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Chenique Fogo

segunda-feira 28 de março de 2022

    

FOGO   E CAMINHOS
O Fogo, Símbolo da Bondade

O Fogo, símbolo de Primeiro Mandamento   - amor ao próximo (quarta meditação   da ação), é ainda bem mais o símbolo tradicional do amor divino que justifica e reclama o Primeiro Mandamento - amor ao próximo. Como o fogo reaquece os membros entorpecidos e derrete o gelo, o Primeiro Mandamento - amor de Deus   estimula o ardor da alma   e produz a dissolução do ego, simbolizado nas Escrituras   pelo «coração   endurecido».

O coração, centro   vital do ser humano  , é o lugar de estada do Divino em nós [1], o ponto de inserção do basileia   - Reino dos Céus que está em nosso interior (Luc. XVII, 21), a fonte   de onde vêm os bons e os maus pensamentos, que nos salvarão ou nos condenarão (Mat. XV, 15-20). Isso explica a importância que tomaram na Philokalia   - Igreja   do Oriente práticas como a «nepsis   - sobriedade dos pensamentos», a «philake   kardias - guarda do coração», e, sobretudo, a célebre «Kyrie Eleison   - prece   do coração» da qual o Relatos de um Peregrino   Russo - Peregrino russo testemunha os efeitos reais até a nossa época: «A partir desse momento, eu sentia, de vez em quando, diversas sensações novas no coração e no espírito  . Às vezes havia como que um borborinho em meu coração, e uma leveza  , uma liberdade, uma alegria  , tão grandes, que por elas eu me transformava e me sentia em êxtase. Às vezes eu sentia um amor ardente por Jesus Cristo  , e por toda a criação divina. Às vezes minhas lágrimas corriam por si mesmas, pelo reconhecimento ao Senhor que tinha tido piedade de mim  , pecador empedernido. Às vezes meu espírito limitado de tal forma se iluminava que eu compreendia, claramente, o que antes nem mesmo teria podido conceber. Às vezes o doce calor do meu coração se espalhava por todo o meu ser, e eu sentia, com emoção, a presença   expandida do Senhor. Às vezes eu sentia uma alegria profunda e poderosa à invocação do nome de Jesus Cristo, e compreendia o que significa sua palavra: O Reino de Deus está em vosso interior» [2].

O Ocidente conheceu o culto do Sagrado   Coração, esse coração de Cristo, ao mesmo tempo chamejante (amor) e radioso (luz) que deixou escapar   sobre a cruz cósmica de seis direções o mistério da água e do sangue   [3]. Esse mistério do amor universal   de Cristo, São Paulo   deseja ardentemente que os efésios compreendam: «Por esta causa   dobro eu os joelhos diante do Pai   de Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual toda paternidade tomo o nome nos céus e na terra  , para que, segundo as riquezas da sua glória  , vos conceda que sejais corroborados em virtude pelo seu Espírito no homem interior  , para que Cristo habite em vossos corações, pela fé. Arraigados e fundados em caridade, para que possais compreender com todos os Santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade. E conhecer também a caridade de Cristo, que excede todo o entendimento, para que sejais cheios, segundo toda a plenitude   de Deus» (Ef. III, 14-19) [4].

O Fogo, Símbolo da Luz e do Conhecimento

Na quarta meditação do caminho da devoção, o Fogo foi visto como calor e bondade. Aqui, ele é Luz e Conhecimento, o próprio coração podendo ser representado como um coração chamejante, símbolo da luz e do conhecimento [5]. O coração é como que um «sol espiritual», fonte de calor, portanto de vida, e, também, fonte de luz e de vida, segundo o versículo de São João: «Nele estava a vida, e a vida era a luz   dos homens» (João I, 4) [6].

O fogo que habita o centro do ser humano é, ao mesmo tempo, calor e luz, isto é, amor e conhecimento [7]; isso explica que os termos emprestados pela afetividade possam ser transportados, analogicamente, a uma ordem   superior para descrever a experiência das realidades profundas da vida espiritual, e assim é em todas as doutrinas tradicionais   [8].

O coração simboliza a faculdade de conhecimento direto, a intuição   intelectual, quando o cérebro   é o instrumento do conhecimento discursivo e racional. O cérebro tem um papel de «transmissor» ou de «transformador» [9] como a lua   transmite e reflete a luz do sol sem ser ela própria luminosa [10].

