). Essa abertura, olho ou iod, pode ser figurada simbolicamente como uma «chaga», e lembraríamos a propósito o coração irradiante de Saint-Denis D’Orques, do qual já falamos antes [10] e cuja particularidade mais notável é precisamente o fato de que a chaga, ou o que tem essa aparência exterior, assemelha-se visivelmente à forma de um iod.

E não é tudo. Ao mesmo tempo em que figura o «olho do coração», como acabamos de dizer, o iod, de acordo corn uma de suas significações hieroglíficas, representa também o «Grão   e Palha - germe» contido no coração assimilado simbolicamente a um fruto  , o que pode aliás ser entendido tanto no sentido macrocósmico quanto no microcósmico. [11] Em sua aplicação ao ser humano, essa última observação   é comparável às relações do «terceiro olho» com o luz, [12] do qual o «olho frontal» e o «olho do coração» representam em suma duas «localizações» diferentes, e que é também o «núcleo» ou o «Grão e Palha - germe da imortalidade  ». [13] Ainda muito significativo sob certos aspectos é que a expressão árabe aynul-khuld apresenta o duplo sentido de «olho da imortalidade» e «fonte de imortalidade», o que nos reconduz à ideia de «chaga» sobre a qual falamos mais acima, pois, no simbolismo cristão, o duplo jato de sangue   e água que escapa da abertura do coração de Cristo   [14] refere-se também à «fonte da imortalidade». É esse «licor da imortalidade» que, segundo a lenda, foi recolhido no Graal por José de Arimateia. E lembraríamos por fim, a esse respeito, que a própria taça é um equivalente simbólico do coração [15] e que, como este, constitui-se também num dos símbolos esquematizados tradicionalmente pela forma do triângulo invertido.



[1Na maçonaria, esse triângulo é com frequência chamado de delta, pois a letra grega assim denominada tem na verdade uma forma triangular; mas não pensamos que se dera ver nesse paralelo qualquer indicação quanto às origens do símbolo em questão; além disso, é evidente que a significação desse símbolo é essencialmente ternária, enquanto que o delta grego, apesar de sua forma, corresponde a 4 pela ordem alfabética e pelo seu valor numérico.

[2No hebreu, o tetragrama também é, às vezes, representado abreviadamente por três iod, que têm uma clara relação com o próprio triângulo; quando dipostos triangularmente, correspondem de modo evidente aos três pontos das corporações e da maçonaria.

[3O iod é considerado como o primeiro elemento a partir do qual são formadas as demais letras do alfabeto hebraico.

[4Ver a esse respeito A Guenon Grande Triade - Grande Tríade, cap. XXV.

[5Nas igrejas cristãs, em que está figurado, esse triângulo fica normalmente colocado acima do altar; como este além disso é encimado pela cruz, o conjunto da cruz e do triângulo reproduz de modo muito curioso o símbolo alquímico do enxofre.

[6Ver Guenon Vedanta - L’Homme et son devenir selon le Vedanta,cap. XII. A esse respeito, e mais particularmente em conexão com o simbolismo maçônico, é bom notar que os olhos são na verdade os «luzeiros» que iluminam o microcosmo.

[7Do ponto de vista do «tríplice tempo», a Lua e o olho esquerdo correspondem ao passado, o Sol e o olho direito, ao futuro, e o «terceiro olho», ao presente, isto é, ao «instante» indivisível que, entre o passado e o futuro, é como que um reflexo da eternidade no tempo.

[8Pode-se fazer uma comparação entre isso e a significação do nome Avalokitêshwara, habitualmente interpretado como «o Senhor que olha embaixo» (ou «Senhor da Compaixão»).

[9No árabe, coração é qalb, e «invertido» se diz maqlub, palavra derivada da mesma raiz.

[10Ver (Cap. 69) Guenon Coração Irradiante - O Coração Irradiante e o Coração Ardente.

[11Ver Guenon Apreciações Iniciação - Aperçus sur l’Initiation, cap. XLVIII. Do ponto de vista macrocósmico, a assimilação em foco é equivalente à do coração ao «Ovo do Mundo». Na tradição hindu, o «Grão e Palha - germe» contido no «Ovo do Mundo» é Hiranyagarbha.

[12Ver Guenon Rei do Mundo - O Rei do Mundo, cap. VII.

[13A propósito dos símbolos relacionados ao luz, podemos observar que a forma da mandorla (ou «amêndoa», que é também a significação da palavra luz no hebraico) ou vesica piscis (bexiga de peixe) da Idade Média (cf. A Guenon Grande Triade - Grande Tríade, cap. II) evoca igualmente a forma do «terceiro olho». A figura do Cristo glorioso, no seu interior, aparece desse modo identificada ao «Purusha no olho» da tradição hindu. A expressão insânul-ayn (o homem do olho), empregada no árabe para designar a pupila (ou menina) do olho, refere-se também ao mesmo simbolismo.

[14O sangue e a água são aqui dois complementares. Poderíamos dizer, empregando a linguagem da tradição extremo-oriental, que o sangue é Yin-Yang - yang e a água Yin-Yang - yin, considerando-se a mútua relação entre esses dois elementos. (Sobre a natureza ígnea do sangue, cf. Guenon Vedanta - L’Homme et son devenir selon le Vêdânta, cap. XIII.)

[15Além disso, a lenda da esmeralda caída da fronte de Lúcifer, coloca também o Graal em relação direta com o «terceiro olho» (cf. Guenon Rei do Mundo - O Rei do Mundo,cap. V). Sobre a «pedra caída dos céus», ver também (Cap. 44) Guenon Lapsit exillis - Lapsit exillis.