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Contos de Cantuária

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Excertos da tradução de Paolo Vizioli

O CONTO DO PÁROCO (Excertos)

Segue-se aqui o Prólogo do Conto do Pároco

Nesse ponto, o Provedor terminara a sua história, e o sol   se achava tão abaixo da linha meridional que, a meu ver, sua altitude devia ser de vinte e nove graus. Calculo que seriam quatro horas da tarde, pois minha sombra se estendia então por onze pés, pouco mais ou menos, o que daria, em relação à minha altura, a proporção correspondente a seis pés. E quando o signo   de exaltação da lua  , - ou seja, Libra, - começou sua ascensão  , alcançamos a entrada de uma aldeia. Em vista disso, o Albergueiro, com aquele seu jeito próprio de conduzir a nossa alegre comitiva, assim falou: «Atenção  , senhores! Agora só falta um conto para ser narrado. Minha intenção   e meu decreto foram seguidos à risca, pois, se não me engano  , já ouvimos pessoas de todas as categorias  , de modo que o que determinei está praticamente cumprido. Que Deus   abençoe ao que souber contar com graça   a nossa última história. Senhor Padre  ,» chamou ele, «o senhor é Vigário ou Pároco? Vamos, diga a verdade! Mas, seja lá o que for, não vá estragar a nossa brincadeira, porque até agora ninguém se recusou a apresentar o seu relato. Abra a fivela, e mostre o que tem na mala! O senhor tem cara de quem sabe entretecer histórias muito interessantes. Pelos ossos do galo, brinde-nos logo com um belo conto!»

O Pároco imediatamente retrucou: «De mim   é que não terão conto algum, pois São Paulo  , na epístola a Timóteo, condena quem se afasta da verdade, contando fábulas ou outras bobagens sem sentido. Por que iria eu semear o joio com meu punho, se posso semear o trigo   que me agrada? Eis porque, caso ainda me queiram ouvir  , pretendo tratar da virtude e da moral, oferecendo-lhes prazerosamente, com a sua anuência e com espírito   reverente a Cristo  , um tipo de distração que a lei de Deus sanciona. Mas, vejam bem, sou   um inglês do sul  : não saberia, como os do norte, aliterar meus versos com aquele rum-ram—ruj’; por outro lado, - e Deus é testemunha disso, - também não sou muito bom nas rimas. Por isso, se estiverem de acordo, não procurarei agradar aos sentidos com a música   da poesia, preferindo oferecer  -lhes um alegre relato em prosa, para desfecho e conclusão deste nosso entretenimento. E que Jesus, com sua graça, me dê inspiração para mostrar-lhes, nesta romaria, o caminho   daquela outra peregrinação, perfeita e gloriosa, para a Jerusalém celestial. Com sua licença, darei início agora mesmo à minha fala, tão logo saiba o que pensam. Nada mais poderia dizer. De qualquer modo, esclareço que submeto à correção dos estudiosos a meditação que ora desejo apresentar, visto que não sigo os textos literalmente, contentando-me com o sentido geral. Esse o motivo porque me declaro aberto a correções.»

Diante disso, todos nós prontamente consentimos que falasse, porque assim não apenas lhe concedíamos o tempo e a atenção que esperava, mas também, pelo que tudo sugeria, concluiríamos a nossa diversão com algumas considerações morais. Rogamos, pois, ao nosso Albergueiro que lhe dissesse que era desejo de todos ouvi-lo.

O Albergueiro foi o nosso intermediário  : «Senhor Padre,» disse ele, «boa sorte! Apresente-nos a sua meditação; mas apresse-se, pois o sol está se pondo. Seja fecundo, mas sucinto. E que Deus o ilumine com sua graça. Pode dizer o que quiser, que ouviremos com prazer.» Depois dessas palavras, disse ele o seguinte:

Explicit prohemium.

Aqui começa o Conto do Pároco.

Jer. 6º State super vias et videte et interrogate de viis antiquis, quae sit via bona; et ambulate in ea, et invenietis refrigerium animabus vestris &c.

1. Nosso bondoso Deus do Céu, que não deseja que nenhum homem   pereça, mas quer que todos nós possamos conhecê-lo e alcançar a vida bem-aventurada, que é eterna, admoesta-nos, através de Jeremias, com as seguintes palavras: Ponde-vos à margem dos caminhos e vede e interrogai pelas antigas veredas (isto é, pelas antigas doutrinas) qual é o bom caminho; e andai por esse caminho, e encontrareis o refrigério para vossas almas etc. Muitos são os caminhos espirituais que levam as almas a Nosso Senhor Jesus Cristo e ao reino da glória  . Desses caminhos há um caminho mui nobre e recomendável, que não falha nunca ao homem ou à mulher que se extraviou do caminho certo para a Jerusalém celestial; e esse caminho se chama Penitência, a cujo respeito o homem deve alegremente ouvir e indagar de todo o seu coração  , a fim de saber o que é a Penitência, e os modos   das ações e dos trabalhos da Penitência, e quantas espécies há de Penitência, e o que convém ou toca à Penitência, e o que prejudica a Penitência.