«A razão  , realmente, que não é senão uma faculdade mediata do conhecimento, é a forma verdadeiramente humana de conhecimento; a intuição intelectual pode ser considerada como extra-humana, pois que é uma participação   direta da inteligência universal, que, habitando o coração, isto é, o próprio centro do ser, ali onde está o seu ponto de contato com o Divino  , penetra esse ser pelo interior, e o ilumina com a sua resplandecência  . A luz é o símbolo mais habitual do conhecimento, e é natural, portanto, que seja representado pela luz solar o conhecimento direto, isto é, intuitivo, que pertence ao intelecto puro, e pela luz lunar o conhecimento refletido, isto é, discursivo, que é o da razão.»Assim como a lua não pode dar sua luz se ela própria não for iluminada pelo sol, a razão não pode funcionar validamente na ordem da realidade que é seu domínio   próprio, senão sob a garantia de princípios que a esclareçam e dirijam, e que ela recebe do intelecto superior. O ‘conhecimento do coração’ é a percepção direta da luz inteligível, daquela Luz do Verbo de que fala São João no início do seu Evangelho, luz refulgente do ‘Sol espiritual’, que é o verdadeiro ‘Coração do Mundo’« [11].

A «luz incriada» que os Apóstolos contemplaram no Monte Tabor fica, para a Igreja do Oriente, como promessa da visão   de glória que os cristãos realizarão, coletivamente, no fim dos tempos, porque a Transfiguração é como uma antecipação   da segunda vinda. Mas, enquanto essa segunda vinda é esperada, o caminho sacramentai e a experiência espiritual atentam que o Reino que virá já está «dentro de nós» [12].

O homem, entretanto, não possui, enquanto homem, uma faculdade capaz de ver Deus; se ele tem visão da luz divina é porque Deus comunica ao homem o conhecimento que ele tem de si próprio: «Já que essa faculdade não tem outro meio de agir, tendo deixado todos os seres, é porque ela se torna, em si própria, e inteiramente, luz, e assimila-se ao que ela vê, unindo-se sem mescla, sendo luz. Se ela contempla a si mesma, vê a luz, se ela contempla o objetivo da sua visão, é ainda a luz que vê, e se contempla a forma que emprega para ver, ainda encontra luz, e aí é que está a união  . Que tudo seja um, de forma que aquele que vê não mais possa distinguir   nem a forma, nem a finalidade, nem a essência, mas que tenha apenas a consciência   de ser luz e de ver uma luz diferente de todas as criaturas» [13].



[1Em um artigo intitulado Le Grain de sénevé, artigo escrito em 1927 para a revista católica Regnabit, mas que só apareceu em 1949, nos Études Traditionelles, René Guénon aproxima os dois textos seguintes: «É Alma (O Espírito Divino) que reside no coração, menor do que um grão de cevada, menor do que um grão de arroz, menor do que um grão de mostarda, menor do que germe que existe no grão de milho; menor do que um grão de milho miúdo, esse Atmâ que reside no coração é também maior que a terra, maior que a atmosfera, maior que o céu, maior que todos os mundos reunidos» (Chandogya Upanixade, III, 14, 3); «O Reino dos Céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou no seu campo; o qual grão é, na verdade, a mais pequena de todas as sementes, mas depois de ter crescido é a maior das hortaliças, e se faz árvore, de sorte que as aves do Céu vêm a fazer ninhos nos seus ramos» (Mat. XIII, 31-32).

[2(Relatos de um Peregrino Russo - RELATOS DE UM PEREGRINO RUSSO)
Eis um extrato da célebre conversação entre São Serafim de Sarov com Motovilov: «Notai bem, vosso Teófilo, que me dissestes ainda há pouco que o calor estava como o que se sente nos banhos. Entretanto, olhai, a .. neve que nos cobre não derrete, como não derrete a que está sob nossos pés; esse calor, portanto, não está no ar, mas no interior de nós mesmos. É esse calor que o Espírito Santo nos leva a pedir, na oração, quando clamamos a Deus, dizendo: Que teu Espírito Santo me aqueça! Aquecidos por esse calor, os eremitas não temem o frio do inverno, vestidos com peliças quentes, tecidas pelas graças do Espírito Santo. E assim é que as coisas devem ser, em realidade, pois que a graça divina deve habitar no mais profundo de nós, em nosso coração, como disse o Senhor: ‘O Reino dos Céus está em vós’». É possível encontrar-se grandes extratos dessas conversações em Vladimir Lossky. Essai sur la théologie mystique de l’Église d’Orient, cap. XI. “La Suite des récits du pèlerin russe” (três descrições inéditas), assim como o Entretien avec Motovilov, estão editados na série «Spiritualité orientale», pela abadia de Bellefontaine, F 49720, Brégolles-en-Mauges.

