Página inicial > Antiguidade > Judaico-Cristandade > Eva - Serpente - Maçã

TERMOS CHAVES

Eva - Serpente - Maçã

CENÁRIO

segunda-feira 25 de julho de 2022, por Cardoso de Castro

    

Paul Nothomb

A serpente   do Paraíso   é introduzida no relato sem outro preâmbulo que seu qualificativo, idêntico àquele atribuído no versículo precedente ao casal híbrido. Astuta, maliciosa (aroum em hebreu). Como o Adão   e sua mulher   “fazia malícia  ”, se cria astuciosa em suas adivinhações. Seu nome significa “adivinhar”. Ela não figura o espírito   do mal. Mas o espírito   lógico dos membros do casal, mutilada como ele. Pois se sempre estão no jardim, seu entendimento está reduzido àquele do “animal  ” que Adão se tornou (GEN 2,7), superior àquele dos “animais dos campos” quantitativamente mas não qualitativamente. Se crê maliciosa em se dirigindo à mulher e em lhe pondo uma questão armadilha, pois em hebreu pelo menos ela é equívoca. “Deus   bem disse: Não comereis de toda árvore do jardim? “ É verdadeiro e é falso segundo se compreender “toda” (em hebreu kol) como “alguma” ou “cada uma”.

Mas a mulher joga a armadilha linguística (de novo a importância da linguagem no “Isso” que recomeça). Considerando que, na leitura tradicional, a mulher ainda não existia quando Deus tinha posto Adão (da qual ela fazia parte integrante) em guarda   contra a confusão   das árvores (GEN 2,16 e GEN 2,17) ela responde enquanto testemunha direta das palavras pronunciadas e aí adita mesmo uma que reforça a diferença  : “Aí não tocareis” e não somente “dela não comereis” tratando-se da Árvore do Conhecimento. É capital. A Árvore do Conhecimento, contrariamente a todas as outras, deve ser conservada intacta e “comer dela” seria amputá-la. É verdade   que a mulher é a única a falar dos frutos das árvores do jardim, enquanto não é esta a questão no aviso divino  . Os frutos (em hebreu “fruto  ” é um nome coletivo) são uma invenção ou uma interpretação   da mulher. É talvez sua desculpa (de novo a importância da linguagem), a desculpa de sua distração pois ela bem reteve “aí não tocareis”, o que exclui toda colheita.

A serpente que fala, se mantém de pé e “faz malícia  ” tem todas as aparências de uma pessoa  , mas não representa senão uma função, como nas caricaturas. Aqui a função intelectual do indivíduo   que sucedeu à criatura, e que não tem seu lugar no Éden, mas aí permanece paradoxalmente sem dúvida por necessidade   da demonstração discursiva. Trata-se de indicar que nada é definitivo nem sobretudo fatal no Éden, que se pode sempre aí voltar atrás, que o tempo   aí é cíclico e não irreversível como na condição humana. Pois a cena célebre que vai seguir é uma mise-en-scène, mais bem sucedida que a precedente, que pretendia descrever a auto-degradação de Adão, ainda em suspenso. Ela se desdobra não mais na cabeça de Adão, o segundo dos dois  , que não está anestesiado, mas bucolicamente ao redor de uma árvore, mesmo se não é de modo algum uma macieira no texto.

Contrastando com a circunspecção da mulher, a situando sem a nomear no meio (ou no interior  ) do jardim, a serpente sem também a nomear responde com vivacidade que o tocar ou o comer não é perigoso, ao contrário. “Não morrereis em absoluto!” afirma com uma certeza   de adivinho pouco seguro dele e que adiciona como para se convencer ele mesmo. “Pois Deus sabe que o dia que dela comeres (quer dizer, a amputar, pois não é questão na boca da serpente de “fruto” como naquela da mulher (mas da árvore ela mesma) vossos olhos se abrirão e sereis oniscientes como Deus” (

Gn 3, 3-5

”, nenhuma dúvida. É Deus que diz a verdade e a serpente mente  . Todo o relato é construído sobre esta antítese. Mas para a mulher, que não conhece o fim da estória, entre “o medo que morrereis” que ela reporta, parece-lhe, de memória e o “não morrereis absolutamente  ” que ela ouve, a oposição é clara. É o último que fala que tem razão? Ela hesita. Ela dirá mais tarde que a serpente a seduziu, mas no momento, no texto, ela se decide sobre impressões pouco fundadas. “E a Mulher viu que a árvore (era) boa a comer e uma delícia para os olhos, e agradável para desenvolver a inteligência, ela tomou seu fruto e comeu e deu também a seu companheiro com ela e ele comeu” (Gn 3,6).

Grandes efeitos mas, parece, pequena causa  . Como, sobre um único aspecto, saber que alguma coisa de que jamais saboreamos é comestível, e mais ainda apta a desenvolver a inteligência? Além do mais é da árvore que ela diz isso, mas é do “fruto” que ela é sempre a única a “ver”, que ela toma e dá a seu companheiro, eloquentemente mudo, que não mais que ela a princípio, segundo o texto, dela não come. Os dois “comem”, mas o que? Nem um nem outro em realidade   não parecem ter efetivamente “mastigado a maçã”. É de um simples simulacro que eles vão ser e nós   seus descendentes com eles, punidos para sempre e desta vez sem sursis?