2. Santo Ambrósio   diz que a Penitência é o pesar do homem pelo erro   que cometeu, e não mais praticar nada que deva deplorar. E um Doutor da Igreja   diz: «A Penitência é o lamento do homem que sofre por seu pecado  -e se tortura pelo que fez de mal.» A Penitência, em certas circunstâncias  , é o verdadeiro arrependimento daquele que impõe a si mesmo   a tristeza   e outras penas por causa   de suas culpas. E, para que seja um verdadeiro penitente, ele primeiro lamenta os pecados que cometeu, e depois firmemente se decide em seu coração a confessar-se pela própria boca, e a oferecer reparo, e a nunca mais fazer algo que possa lamentar ou deplorar, e a prosseguir nas boas obras, caso contrário de nada serve o seu arrependimento. Pois, como diz Santo Isidoro, «é um galhofeiro e um mentiroso, e não um verdadeiro penitente, quem logo em seguida faz algo de que deve arrepender-se». De nada serve chorar, se não se abandona o pecado. Todavia, muitos acreditam que sempre que o homem cai, não importa quantas vezes, pode ele erguer-se através da Penitência, se obtiver graça; mas isso certamente é muito duvidoso. Pois, como diz São Gregório, «dificilmente se ergue de seu pecado quem é culpado da culpa do mau hábito  ». A Santa Igreja, portanto, considera mais segura a salvação   do arrependido que renuncia ao pecado, abandonando o pecado antes que o pecado o abandone. Contudo, a Santa Igreja tem esperança   também na salvação do que peca continuadamente e no fim se arrepende com sinceridade, graças à grande mercê de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é capaz de dar o arrependimento. Escolhei, porém, o caminho seguro.

E, nesse estilo, prossegue o Pároco por quase uma centena cie páginas, falando da Penitência e dos Sete Pecados mortais  . Como se vê, esqueceu-se por completo da recomendação do Albergueiro para que fosse «fecundo, mas sucinto». Por isso, tentaremos nós abreviá-lo, seguindo o excelente resumo que Nevill Coghiil fez de seu misto de sermão e tratado moral.

Uma vez definida a Penitência, afirma o pregador que a raiz da árvore da Penitência é a contrição, os galhos e as folhas são a confissão, o fruto   a satisfação, a semente   a graça, e o calor vital dentro da semente o Amor de Deus.

A contrição é a tristeza do coração pelo pecado. O pecado pode ser venial ou mortal. O pecado venial consiste em amar   a Cristo menos do que se deve; o pecado mortal consiste em amar a criatura mais que o Criador. O pecado venial pode levar ao pecado mortal. Há sete pecados mortais, ou capitais, o primeiro dos quais é o hyperephania   - Orgulho.

O hyperephania - Orgulho se manifesta de várias formas: arrogância, impudência, hipocrisia jactanciosa, alegria   pelo mal que se fez etc. Pode ser interior e exterior. O orgulho exterior é como o anúncio à porta   da taverna, que mostra que há vinho   na adega. Revela-se através da riqueza   ou da pobreza   dos trajes, ou pela própria postura do corpo, - por exemplo, quando «as nádegas se sobressaem como as partes traseiras de uma macaca ao luar». Podemos mostrar o orgulho pecaminoso no séqiiito que escolhemos para nós, na hospitalidade ostensiva, na nossa força física, na própria cortesia. O remédio contra o hyperephania - Orgulho é a Humildade  , ou o verdadeiro autoconhecimento.

A pleonexia - Inveja   é a tristeza pela prosperidade dos outros e a alegria pela sua desgraça  . É o pior   dos pecados, pois se coloca contra todas as outras virtudes e todo bem, opondo-se frontalmente ao Espírito Santo, a fonte   da Bondade. Os mexericos e os resmungos constituem o Padre-Nosso do Diabo  . O remédio"contra a pleonexia - Inveja é amar a Deus, o próximo e os inimigos.

