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Vida póstuma e ressurreição no judeo-cristianismo

Tourniac (VPR) – A constituição do ser humano no judaísmo

quinta-feira 18 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

TOURNIAC  , Jean. Vie posthume et résurrection dan les judéo-christianisme. Paris: Dervy, 1983

    

Homem

O homem   da Bíblia   é carne  -Espírito  , mas a unidade   «carne» — chamada a ressuscitar é corpo e alma   tudo junto.

O homem bíblico é criado «alma viva»; deste fato a alma compreende o homem individual em sua integralidade; o verbo ter não tem sentido no tocante a alma, sendo o vivente humano denominado indiferentemente Nephesh (alma) ou Bschr (carne).

O Verbo divino não se fez «corpo» (soma) ou «alma» (psyche) mas «carne» (sarx), e não se fez hindu, chines ou grego, mas judeu  .

Todo vivente é carne (alma e corpo) por recepção do «sopro de vida»; eis uma terceira noção  : o Espírito ou o sopro. (E de toda a carne, em que havia espírito de vida, entraram de dois   em dois para junto de Noé na arca. Gen 7:15)

de vida sopro em ele este que em carne tudo
Haim Ruah Bo Ascher Ba char Mikol

Assim a alma identificada ao homem vive e morre; não é imortal, o que não significa que não possa «se prolongar» de certa maneira até o juízo   final, como veremos.

O Ruah divino nunca é dito “à morte”.

A alma bíblica experimenta paixões (pathos  ) e preenche funções orgânicas:

  • a alma ama, odeia, se apega, come e bebe, se agita e pode até possuir bens;
  • a alma detém funções corporais, em revanche o corpo e seus órgãos desempenham papeis «psicológicos»; elas exultam, são cruéis, como os rins que «advertem» e «exultam» também, em lugar da alma!...

O elemento   “sobrenatural” do homem bíblico que resta é o “Ruah”, “Rouach”, traduzido por Espírito na tradução dos Setenta (Pneuma divino). O Nabi   (profeta   é um Ish ha Ruah (Oseias IX,7). Pelo pneuma pode o homem passar da ordem   individual à ordem principial ou universal  ; o homem essencial é assim um homem de passagem (Páscoa = Pessah). O Pneuma se torna o signo   conjuntivo, o «Vav», do homem a Deus  .

Distinção entre a «manifestação  » e seu «Princípio divino», o homem (carne-alma) e Deus (conhecido pelo Espírito); este Ruah é o fator de deiformidade tornado possível pela “encarnação” da Palavra «concebida pelo Espírito Santo e nascida carnalmente da Virgem de Israel  », e pela Ressurreição   dos mortos do Crucificado, ulteriormente «subido aos céus», etc. Todos os termos aqui são confirmação da doutrina  . “Vós sois todos Deuses”, dirá a Escritura. Esta divisão   se estabelece assim entre dois triângulos simbólicos: o de baixo, identificado à natureza humana, o do alto, identificado à natureza divina. Triângulos separados pelo ramo horizontal da cruz mas unidos pelo ramo vertical da cruz, o “Vav” hebraico de copulação espiritual. Eis o escudo de Davi e a “dupla natureza” do Cristo   Jesus [1].

O Ruah no homem é participação   no Espírito de Deus; esta presença   no homem do Espírito de Deus é possível pela existência do Ruah no homem: «Se ... lhe retiras o sopro (Neshama) e seu espírito (Ruah)... o homem retorna ao pó» (Escondes o teu rosto, e ficam perturbados; se lhes tiras o fôlego, morrem, e voltam para o seu pó. Sal 104:29).

Donde o aviso no Eclesiastes: “E o pó volte à terra  , como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Ecle 12:7)

Mais uma vez: nenhuma imortalidade   da alma nisso!

Deus é chamado «Deus dos espíritos de toda carne» (Mas eles se prostraram sobre os seus rostos, e disseram: O Deus, Deus dos espíritos de toda a carne, pecará um só homem, e indignar-te-ás tu contra toda esta congregação? Num 16:22)

O Espírito ou Ruah Hayyim é também qualificado de «Espírito de Vida» e jamais de «Espírito vivente», logo mortal. A alma ou «Nephesh Hayya» é também qualificada de «Alma vivente  » e jamais de «Alma de vida», logo imortal.

Vê-se que em termos bíblicos se encontra uma constante metafísica   que as doutrinas orientais põem em evidência.

