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TERMOS CHAVES

Filho

RELIGIÃO

sexta-feira 22 de julho de 2022, por Cardoso de Castro

    

Robert J. Miller

O termo grego ho huios   tou anthropou literalmente significa "o filho do ser humano  ", tradicionalmente traduzido "o Filho do Homem". Esta tradução é inexata e enganadora porque o grego anthropos designa nossa espécie, homo sapiens, tanto seus membros machos e fêmeas.

Ho huios tou anthropou é uma translação de uma expressão   idiomática semita. Na Bíblia hebraica, exceto em casos quando uma parente específico ou ancestral é nomeado, «filho de X» significa o sentido que se tem a qualidade   ou natureza de X. Por exemplo, quando Deus   repetidamente se dirige a Ezequiel como um "filho de um ser humano" (ben adam   em hebraico), significa "humano" ou "mortal  ". Outro exemplo claro é o Salmo   8,4, onde a palavra   hebraica para um ser humano, adam, tem um coletivo ao invés de um sentido individual: «O que são seres humanos (adam) que é pensativo deles, mortais (ben adam) que preocupastes por eles?» Dois   dos discípulos de Jesus   são identificados tanto como filhos de Zebedeu e «filhos do trovão», um apelido presumivelmente refletindo seus temperamentos. Também refletindo a idiomática semita são «filhos deste mundo» e «filhos da luz», «filhos do reino» e «filhos do maligno», e «filhos de Deus» e «filhos da ressurreição  ».

Orígenes

Nos Evangelhos   está escrito: "O semeador semeia a palavra" (Parábola do Semeador. Ora quais são aqueles que semeiam? Aqueles que expõem a Palavra de Deus na Igreja  . Que eles entendam portanto, aqueles que ensinam: para que não confiem as palavras de Deus à alma   "profanada", a alma "prostituída", à alma infiel, que não joguem "o que é sagrado   aos cães, e as pérolas diante dos porcos"; mas que escolham almas puras, "virgens" "na simplicidade da fé para com Cristo", que lhes transmitam os mistérios ocultos, lhes expondo a Palavra de Deus e os segredos da fé, a fim de que nelas "o Cristo seja formado" pela fé. Ou não sabes que desta semente   da Palavra de Deus que é semeada, o Cristo nasce no coração   dos ouvintes? É o que diz também o Apóstolo: "até que o Cristo seja formado em nós  ". Logo a alma concebe deste semente da Palavra, e forma nela o Verbo assim concebido, até que nela dê a luz o espírito   do temor de Deus. Assim se exprimem pelo profeta as almas dos santos: "Por teu temor, Senhor, concebemos em nosso seio, tivemos em trabalho   de parto, e demos à luz; fizemos nascer sobre a terra   o espírito   de tua salvação  " (Is 26,18). Tal é o nascimento das almas santas, tal a concepção, tais as santas bodas que convêm e são apropriadas ao Grande Pontífice, o Cristo Jesus nosso Senhor; "a Ele glória   e poder para os séculos dos séculos. Amem". [HOMÍLIAS SOBRE O LEVÍTICO]

Mestre Eckhart

O sentido do ser dominante no pensamento   medieval é expresso em termos como criação, Criador e criaturas; em resumo, ens creatum (ente   criado). Essa categoria fundamental do pensamento medieval, no entanto, na sua tonância essencial de fundo, diz: filiação. Pois é fusão da pré-compreensão   do ser da existência artesanal com a pré-compreensão da existência religioso-cristã, onde a última predomina e subsume aquela, transformando-a num sentido do ser todo próprio   que se denomina: filiação divina. Nesta, tudo que pode ser de alguma forma referido ao ente, inclusive o próprio nada, é apenas recepção da doação de comunhão com o Ser, denominado Deus, no qual reside a plenitude   do ser, de tal modo que fora dele não há ser, nem atual, nem possível, e isso tão radicalmente que ser propriamente só é Deus. Por isso o sentido do ser de Deus deve ser entendido não a partir do sentido do ser de quaisquer que sejam os entes, mas absoluta e exclusivamente a partir dele mesmo. Por isso o ser de Deus é chamado em Eckhart   de Abgeschiedenheit, isto é, desprendimento  .