Fílon

65. XXI. "Y dijo Dios Soberano a la serpiente: ‘Porque has hecho esto, maldita serás desde todos los ganados y desde [1] todas las bestias de la tierra; andarás sobre tu pecho y tu vientre, y comerás tierra todos los días de tu vida. Y pondré enemistad entre tú y la mujer, y entre tu simiente y la suya. Ella [2] vigilará sobre tu cabeza y tú vigilarás sobre su talón." (Gen. III, 14 y 15).

66. ¿Por qué razón maldice a la serpiente sin darle ocasión para justificarse, siendo así que en otra ocasión manda, como es razonable, "que se presenten los dos entre los que tiene lugar la disputa  " (Deut. XIX, 17) y no dar crédito a uno   sin haber oído antes al otro? Y ves también que Dios no acepta por anticipado el testimonio de Adán contra su mujer sino da a ésta la oportunidad de defenderse cuando inquiere: "¿Por qué has hecho esto?" (Gen. III, 13.) Ella, por su parte, confiesa haber incurrido en falta a causa del engaño del artero placer, semejante a una serpiente. ¿Qué impedía, entonces, aun habiendo dicho la mujer que la serpiente la había engañado, que interrogase a la serpiente sobre si ella había cometido el engaño, en vez de maldecirla sin previo juicio y sin que mediara su autodefensa?

67. Debemos decir, por lo tanto, que la sensibilidad no es clasificable entre las cosas ruines ni entre las nobles, sino es algo intermedio, común al sabio y al necio; y tal que cuando se halla en el necio se toma ruin, y cuando se encuentra en el hombre de bien resulta noble. Es razonable, entonces, que, pues de por si no tiene una naturaleza depravada sino fluctuante y se inclina ora hacia el bien, ora hacia el mal, no sea juzgada culpable hasta que haya confesado que ha seguido a la peor parte.

68. La serpiente, en cambio, vale decir, el placer, es depravada de por sí. Por eso no se encuentra absolutamente en el hombre de bien; sólo el ruin disfruta de él. Como corresponde, pues, niega Dios oportunidad de alegato a la serpiente, y la maldice pues no hay en ella germen de virtud, siendo culpable y malvada en toda ocasión y lugar. [Excertos da tradução em espanhol de JOSÉ MARÍA TRIVIÑO, "OBRAS COMPLETAS DE FILON DE ALEJANDRIA"]

René Guénon

Si nos detenemos en esta interpretación en términos de vida y muerte, aunque no sea en suma sino una aplicación particular de la consideración de dos términos contrarios o antagónicos, ello se debe a que el simbolismo de la serpiente está ligado ante todo a la idea   misma de vida [3]; en árabe, la serpiente se llama el-hayyah, y la vida el-hayah (hebreo hayah, a la vez ‘vida’ y ‘animal’, de la raíz hay, común a ambas lenguas) [4]. Esto, que se vincula con el simbolismo del "Árbol de Vida" [5], permite a la vez entrever una singular relación entre la serpiente y Eva (Hawa, la ‘viviente’); y pueden recordarse aquí las figuraciones medievales de la "tentación", donde el cuerpo de la serpiente, enroscado al árbol, tiene encima un busto de mujer [6]. Cosa no menos extraña, en el simbolismo chino Fu-hsi y su hermana Nu-kua, que, se dice, reinaron juntos formando una pareja fraterna, como se la encuentra igualmente en el antiguo Egipto (inclusive hasta en la época de los Tolomeos), se representan a veces con cuerpo de serpiente y cabeza humana; y hasta ocurre que las dos serpientes se entrelacen como las del caduceo, por alusión sin duda al complementarismo del yang y el yin [7]. Sin insistir más, lo cual arriesgaría llevarnos demasiado lejos, podemos ver en todo ello la indicación de que la serpiente, desde épocas sin duda muy remotas, ha tenido una importancia insospechada hoy; y, si se estudiaran detenidamente todos los aspectos de su simbolismo, especialmente en Egipto y en la India, podría llegarse sin duda a muy inesperadas comprobaciones. [SHETH]


VIDE: GEN 3,7


[1Traduzco literalmente la preposición apó = desde, en vez de entre, por requerirlo la lectura en que Filón basará en el párrafo 107 su interpretación del pasaje.

[2"Él": el texto griego emplea, en efecto, autos = él, cuando lo que cabía esperar era auté = ella, es decir, la mujer; por lo que en 65 he traducido: "Ella vigilará..."

[3Este sentido es particularmente manifiesto para la serpiente que se enrolla en torno del bastón de Esculapio.

[4El-Hay es uno de los principales nombres divinos; debe traducírselo, no por "el Viviente", como a menudo se hace, sino por "el Vivificante", el que da la vida o es el principio de ella.

[5Ver LE SYMBOLISME DE LA CROIX, cap. XXV.

[6Se encuentra un ejemplo en el portal izquierdo de Notre-Dame de París.

[7Se dice que Nu-kua fundió piedras de los cinco colores (blanco, negro, rojo, amarillo, azul) para reparar un desgarramiento en la bóveda celeste, y también que cortó las cuatro patas de la tortuga para asentar en ellas las cuatro extremidades del mundo.