A alma é o «eu biológico» que só pode «viver  » com o corpo “pela transformação   da corrupção em incorruptibilidade” (“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue   não podem herdar o reino de Deus  , nem a corrupção herdar a incorrupção.” 1Co 15:50)

  • Esta «trans-formação» (passagem além da forma) é uma exigência do Espírito, Ruah, pois «o que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é Espírito» (O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. Jo 3:6-7)

A referência ao judaísmo para compreensão da mensagem evangélica é necessária especialmente quanto aos fundamentos da estrutura   do homem: a carne é «alma vivente  », corpo e alma, e sem confusão   entre «carne» e «Espírito», logo entre a ordem psicossomática e a ordem espiritual.

Individualidade humana

Do exterior para o interior, o homem é constituído por:

  • o corpo — «gouf»;
  • a alma vital e mortal — «nephesh»;
  • o Espírito de Deus — Ruah, «vento  », «contendo» em si em estado   principial, o mental   do ego (a participação ao Si mantém o «eu» na consciência   humana e lhe confere sua realidade e em certo sentido sua «eternidade  ».

A partir do Ruah desenvolvem-se três possibilidades próprias da individualidade humana, mas não «despertas» em todos — dependendo do «chamado» do Caminho  , do desejo de «Conhecimento», da influência dos «ritos», da compreensão dos «símbolos» e da atração do «sagrado  ».

Estas possibilidades são também, denominadas “Almas”:

  • Neshamah, alma divina ou sopro sagrado   espiritual
  • Yehida, fina ponta celeste da precedente
  • Haya, Princípio Supremo de Vida animando a precedente, a «capaz de vida eterna»

Alguns autores veem por outro lado a Nephesh (alma vital e mortal), a Ruah (alma “mental” do ego), a Neshamah (alma sagrada espiritual) e a Hayah (a alma capaz de vida eterna), como contidas no estado principial na Yehida, “a alma única e quintessencial”. Daí decorre a denominação global de alma, enquanto distinção de corpo ou “gouf”, que pode levar à confusão.

Levando-se em conta outras considerações poderia se entrever na unidade do estado humano uma “participação” em diferentes zonas do estado individual humano total segundo a decomposição:

  • o gouf (corpo grosseiro), comum aos minerais, vegetais, animais e homens;
  • Nephesh (alma vital e mortal, corpo anímico sensitivo), comum aos vegetais, animais e homens;
  • Ruah (alma «mental» do ego, princípio do ego vindo de Deus), comum aos animais e homens;
  • Neshamah (alma sagrada espiritual), Haya (alma capaz de vida eterna), contidas em estado principial na Yehida (alma única e quintessencial); próprias apenas aos homens.

A divisão clássica da alma humana na tradição   judaica é a seguinte:

  • a alma corporal (terra celeste original denominada Nephesh)
  • a alma mental (a água suscetível de perturbar e denominada Ruah)
  • a alma espiritual (aérea, ponta fina da individualidade psicossomática e sopro divino — o espírito na descrição paulina, denominado Neshamah)
  • a alma de vida eterna (luz e fogo   divino, denominado Hayah, a vivente)
  • a alma de unidade (Éter ou quintessência dos quatro elementos anímicos precedentes, na qual elas se concentram harmoniosamente na origem, e denominada Yehidah); ela contém primordialmente as outras alma.

A atribuição   de Ruah aos animais é contestada pelos doutores, os integristas negam que o animal possa ser dotado de uma “alma”, sem poder precisar a princípio de que alma se trata posto que eles só conhecem uma modalidade.

O homem se encontra assim posto no “centro  ” do estado individual humano do qual recapitula e detém todas as possibilidades, de tal forma que “todas as ‘existências’ deste estado se juntam no homem” para reencontrar o “criador” divino. Se verificam assim duas afirmações: aquela relativa à unidade do “macrocosmo”, o universo   do estado humano, e do “microcosmo”, o pequeno universo que é o homem individual e aquela concernente à “salvação   do mundo” que “passa pelo homem” — a “redenção universal” como escreverão alguns teólogos.