A esse modo de ser que precisamente não é mais modo, mas simplesmente ser, ou ser como plenitude ab-soluta, a tradição   do cristianismo chamou de Deus quoad se [1] ou vida interior   ou vida íntima de Deus, formulada como Mistério da Santíssima Trindade  . E os termos da compreensão dessa vida, que é o próprio Deus ou o próprio seu, são o uno   ou um e o três como pessoa   (Pai-Filho-Espírito como dinâmica da gênese da vida divina, resumida nos termos geração e processão   ou filiação). O a priori   desse sentido do ser, ab-soluto, livre e solto em (in) e a partir de si (a se), portanto, do desprendimento (Abgeschiedenheit) assume o sentido do ente no seu todo como o da existência artesanal medieval, e faz com que a própria compreensão da criação e das criaturas não mais opere a partir e dentro do ser da causação nem do ser da criação artesanal, mas sim a partir e dentro da expansão, da difusão na dinâmica da geração da vida interna de Deus. Essa difusão na dinâmica da filiação se expressa como o mistério da encarnação. A causação e a criação são, no fundo, como que repercussão da percussão inicial da filiação divina, repercussão na qual o tom fundamental está sempre ressonante, a se espraiar como eco longínquo da sua dinâmica. Todos os entes referidos à dinâmica da causação e da criação recebem a dinâmica da filiação divina da intimidade da vida interna de Deus, na ternura e no vigor da sua Abgeschiedenheit. [Excertos da ótima versão portuguesa dos "SERMÕES ALEMÃES", de Enio Paulo Giachini]

Michel Henry

Por esta razão (nossa condição de Filho de Deus) o discurso do Cristo sobre ele mesmo, quando vem a concernir os homens, pode bem suscitar sua emoção, permanece no entanto incompreensível. Porque os homens não compreendem sua própria condição senão à luz da verdade   do mundo. Ser filho para eles quer dizer ser o filho de seu pai e de sua mãe. Nascer quer dizer vir ao mundo, aparecer   em tal lugar do espaço, a tal momento do tempo   — sair do ventre de sua mãe neste lugar e neste momento, de tal maneira que antes deste nascimento o filho ou o feto se encontraria já no mundo e finalmente sob forma dos germes no corpo de seu pai e naquele de sua mãe. Esta interpretação   do nascimento e assim da condição de filho é aquele do homem moderno, percebendo e compreendendo toda coisa na verdade do mundo. A esta visão   coisista da origem   da humanidade, a ideia de uma proveniência divina se justapõe de maneira misteriosa nos povos antigos. Longe de se reduzir a um simples preconceito, uma tal ideia exprime espontaneamente a vida verdadeira dos homens, sua vida transcendental e invisível   tal que eles a vivem imediatamente. Embora a experimentando sem cessar, eles não chegam, em razão de seu caráter invisível, a dela fazer uma concepção correta, nem mesmo a imagem. A suas crenças metafísico-religiosas se ligam neles representações grosseiramente realistas. É a este equilíbrio que põe um termo o advento do pensamento moderno. Afastando deliberadamente a vida transcendental do campo   do saber humano circunscrito doravante ao conhecimento objetivo do universo   material, a redução galileleana e a ciência que dela saiu portam ao absoluto   a interpretação mundana do nascimento e assim da condição de filho. Se o discurso que a modernidade tem sobre o homem alcança por toda parte ao denegrimento deste, a seu abaixamento e finalmente a eliminação de sua individualidade em benefício de processos anônimos inconscientes e assim a sua negação pura e simples, é em forçando a interpretação mundana a seu termo, quando nascimento, filho e homem não são mais, no final das contas, senão metáforas.

É esta interpretação mundana do nascimento que o discurso do Cristo sobre ele mesmo faz voar em pedaços. Notável é o fato que é precisamente falando dele mesmo que o Primeiro-Nascido (Primogênito), o Arque-Filho transcendental, se revela capaz, em colocando seu Arque-nascimento na Vida no princípio de todo nascimento concebível, de conferir a este sua significação verdadeira. Assim todo nascimento se encontra compreendido como sendo ele mesmo transcendental, gerado na Vida absoluta e por ela. Ao mesmo tempo que o conceito de nascimento, é aquele de Filho que se acha subvertido, arrancado a toda interpretação natural. Mas esta condição de Filho, de Filho pensado transcendentalmente, proveniente de um nascimento transcendental, é aquele do homem: é o homem ele mesmo que é arrancado à natureza, entregue à Vida. Colocar os conceitos de nascimento e de Filho sob a salvaguarda do Arque-Filho transcendental, é com efeito se referir necessariamente à Vida absoluta da qual o Arque-Filho não é senão a auto-realização   sob a forma de sua auto-revelação. É apelar inevitavelmente a uma outra Verdade que aquela do mundo, a esta Verdade da Vida fora da qual não há com efeito nem nascimento nem Filho, nenhum vivente de nenhuma espécie. [EU SOU   A VERDADE]