[3Em Guenon Simbolos Ciencia Sagrada - Symboles fondamentaux de la Science Sacrée foram reunidos numerosos artigos escritos por René Guénon e publicados em Le Voile d’Isis ou nos Études Traditionelles. Além do «Le grain de sénevé» citemos como artigos referentes ao coração: O Sagrado Coração e a lenda do Santo Graal, O Coração e a Caverna, O Coração e o Ovo do Mundo, O Coração resplandescente e o Coração chamejante, Coração e cérebro, O Éter no coração, a Cidade divina.

[4René Guénon escreveu, de 1925 a 1927, 19 artigos para a revista Regnabit, fundada pelo R. P. Anizam Omi e consagrada à «resplandescência intelectual do Sagrado Coração»; vários desses artigos tratavam do simbolismo e da doutrina do coração, e alguns foram usados nos Guenon Simbolos Ciencia Sagrada - Symboles jondamentaux de la Science Sacrée. O último artigo, Guenon Grão de Mostarda - Le grain de sénevé, não pôde aparecer em 1927 em consequência da hostilidade declarada dos meios neo-escolásticos. René Guénon teve, depois, de deixar a França, em 1930, e viver no Cairo até sua morte, no dia 7 de janeiro de 1951. Ele jamais compreendeu a querela despertada contra a sua pessoa por parte dos representantes do pensamento católico francês da época, mas essa atitude hostil desfez, em René Guénon, ao que parece, a esperança de uma restauração tradicional do Ocidente pelo catolicismo.

[5Ao que parece, as mais antigas representações do Sagrado Coração pertencem ao tipo do coração resplandecente, enquanto as mais recentes, a partir do século XVII, são as do coração chamejante. Remetemos, sobre esse ponto, ao artigo de René Guénon, O Coração resplandecente e o Coração chamejante, em Guenon Simbolos Ciencia Sagrada - Symboles fondamentaux de la science sacrée, capítulo LXIX. A redação primitiva desse artigo tinha aparecido na revista Regnabit, em abril de 1926.

[6Em seu Hymne au Soleil, Proclus escreve: «Ocupando acima do éter o trono do meio, e tendo por imagem um círculo deslumbrante que é o Coração do Mundo, tu enches tudo de uma providência própria para despertar a inteligência». Trad. Mario Meunier. Essas passagens e as seguintes são retomadas por R. Guénon no artigo citado da nota precedente. «O nome de Inteligência do Mundo que se dá ao Sol, responde ao de Coração do Mundo; fonte de luz etérica, o Sol é, para esse fluido, o que o coração é para o ser animado». Macróbio, Sonho de Cipião, I, 20. «O Sol. . . tendo a força de um coração, dispersa e difunde de si próprio o calor e a luz, como se fossem sangue e sopro». Plutarco, De la face que l’on voit dans le cercle de la lune, 15, 4. O sopro é, aqui, o símbolo do espírito e do conhecimento intelectual, enquanto o sangue é o símbolo do calor e da vida orgânica.

[7Quando os dois aspectos estão separados, existe no homem um calor sem luz, que é o sentimento, e uma luz sem calor, a da razão, luz refletida e fria como a luz lunar que a simboliza. Esclarecemos esse ponto mais adiante, e convém recordar que os Antigos representavam o Amor como cego.

[8É por isso que o Velho e o Novo Testamentos determinam que se ame a Deus «de todo o coração». Deut. VI, 5; Mat. XXII, 37.

[9Tomamos essas palavras de René Guénon, Coeur et Cerveau, cap. LXX, dos Guenon Simbolos Ciencia Sagrada - Symboles fondamentaux de la Science sacrée.

