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TERMOS CHAVES

Adão Alma Espírito

RELIGIÃO

quinta-feira 21 de julho de 2022, por Cardoso de Castro

    

O primeiro homem  , Adão, tornou-se alma   vivente; o último Adão, espírito   vivificante. Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal  ; depois o espiritual. O primeiro homem, sendo da terra  , é terreno; o segundo homem é do céu. Qual o terreno, tais também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais. E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial. (1Cor 45-49)

    

Roberto Pla

Evangelho de Tomé - Logion 15; Evangelho de Tomé - Logion 30; Evangelho de Tomé - Logion 38; Evangelho de Tomé - Logion 40; Evangelho de Tomé - Logion 47; Evangelho de Tomé - Logion 56

Paulo Apóstolo   faz seu este ensinamento da vivificação da alma   e o repete em várias ocasiões, inclusive quando dá aos coríntios sua definição sobre os dois   "adãos" que foi tão mal entendida. O Apóstolo diz: "Foi feito o primeiro homem  , Adão  , alma vivente; o último Adão, espírito   que dá vida".

Levados pela importância que para as teses da antropologia manifesta — a qual propunha um homem dicótomo, de alma e corpo — tinha que o primeiro homem, segundo a Escritura, não fosse o espírito   feito à imagem de Deus   no sexto dia [Gen 1,27], senão a alma plasmada pelas mãos de YHWH-Deus no Paraíso   (Gen 2,7), poucos parecem ter reparado em que o essencial do texto paulino era a diferença   que se aponta entre dar vida e ser vivente.

Quando se dá a vida é, em puro sentido neotestamentário, porque se tem a vida em propriedade, para sempre. Ao contrário, ter vida por vivificação credita uma maneira transitória de ser vivente que não exime de ser mortal  , quer dizer, não libera de morrer quando a vivificação conclui.

Por outra parte, dado que o espírito se revela como o Ser real   do Adão último, o Adão completo  , se indica na definição paulina a glorificação da imortalidade que aguarda à consciência   psíquica se se essencializa a si mesma, por virtude   da fé no Cristo   preexistente, no Espírito de Deus, até o ponto de união   com ele, e alcançar assim seu verdadeiro e eterno Ser pneumático.

René Guénon

Nas doutrinas tradicionais, porém, uma teoria   física (no sentido antigo dessa palavra  ) jamais pode ser considerada como auto-suficiente. Ela é apenas um ponto de partida, um "suporte" que permite, por meio de correspondências analógicas, elevar-se   ao conhecimento das ordens superiores; aí está, como se sabe, uma das diferenças essenciais entre o ponto de vista da ciência sagrada ou tradicional e o da ciência profana, tal como é concebida pelos modernos. Não é portanto apenas o éter  , no sentido próprio   da palavra, que reside no coração  ; na medida em que o coração é o centro   do ser humano considerado em sua integralidade, e não apenas em sua modalidade corporal, o que se encontra nesse centro é a "alma vivente" (Jivatma) que contém em princípio todas as possibilidades que se desenvolvem no curso da existência individual, da mesma forma que o éter contém em princípio todas as possibilidades da manifestação   corporal ou sensível  . É notável, sob o ângulo das concordâncias entre as tradições orientais e ocidentais, que Dante   fale também do "espírito da vida que habita a mais secreta câmara do coração, [1] ou seja, precisamente a mesma "cavidade" de que se trata na doutrina hindu. E o que talvez seja o mais singular, é que a expressão   por ele empregada a esse respeito, spirito della vita  , é uma tradução literal, tão rigorosa quanto possível, do termo sânscrito Jivatma, do qual no entanto é muito pouco provável que tenha tomado conhecimento por uma via qualquer.

Isso não é tudo: o que diz respeito à "alma vivente" que reside no coração, refere-se apenas, ao menos diretamente, a um domínio   intermediário  , que constitui na verdade   o que se pode chamar de ordem psíquica (no sentido original da palavra grega psyche) e não ultrapassa a consideração   da individualidade humana como tal. Daí, portanto, é necessário elevar-se ainda a um sentido superior, ou seja, o sentido puramente espiritual ou metafísico; apenas devemos notar que a superposição desses três sentidos corresponde exatamente à hierarquia dos "três mundos". Assim, o que reside no coração, de um primeiro ponto de vista, é o elemento   etéreo, mas não consiste apenas nisso; de um segundo ponto de vista, é a "alma vivente" e que também não se resume a isso, pois o coração representa essencialmente o ponto de contato do indivíduo   com o universal  , ou, em outros termos, do humano com o Divino  , ponto de contato este que se identifica naturalmente com o próprio centro da individualidade. Por conseguinte, faz-se necessária aqui a intervenção de um terceiro ponto de vista, que se pode dizer "supra-individual", pois ao exprimir as relações do ser humano com o Princípio, ultrapassa por isso mesmo os limites da condição individual, e é desse ponto de vista que se diz por fim que o próprio Brahma   reside no coração, ou seja, o Princípio divino do qual procede e depende inteiramente toda existência, e que, do interior  , penetra, sustenta e ilumina todas as coisas. O éter, no mundo corporal, pode também ser considerado como o que tudo produz e tudo penetra; é por isso que os textos sagrados da Índia e seus comentários autorizados o apresentam como um símbolo de Brahma. [2] O que se designa como "o éter no coração", no sentido mais elevado, é portanto Brahma, e, por conseguinte, o "conhecimento do coração", quando alcança o seu grau mais profundo, identifica-se na verdade ao "conhecimento divino" (Brahma-vidya). [3]


Ver online : ADÃO


[1"In quel punto dice veracementa che le spirito della vita, le quale dimora nella segretissima camera dei cuore..." (Vita Nuova, 2).

[2"Brahma é como o éter, que está por toda parte, e que penetra simultaneamente o exterior e o interior das coisas" (Sankaracharya, Atma-Bodha).

[3Esse próprio conhecimento divino pode ser ainda de duas espécies, "não supremo" (apara) ou "supremo" (para), que correspondem respectivamente ao mundo celeste e ao que está além dos "três mundos". Essa distinção, no entanto, apesar de sua extrema importância do ponto de vista da metafísica pura, não interfere nas considerações que estamos expondo, o mesmo acontecendo com os dois diferentes graus em que, correlativamente, a própria "União" pode ser considerada.