A orge   - Ira é o desejo perverso de vingança. A ira contra o mal, entretanto, não é pecado, pois é cólera sem amargura. A ira perversa pode ser repentina ou premeditada; a pior é a última. A maldade estudada expulsa o Espírito Santo de nossa alma  . É a fornalha do Demônio e, como tal, aquece o ódio, o homicídio, a traição, a mentira, a bajulação, o desprezo, a discórdia, as ameaças e as maldições. O remédio contra a orge - Ira é a Paciência  .

A akedia   - Acídia trabalha de má vontade, apaticamente e sem alegria, sentindo-se sobrecarregada quando tem que fazer o bem. Afasta-nos da oração  . É o pecado apodrecido da Preguiça  , que nos leva ao desespero. O remédio é a Persistência,

A philarguria - Avareza é o traiçoeiro desejo pelas coisas materiais, uma espécie de idolatria. Cada moeda no cofre é uma divindade, um ídolo  . Estimula a extorsão da plebe por parte dos senhores, a fraude, a simonia, o jogo  , o roubo, o falso-testemunho, o sacrilégio. O remédio é a Misericórdia  , a «piedade no mais lato sentido».

Seguem-se, finalmente, a gastrimargia - Gula e a Luxúria, pela ordem  , A Luxúria é um parente próximo da gastrimargia - Gula. Apresenta muitas formas, e é o maior roubo que se pode praticar, visto que rouba o corpo e a alma. Os remédios são a Castidade   e a Continência, além da moderação no comer e no beber. Quando o caldeirão ferve demais a melhor solução   é tirá-lo do fogo  .

Quanto à gastrimargia - Gula, vejamos, na íntegra, o que diz o Pároco a seu respeito, já que se trata de um pecado que dele recebe um tratamento excepcionalmente breve:

Sequitur de gastrimargia - Gula.

70. Depois da philarguria - Avareza vem a gastrimargia - Gula, que também contraria o mandamento   de Deus. A gastrimargia - Gula é o desejo desmedido   de comer e de beber, ou o ato de satisfazer o apetite desmedido e a desordenada vontade de comer e de beber. Esse pecado foi a ruína do mundo, como bem o demonstra o pecado de Adão   e Eva. Também prestai atenção ao que diz São Paulo sobre a gastrimargia - Gula: «Muitos», diz São Paulo, «andam entre vós, dos quais eu repetidas vezes vos dizia e agora vos digo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo; o destino deles é a perdição, o deus deles é o ventre, e a glória deles está na sua infâmia, visto que só se preocupam com as coisas terrenas.» O viciado no pecado da gastrimargia - Gula não resiste a nenhum pecado; escraviza-se a todos os vícios, pois se abriga e repousa na despensa do diabo. Há muitas espécies desse pecado. A primeira é a embriaguez  , que é a horrível sepultura da razão   humana; portanto, quando um homem fica bêbado, perde a razão, e isso é pecado mortal. Na verdade, porém, quando se trata de um homem não viciado na bebida, ainda que de repente venha a ser surpreendido embriagado, seja porque desconhece a força da bebida, seja porque tem a cabeça   fraca, seja porque bebeu um pouco mais por estar muito cansado do trabalho  , não comete ele pecado mortal, mas venial. A segunda espécie de gastrimargia - Gula é quando a mente do homem fica perturbada pela embriaguez, que o priva da lucidez da inteligência. A terceira espécie de gastrimargia - Gula é quando o homem devora o seu alimento, e não sabe comer de maneira correta. A quarta é quando, devido ao excesso   de alimento, destemperam-se os humores do corpo. A quinta é o estupor   provocado pela bebida, que leva o homem a esquecer, antes da manhã, o que fez na tarde ou na noite anterior  .

71. As espécies de gastrimargia - Gula podem ser classificadas de outro modo, segundo São Gregório. A primeira é comer antes da hora de comer. A segunda é procurar comidas ou bebidas requintadas. A terceira é não respeitar a moderação. A quarta é o refinamento, com excessivos cuidados na feitura e no preparo dos alimentos. A quinta é comer com avidez. São esses os cinco   dedos da mão   do Demônio, com a qual arrasta os homens para o pecado.

Remedium contra peccatum gastrimargia - Gulae.

72. O remédio contra A gastrimargia - Gula é a Abstinência, como diz Galeno. Mas isso não tem mérito algum quando o que se visa é apenas à saúde do corpo. Santo Agostinho   quer que a abstinência seja praticada com paciência e com vistas à virtude. «A abstinência», diz ele, «pouco vale se não for praticada com boa vontade, e não for comandada pela paciência e pela caridade, e não for inspirada pelo amor de Deus e pela esperança de se alcançar a bem-aventurança   do Céu.»

