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Arcanjos

segunda-feira 28 de março de 2022, por Cardoso de Castro

Simbolismo - Bernard Teyssèdre: Excertos de Bernard Teyssèdre, “Anges, astres et cieux : Figures de la destinée et du salut”

Embora o termo “arcanjo” (gr. arkaggelos) não seja atestado antes da era cristã, o conceito está em lugar desde quando Daniel opôs “o selo do nome próprio” sobre eminentes personagens celestes, Mikhael e Gabriel, nitidamente destacados de uma coletividade anônima, “miríades de miríades” (Dn 7,10). Pouco antes a história de Tobias fez surgir em cena Raphael. Estas três figuras manterão até nossos dias, apesar de eventuais eclipses, seu nível elevado na hierarquia, sem no entanto ter jamais composto uma “tríade”.

Outros nomes surgiram como Uriel, o guia de Enoque   em seu “Livro das Luminárias”. O fator determinante para agrupar os anjos foi a simbólica dos números. Ela propunha dois modelos, um fundado sobre o número sete e outro sobre o quatro.

Sete, número do absoluto saber. “Sete olhos de YHWH percorrem a terra inteira” (Za 4,10). Quatro, número do supremo poder. Os Quatro Viventes da Merkabah e suas quatro rodas avançam onde o espírito-sopro os leva, “na direção dos quatro ventos” (Ez 1,17).

A mais antiga indicação sobre o número dos anjos não é anterior ao ano 200 AC. No livro de Tobias, Rafael se apresenta como ”um dos sete anjos que se mantêm sempre prontos a penetrar junto da Glória do Senhor”. Nada indica se o autor tinha conhecimentos dos seis outros nomes. Enoque  , em seu “Livro dos Egrégoros”, incorpora Rafael seja em um quaternário, seja em um septenário. Mas parece indicar em seu Sonho, por volta de 164 AC, que entre as duas tradições concorrentes, uma fundada sobre a cifra sete, a outra sobre a quatro, o esforço de síntese alcançara um compromisso. O patriarca viu “sair do céu” sete anjos “semelhantes a homens em branco”, quatro a princípio, três em seguida. Estes últimos são os que conduzem Enoque   sobre uma alta montanha próxima a torre divina, para que ele observe os quatro primeiros anjos castigando os Egrégoros e os Gigantes, em seguida salvando Noé do Dilúvio. Eles ainda, no Fim dos Tempos, o tomarão “pela mão” para o introduzir na Jerusalém Celeste. Quando do Juízo Final, os sete “homens brancos” reunidos conduziram todos os anjos maus diante de Deus que os fará jogar no abismo de fogo. Este “Sonho” tem por efeito instaurar um septenário sem prejudicar o estatuto privilegiado de um quaternário.


Philippe Faure: Excertos de Les Anges

A literatura apocalíptica, cujo livro de Daniel é o exemplo mais famoso, repousa sobre o princípio de revelação da Glória divina. Por esta razão, ela concede aos anjos um lugar maior, chegando a forjar nomes próprios. Um só nome era até então mencionado, o de Rafael, curador e protetor de Tobias, “um dos sete anjos que se mantêm diante da Glória do Senhor” (também 12,15). Duas novas personalidades se afirmam particularmente, Gabriel, o anjo intérprete das visões (Dn 8,16; 9, 21-23) e Miguel, que tem o papel de anjo de YHWH e sustenta um duplo combate, histórico e escatológico, contra o demônio.

Miguel aparece como o príncipe dos anjos, que vem em ajuda de Israel. Sua figura permite precisar a correspondência entre a corte terrestre e a corte celeste: cada nação tem seu príncipe-protetor espiritual que a representa e a defende diante da corte divina.

Um apócrifo célebre, o (livro de Enoque  , fixa o nome e a função dos quatro arcanjos superiores encarregados de garantir a justiça: Uriel (fogo de Deus), Rafael (Deus cura), Gabriel (Força de Deus) e Miguel (que é como Deus). Outros nomes são forjados segundo o mesmo procedimento, que consiste em juntar o sufixo “El” (a Divindade - divindade) a uma raiz designando a função ou a qualidade angélicas. Enumera-se assim setenta nações e correspondentes anjos guardiões. Os anjos tomaram o lugar dos deuses particulares dos povos. em parte talvez sob a influência babilônica. É por eles que Deus se revela e dita sua Lei às nações. Eles dispõem de uma certa autonomia, mas são sempre responsáveis diante de YHWH.


Gilbert Durand  : Excertos de "A Fé do Sapateiro"

O Concílio Vaticano II — contradizendo totalmente Divino afflatu, a Quam_singulari - bula de Pio X, de primeiro de novembro de 1911, e desprezando tradição angelológica tão poderosa entre o "povo do Livro", como o mostrava de forma clara um recente e sábio colóquio havido não na Cúria romana, mas na universidade de Tours — os arcanjos Gabriel, Rafael e todos os santos anjos estão agora afastados e amontoados na festa da consagração do arcanjo Miguel, perto do equinócio do outono. Ora, o nosso antigo calendário tivera o cuidado de situar os três arcanjos maiores da cristandade, Gabriel, Miguel e Rafael, nas cúspides do equinócio da primavera (Gabriel, em março, secundado pelo legendário São Jorge em abril) e do outono (Miguel, secundado por Rafael, na cúspide do escorpião). Porque esses três arcanjos, como aliás todos os outros, tipificam potências distintas, orientadores cada uma delas de uma função, de um mundo. Gabriel é o angelus rector da lua e, especialmente na tradição islâmica em que tem o papel de intermediário, de "arcanjo purpurado", o mais próximo da humanidade "sublunar", enquanto Miguel, com sua espada flamejante, é o rector do sol; Rafael, o protótipo do médico, protetor da Viagem de Tobias, é o rector de Mercúrio, o planeta do deus viajante e condutor das almas.