[10Daí o nome de «reflexão» dado ao pensamento racional, porque as coisas não são aí vistas senão como num espelho, per speculum in aenigmate, I Cor, XIII, 12; v. artigo de R. Guénon, citado na nota precedente. Nesse artigo, René Guénon aproxima as palavras vindas de raízes indo-europeias ME e MEN. A primeira implica a ideia de medida (sânscrito matra, grego metron) e a do mês (sânscrito mas, grego men, latim mensis) medido pela lua: inglês moon e month, alemão Mond e Monat; a segunda raiz indica os movimentos do espírito, pensamento e lembrança: sânscrito manas, mental; grego mnémé, lembrança, memória; latim, mens; inglês mind, espírito, e man, homem; alemão meinen, pensar, e Mann, homem. O homem é definido, especificamente, pelo «mental» (a razão) que o diferencia de todos os outros seres; esse mental, faculdade de pensamento discursivo, de reflexão e de memória, é simbolizado pela lua, um de cujos aspectos representa a «memória cósmica».

[11René Guénon. Coeur et Cerveau, que é o capítulo LXX dos Guenon Simbolos Ciencia Sagrada - Symboles fondamentaux de la Science Sacrée. Segundo a terminologia escolástica, o intelecto é habitus principiorum, enquanto a razão é habitas conclusionum. A propósito do intelecto angélico e do intelecto humano, São Tomás ensina que o intelecto não se pode enganar quando apreende a essência ou a quididade das coisas; pode, entretanto, enganar-se per accidens, quando apreende o que está ligado à essência pela composição, a divisão, ou o raciocínio (S. Teo, I, q. 58, a. 5 e q. 85, a. 6); neste último caso não mais se trata de intelecto puro, mas da razão, porque a infalibilidade da inteligência não se aplica senão à captação intuitiva das verdades, e não à sua formulação ou à sua tradução de forma discursiva. São Tomás refere-se a Aristóteles:»A intelecção dos indivisíveis tem por domínio tudo aquilo que exclui o risco de erro. Em compensação, onde o falso e o verdadeiro são possíveis, já aparece uma composição de conceitos tomados como formando uma unidade«. De l’âme, III, 6, princípio;»O verdadeiro é discernir e enunciar o que se discerniu, afirmação e enunciação não sendo idênticas; ignorar não é discernir. Com efeito, não há engano possível a propósito da natureza de uma coisa, senão por acidente, e o caso é o mesmo em relação a substâncias não compostas: a esse respeito não se pode ter um engano«. (Métaph. Tetha, 10, 1051 b 25). Aristóteles nota o papel fundamental da intuição, ao fim dos Seconds Analytiques (100 b 15):»Se, pois, não possuímos fora da ciência nenhum outro gênero de verdadeiro conhecimento, eis que a intuição é o princípio da ciência. E a intuição é o princípio do próprio princípio, e toda a ciência se comporta, em relação ao conjunto das coisas, como a intuição em relação ao princípio«Recordemos essas definições de São Tomás:»Ratio discursum quemdam designai, quod ex uno in aliud cognoscendum anima humana pervenil; intelleclus vero simplicem et absolutam cognitionem (sine aliquo molu vel discursu, statim in prima et súbita acceptione) designare videtur". De Veritate, q. 15, a. 1.

[12«Desde a Encarnação nossos corpos se tornaram ‘templos do Espírito Santo’ que está em nós (1Cor. VI, 19) e é ali, em nossos corpos, que devemos procurar o Espírito, em nossos corpos santificados pelos sacramentos, e enxertados, pela Eucaristia, ao Corpo de Cristo. Deus se encontra, assim, dentro de nós, e não mais ao exterior: assim, é no interior de nós próprios que descobriremos a luz do Monte Tabor; os apóstolos se beneficiaram, então, daquela visão, somente do exterior, porque o Cristo ainda não estava morto e ressuscitado. Hoje, porém, todos nós somos realmente membros do seu corpo, a Igreja.» J. Meyendorff. São Gregório Palamas et la mystique orthodoxe. p. 114-16. O autor, mais adiante (p. 129), esclarece que a distinção entre a essência e energias em Deus não introduz um dualismo no seio da divindade, porque Deus, em virtude da simplicidade do seu ser, encontra-se inteira e totalmente presente na essência e nas energias. É dessa forma que a teologia palamita resolve o problema do elo necessário entre o Absoluto e o mundo. A distinção entre a essência e as energias é análoga à do Nirguna-brahman, o Brahman não-qualificado, sem atributos (por estar além de todas as qualidades) e do Saguna-brahman, o Brahman qualificado e causai, Senhor de maya - Maya.

[13São Gregório Palamas. Tríades pour la défense des saints hésychastes, II, 3, 36. Ed. Meyendorff, p. 458-60.