73. Os companheiros da Abstinência são a Temperança, que assegura o equilíbrio de todas as coisas; a Vergonha, que evita a desonestidade; o Contentamento, que não procura alimentos ricos e bebidas, nem se preocupa com o esmero excessivo na preparação da comida; o Comedimento, que refreia pelo uso da razão o apetite deslavado; a Sobriedade  , que refreia os exageros no beber; e a Frugalidade, que refreia o ócio   requintado dos que ficam longo tempo à mesa, sentados no macio, enquanto estimula alguns a voluntariamente tomarem suas refeições de pé e com menor conforto.

Terminada a apresentação dos Sete Pecados Capitais, o Pároco fala ainda da Confissão e da Satisfação.

A Confissão deve ser feita livremente e na mais sincera fé. A pessoa deve confessar os seus próprios pecados, dizendo sempre a verdade, com a própria boca, sem disfarçá-la com palavras ambíguas. Não deve ser um ato apressado nem frequente, mas conscientemente meditado.

A Satisfação, de modo geral, provém da caridade, da penitência, do jejum   e dos sofrimentos corporais. Seu fruto é a eterna ventura no Céu.

E é com alusões à bem-aventurança, como veremos, que se encerra o sermão, ao qual se segue imediatamente a RETRATAÇÃO DE CHAUCER.

103. Então os homens compreenderão qual é o fruto da penitência; e saberão, de acordo com a promessa de Jesus Cristo, que é a eterna felicidade no Céu, onde a alegria jamais é empanada pela dor   e pelo sofrimento; onde se acabam todos os males desta vida terrena; onde se fica ao abrigo dos castigos do Inferno; onde está a ditosa companhia dos que se regozijam para sempre com as alegrias uns dos outros; onde o corpo do homem, que antes era imperfeito e escuro, se torna mais claro que o sol; onde o corpo, que antes era enfermiço, débil e fraco e mortal se torna imortal, e tão forte   e tão sadio que nada mais pode feri-lo; onde não há nem fome, nem sede, nem frio, mas onde todas as almas resplendem à luz do perfeito conhecimento de Deus. Os homens podem comprar esse reino bem-aventurado com a pobreza espiritual, e a glória com a humildade, e a plenitude   do júbilo com a fome e a sede, e o descanso com o trabalho, e a vida com a morte e a mortificação dos pecados.

Aqui o autor deste livro apresenta as suas despedidas.

104. Agora peço a todos que ouvirem ou lerem este pequeno tratado que, se alguma coisa de seu agrado houver aqui, agradeçam por isso a Nosso Senhor Jesus Cristo, do qual procede todo talento e toda virtude. E, por outro lado, se houver algo que os desagrade, peço que o debitem às limitações de minha competência, e não à minha vontade, pois eu certamente teria me expressado melhor se tivesse sabido como fazê-lo. Pois diz o nosso Livro: «Tudo o que está escrito está escrito para a nossa edificação»; e foi isso o que pretendi. Solicito-vos, portanto, humildemente, pela graça de Deus, que oreis por mim, para que Cristo tenha piedade de mim e perdoe os meus erros, - e, de modo especial, as minhas traduções e composições referentes às vaidades do mundo, que ora rejeito em minha retratação, como o livro de Tróilo, o livro da Fama, o livro das Dezenove Damas, o Livro da Duquesa, o livro do Dia de São Valentim do Parlamento das Aves, os Contos de Cantuária, nas partes que soam pecaminosas, o Livro do Leão e muitas outras obras, que nem me vêm à lembrança, além de muitas canções e poemas sensuais. Que Cristo, em sua infinita mercê, me perdoe esses pecados. Mas pela tradução do De Consolatione de Boécio   e por outros livros sobre as vidas dos santos, e homílias, e trabalhos de moral e devoção, agradeço a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Mãe bendita e a todos os santos do Céu, rogando-lhes que de agora em diante, até o fim de minha vida, me enviem a graça de arrepender-me de minhas culpas e de preparar a salvação de minha alma, assegurando-me a dádiva   da verdadeira Penitência, da Confissão e da Satisfação, para que eu viva neste mundo, - pela bondade generosa daquele que é rei dos reis e sacerdote sobre todos os sacerdotes  , e que nos redimiu com o precioso sangue   de seu coração, - de modo a poder figurar entre aqueles que, no dia do Juízo  , deverão salvar-se. Qui cum Patre et Spiritu Sancto vivit et regnat Deus per omnia saecula. Amen.

Aqui termina o livro dos Contos de Cantuária, compilado por Geoffrey Chaucer, de cuja alma tenha piedade Jesus Cristo. Amém.