Também se poderia estabelecer uma espécie de correspondência simbólica entre os modo de “descida” dos mundos no Zohar  , e as “camadas” enroladas depois desenroladas das formas do “ser” denominadas a constituir “a individualidade humana” grosseira:

Ein-Sof: Não manifestado contendo tudo
Mundos (Olamim) Natureza Nível de ser Constituição do homem Gênesis
sephiroth Olam ha Azilut (Kether-Hokhmah  ) Emanação   em princípio de ser O ser   não criado em si (ageneton) Yehida Hayah Neshamah Be...
sephiroth Olam ha Beriah (Hokhmah-Binah-Tiphereth) Pensamento gerador prototípico Determinação do Si no ego-spiritus Ruah Reschit
sephiroth Olam ha Yezirah (Hesed-Geburah-Tiphereth) Forma-modalidade sutil   Anima Nephesh Bara
sephiroth Olam ha Asiyah (Tiphereth-Netsah-Hod-Yesod-Malkut Fazer sensorial e grosseiro a ação Corpus   — Gouf (estado individual humano na sua modalidade corporal) ...Va Yomer

Alma

De fato a mística judaica é complexa e as estruturas interiores da “alma” foram em grande parte perdida no cristianismo, especialmente as sutilezas de tudo aquilo que não é corpo elementar “grosseiro”, que recebia o nome de “alma”. Mesmo o judaísmo teve perdas nesta descrição analítica se comparada a doutrina rabínica oficial e os comentários dos “Mekoubalim”.

Segundo alguns, é a alma mortal Nephesh, “funcional”, que, situada em baixo e separada de Neschamah pelo sopro divino, é pecadora. Neschamah “mais ou menos desenvolvida” preexistiria à vida individual e seria impecável   por natureza. Sutilidades que conduzem grosseiramente a reduzir o homem a uma parte mortal e uma parte imortal?

Se reterá a definição judaica que contempla três forças que habitam o que se chama “alma” do homem:

  • Nephesh: aderente ao corpo, instrumento sensorial, princípio de sensação   e de movimento  
  • Ruah: de origem divina
  • Neschamah: percepção espiritual, abertura à apreensão espiritual, receptividade à luz.

As perspectivas às quais se faz alusão se referem às modalidades da Revelação divina e de suas teofanias assim como ao devir póstumo dos participantes destas Tradições. Com efeito tudo está centrado aqui sobre a “Vida”. Por seu lado a Vida está ligada ao sangue e ao elemento Ígneo. A mais fina ponta da alma, aquela que corresponde ao Éter quintessencial e que é a Unitiva Yehida, é seguido pela Alma Haya, a Vivente, simbolizada pelo elemento Ígneo.

  • A Vida: é a saudação que se dá nos “saúde  !”” quando das refeições (o Haïm!); os votos de Rosch ha Schannah, ano novo judaico, são aqueles da inscrição do Nome no Livro de Vida.
  • O Deus Vivente: O Deus de Israel é um Deus Vivente. Mas também o Deus da Nova Aliança como testemunham os Evangelhos e particularmente Mateus  : “Eu sou   o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó  ? Ora, ele não é Deus de mortos, mas de vivos.” (Mt 22,32)
  • A Vida Eterna: que diz “Deus Vivente”, diz “Vida Eterna”, expressão   que reaparece ao longo do Novo Testamento mas decorre do Antigo. Encontra-se principalmente no Evangelho de João.
    • Os componentes anímicos do Homem vivente, estão ligados como elos em uma corrente que se prendem uns aos outros; uma estrutura concêntrica, como “peles de cebola” é característica do pensamento místico   judaico.

Segundo Maurice Grinberg em sua «Introdução ao Zohar», esta seria a fórmula chave desta estrutura somática em “peles de cebola”, que transpassa a cosmologia judaica:

  • Ehad (uno)
  • Be — Ehad (no uno)
  • Ke — Gladi (como pele)
  • Be — Tselim (de cebolas)

Betsel, Batsal: é o bulbo, a cebola, lírio dos vales no Cântico dos Cânticos (Betseleth: rosa  , narciso  ). Quando se diz no Gênesis que o homem foi criado à imagem de Deus, este termo imagem (Tsalem), tem sua raiz Tsel como evocadora de sombra, marca  , película, o negativo impresso, a imagem, etc...


Ver online : Excertos da obra de Jean Tourniac


[1Escreveu-se que Deus se fez homem no Cristo para que o homem se tornasse Deus “com Ele, em Ele, e por Ele”: É a deificação da perspectiva cristã oriental, ou ainda a significação dos dois triângulos inversos e entrelaçados do “Maghen Davi” e não por “azar” se o centro desta figura comporta o Nome Divino do Poderoso (Schaddai).

Pode-se afirma que em Cristo, o Infinito, tomou a condição do finito, por Jesus, filho de José, judeu de nascimento carnal, para que nEle, “ponto de intercessão” entre o Céu e Terra, a natureza humana possa ser capaz de Infinito...