O caráter singular da genealogia humana do Cristo não transparece menos em sua retomada por Lucas, e isto em duas passagens, a primeira vez sob a forma de uma retificação anódina: "...Ele era, pelo que se crê, filho de José..."; uma segunda vez na incrível enumeração que, depois de ter designado Cainan como o filho de Enos, Enos como o filho de Seth  , Seth como o filho de Adão, declara subitamente este último o filho de Deus, como se se pudesse pôr na mesma linha estas duas filiações, como se fosse a mesma coisa com efeito ser o filho de um homem ou aquele de um deus, — como se, mais precisamente este último não intervisse senão especulativamente de certa maneira quando, nenhum outro homem não se apresentando para ser o pai do primeiro, este papel não podia mais ser confiado senão a um Deus suposto.

Mas se Adão não pode ser dito filho de Deus da mesma maneira que Seth é dito seu próprio filho — o filho de Adão —, então é preciso de perguntar com todo rigor em que consiste a diferença   entre estas duas condições: ser filho de um homem como Seth o é de Adão, ou bem aquele de Deus, como é o caso de Adão. Formularemos a resposta   nestes termos: a diferença essencial entre a condição de ser filho de um homem e aquele que consiste a ser filho de Deus reside na Verdade. Entendamos: no gênero   de Verdade do se trata cada vez. Na verdade do mundo todo homem é o filho de um homem, e logo também de uma mulher  . Na Verdade da Vida todo homem é o filho da Vida, quer dizer de Deus ele mesmo. Destas duas verdades para dizer o nascimento, quer dizer a possibilidade para um vivente de vir na vida, uma sem dúvida é de mais. Pois Seth não pode ser o filho de Adão se Adão não pode ser senão o Filho de Deus. Inversamente Adão não necessita ser o Filho de Deus se Seth pode ser seu próprio filho. É preciso escolher e dizer sem equívoco de quem o homem pode ser filho, de um outro homem ou somente de Deus.

Disto que é o nascimento do homem e assim sua condição de filho "na verdade do mundo", cada um hoje em dia o sabe, ajudado nisto pelos progressos fulgurantes da biologia e pela difusão das teoria   que se crer serem suas. Também não faremos mais que breves alusões, na medida que a fenomenologia do nascimento já demonstrou o absurdo de toda interpretação mundana do nascimento, a saber a interpretação desta como vinda ao mundo ou ainda como resultante de um processo pertencente a este mundo, de um processo objetivo por exemplo. Absurdo se sustentando nisto, como vimos, que, no mundo e na exterioridade de seu "fora", nenhum "viver  " não é possível — nenhum vivente também consequentemente.

No que toca à condição de Filho e assim do nascimento "na Verdade da Vida", demandamos ao Cristo ele mesmo. Por um lado, com efeito, segundo uma palavra essencial já citada, o Cristo se dá como "a Verdade e a Vida". Ele é ele mesmo esta Verdade original que é a Vida. Por outro lado, é à luz desta Verdade que ele analisa sua própria condição de Filho. Só se pode examinar a condição de Filho à luz de uma outra Verdade que aquela da Vida? Pode-se dela falar de outro modo que não faz o Cristo ele mesmo se não há Filho e nascimento senão na Vida, se vir à vida não é concebível senão a partir dela?

O discurso que o Cristo mantém sobre ele mesmo, nós   o consideramos desde o início destas análises como o conteúdo essencial do cristianismo. Parece que este discurso não vale somente para o Cristo mas concerne também todos os homens na medida que são, eles também, Filhos. De fato Filhos só há na Vida, engendrados por ela. Todos os Filhos são Filhos da Vida e, na medida que só há uma única Vida e que esta Vida é Deus, eles são todos os Filhos de Deus. Se o Cristo não é somente o Arque-Filho transcendental imerso na sua simbiose eterna com o Pai, se do ponto de vista dos homens ele se apresenta como uma figura emblemática e radiante que os faz tremer no fundo deles mesmo, é porque esta figura é aquele de sua condição verdadeira, a saber sua própria condição de Filho. Assim o discurso que o Cristo mantém sobre ele mesmo e que consiste em uma elucidação radical da condição de Filho, ultrapassa subitamente seu domínio   inicial e próprio — o gozo autárcico da divindade, o sistema auto-suficiente da Vida e do Primeiro Vivente — para transbordar sobre a condição humana inteiramente e pôr esta sob uma luz que nenhum pensamento, nenhuma filosofia, nenhuma cultura nem nenhuma ciência não tinha ainda ousado projetar sobre ela. [EU SOU A VERDADE]

Jean Borella

Não são somente considerações de ordem cosmológica que convidam a reportar ao Filho uma função de relação prototípica. O próprio texto de São João disto fornece um testemunho mais importante ainda e mais decisivo, além daquele que estabelece seu título de Filho de Deus, do qual dependem todas as outras considerações. São João diz com efeito: “E o Verbo estava junto a Deus”. O latim “apud”, como o português ao lado, rendem mal o grego “pros” construído com o acusativo (pros ton theon), preposição notável, posto que se esperaria normalmente “para” e o dativo. Ora esta preposição significa ao mesmo tempo: voltado para, em presença   de, em relação com. Vê-se claramente o interesse   teológico destas significações. Notemos por outro lado que a palavra Deus está aqui precedida do artigo: o Deus, enquanto no versículo seguinte: “e o Verbo era Deus”, Deus está escrito sem artigo. A maior parte dos empregos similares do grego neotestamentário mostram que Deus (sem artigo) designa a natureza divina, e “o Deus” designa Deus o Pai. Assim, em seu Prólogo, São João afirma: a identidade do Verbo à Essência divina, e sua distinção de “relação” do Pai. Esta ideia de relação nos parece ainda mais certa dado que em todos os casos onde o grego neotestamentário emprega “pros” (e o acusativo) diante das palavras “o Deus” ou “o Pai”, o contexto indica um sentido particular de relação do Filho ao Pai, ao passo que onde, para significar “junto a Deus”, o Evangelho utiliza a preposição “para”, nos parece que esta ideia de relação ao Pai está ausente. O exemplo mais característico se encontra em Jo XVII,5: “Pai, glorifica-me junto de ti da glória que tinha junto de ti”. Se João aqui utiliza “para” é, pensamos, que se trata aqui não da glória que pertence ao Filho em virtude   de sua relação ao Pai, mas daquela que lhe revem devido a sua identidade à Essência divina, identidade que o faz igual ao Pai. Em relação à Essência divina, o Pai e o Filho são “para”, uma ao lado do outro; mas em relação ao Pai, o Filho é pros ton theon, em relação de proximidade com Deu o Pai. O versículo joanico poderia portanto ser traduzido, glosando a tradução: “o Verbo estava Próximo de Deus o Pai, a Relação de proximidade ao Pai”.

Logo pode-se apropriar ao Verbo, no seio da Trindade, a função da ordem de relação subsistente, tão bem que tudo aquilo que, na Trindade, é da ordem da relação subsistente, refere-se, de certa maneira ao Filho, primeira relação da Essência divina com ela mesma. (Correlativamente, tudo o que é da ordem da hipóstase referencia-se ao Espírito Santo, como ao Pai refere-se o que é d Deidade [2]. Esta função, tal como tentamos descrevê-la brevemente constitui, para nossa pesquisa, uma aquisição importante. Outras considerações a ilustrarão, como o mostrará em seguida este estudo. Mas desde já ela significa que o Filho é o fundamento metafísico da relação de proximidade. [A CARIDADE PROFANADA]

Roberto Pla

Como só ocorre com muitos textos joanicos, o sentido manifesto   se subordina aqui ao sentido oculto. O que Jesus se preocupa em explicar não é sua exaltação enquanto Filho do Homem (vertente manifesta), senão que aos homens é possível “levantar” (gr. hypsoo  ) em si mesmos ao Filho, por meio do Espírito que neles está e crer para ter vida eterna.

Com o “recurso” do Antigo Testamento se pretende não só explicar o sentido oculto de um episódio que no Livro dos Números foi contado com maior hermetismo que agora no evangelho, senão também afirmar que o conhecimento que agora se revela vem consolidado por um saber ou experiência de traço   tradicional, embora talvez muito esquecido nos tempos de Jesus.

Por outra parte, a perícope veterotestamentária afirma que com sua referência ao “levantamento” do Filho do Homem não fala Jesus unicamente de sua Paixão e encravamento “pessoal” na cruz, senão das tribulações e crucificação que a cada homem corresponde padecer. Sem dúvida, não se constituiu o texto mosaico em antecedente e paralelo da elevação do Cristo manifesto, senão como exemplo da obra geral designada ao Cristo oculto.

O que acaba de explicar Jesus é que o Filho do homem não pertence ao mundo, senão ao céu, embora “sob o céu”, e por isso, no homem completo  , ele é o Filho, que precisamente por ser do céu, é seguro que pode ser "elevado" (exaltado), ao céu.

Subir  , "levantar ao Filho", é a obra que corresponde a cada homem, embora em verdade, não é o Filho o que há que exaltar, senão que há de “mirá-lo” até vê-lo onde está, no céu, e não onde imaginamos que esteja, na terra.

Tudo isso é muito importante e há que realizá-lo interiormente. A ordem em que este processo se produz o explica o capítulo 3 de João, e podemos segui-lo. Primeiro, “há que nascer de água e Espírito”, e isto é segundo os dois batismos de que falam os sinópticos.

“Nascer de água”, já o sabemos, requer submeter-se ao batismo   de purificação, para que a alma se lave de seus apegos e aderências até que não fique nela mais que sua própria essência: o espírito.

Quanto a “nascer do Espírito”, o segundo batismo, do fogo  , há que entender por isso que o Espírito se une ao espírito — como o mar à gota — pois se pousa sobre ele para ungi-lo, para o dar em participação  , em óleo santo, em conhecimento, a sabedoria   de Deus.

Tudo isso é o conhecimento da via até Deus, pois mercê à limpeza da alma que a torna transparente e à chuva de fogo, é possível descobrir a presença do Espírito que em nós está. A partir de então, se não cessa a vigilância  , se se persiste em dar-se conta da presença, a união do Espírito com o espírito se consuma.

Isso é a união, e quando esta tenha concluído, vem o nascimento do Cristo oculto, do ungido do Senhor, na consciência e se efetua uma transfiguração gradual da vida mortal na Vida eterna. Isto é a regeneração, a bem-aventurança do homem novo em Cristo. Isto é o que explica Paulo Apóstolo   em (Ef 3:16-17.

Mas o que agora diz o evangelho é que o Filho tem que ser levantado, tal como a serpente   levantada por Moisés no deserto  .

A serpente que pôs Moisés em uma haste e que o evangelho explica como “figura” do Filho do homem, era de bronze. Das serpentes que mordiam o povo, se diz que eram “abrasadoras”, porque eram de fogo, e se as identifica com os serafins alados que guardavam na antessala do Santo dos Santos. Quem era o mordido por uma destas serpentes de fogo — um claro antecedente testamentário das línguas de fogo que se pousaram sobre os apóstolos em Pentecostes — não alcançava por isso a Vida, pois — se diz — a gente de Israel “morria”, não obstante. Então fez Moisés a serpente de bronze e o que era mordido por uma serpente abrasadora, se logo “olhava” à serpente içada no mastro, “ficava com vida”, isto é, alcançava a Vida ([https://www.biblegateway.com/passage/?search=num+21%3A6-9&version=ARC">Num 21, 6-9).

Saber que a serpente levantada por Moisés era de bronze, resulta um dado aclaratório, ainda que se trate de uma “figura” de certa complexidade que nos obriga agora a dar vários rodeios explicativos.

Segundo se diz, o firmamento que Deus criou no dia segundo em meio das águas, para separá-las, era de bronze polido. No sentido oculto, o firmamento é a abóboda sólida, imperecedora (Jó 37,18), que separa, ou afasta, a consciência psíquica (figurada pela água), do reino dos céus (a luz), ou consciência superior. Por isso se diz no Deuteronômio, no capítulo de maldições ao homem comum: “Os céus de tua cabeça serão de bronze” (Dt 28,23).

Como é sabido de bronze polido se faziam os espelhos antigos, e testemunho disso são os espelhos das mulheres, que se colocaram na pia de cobre sobre à base de cobre do Templo   (Êxodo 38:8). Como “espelho  ” descreve Jó a abóboda do céu de metal fundido, e “como o fulgor do bronze polido”, vê Ezequiel os seres de fogo (abrasadores) que descobre no carro de YHWH (Ez 1:4ss).

Por tudo isso deve-se interpretar que a serpente que Moisés levantou em um mastro no deserto era, “em figura”, um espelho do Deus de nome divino: “EU SOU O QUE SOU”. O espelho oferece um modo imperfeito de conhecer, mas quem olha e é capaz de transpassá-lo alcança a ver “cara a cara” e com isso a crer e ter vida eterna, pois equivale a conhecer “tal como um é conhecido”.

Quando o evangelho diz que o Filho do Homem tem que ser levantado não diz somente que Jesus será levantado na cruz, como se assim foi, senão que o Filho, oculto em todos, tem que ser levantado no interior; primeiro deve ser descoberta sua presença em Espírito, confusa, imperfeita, e logo deve ser exaltado para que o olhar o conheça e nele creia.


[1Deus enquanto referido a si

[2A teoria das funções trinitárias permite compreender igualmente que a teologia latina, em considerando a Trindade segundo a pura racionalidade das relações, a encara do ponto de vista do Filho, enquanto a teologia grega, em considerando-a segundo as hipóstase, a encara do ponto de vista do Espírito Santo.