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A VIAGEM DA ALMA

Souza Pereira – Relato de Hayy ibn Yaqzan

Corbin, Avicena e o relato visionário

terça-feira 23 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Excertos de AVICENA  : A VIAGEM   DA ALMA  , de Rosalie Helena de Souza Pereira

    

Segundo Corbin  , este Relato é uma iniciação   ao Oriente: a significação é anunciada ao adepto por uma mensagem deste Oriente mesmo, a qual mostra a direção  , descreve de antemão as etapas da difícil viagem   que aí conduz, enuncia as condições desta, e finalmente conclui pelo convite: «Se queres, siga-me». A dramaturgia mental   do Relato é portanto ainda uma antecipação   e uma preparação; o evento psíquico da ascensão celeste interiormente vivida será relembrada e re-citada no «Relato do Pássaro». No termo do primeiro relato da trilogia de Avicena  , já podemos saber o que é preciso compreender por «filosofia oriental». O Oriente sendo o mundo das Formas   ou das «Ideias» oposto ao «Ocidente» onde declinam aquelas dentre elas que devem um certo tempo «informar  » a Matéria, a filosofia oriental será o conhecimento das Ideias em si mesmas e por si mesmas, uma filosofia do mundo do Anjo   em seus três graus: espiritual, celeste e terrestre. Se se quer entrever o programa aviceniano da filosofia oriental, a primeira fonte é este Relato onde é enunciado claramente e sem reserva a visão   do Oriente, e que por esta razão deve se juntar   aos contextos que fazem pressentir as referências dadas à «sabedoria   oriental» nas glosas sobre a Teologia dita de Aristóteles.


Resumo do Relato

1. Prólogo. — Anúncio da revelação de um conhecimento oculto

O narrador do relato, Avicena, cede à insistência de seus «irmãos» e aceita expor seu encontro com Hayy ibn Yaqzan, individualização do intelecto agente   na interpretação   de A.-M. Goichon, ou do anjo na teoria   de Henry Corbin. Já de início, o prólogo indica tratar-se de uma narrativa iniciática, acessível somente àqueles que estão preparados para receber   a mensagem velada e compreender seu significado oculto.

2, 3, 4. — Encontro com o soter  

Encontro com o Sábio   Hayy ibn Yaqzan, apresentação e saudações de ambas as partes: enquanto o narrador passeia com seus companheiros nos arredores de seu país, depara-se com o Sábio, alguém já avançado em idade que, no entanto, conserva o viço da juventude  . O narrador sente um enorme desejo de com ele conversar e, ao se aproximar, recebe dele uma afetuosa saudação. O Sábio se apresenta como alguém que possui as chaves do conhecimento; seu nome é Vivente, filho   do Vigiante e vem da Morada   Sacrossanta.

5, 6, 7, 8. — Revelação da natureza da alma   humana: antropologia

A conversa entre eles prossegue até o Sábio mencionar a ciência da fisiognomonia, necessária para que tenha início o aprendizado, pois será com esta ciência que o homem   poderá conhecer e separar os bons dos maus companheiros. Estes últimos representam as principais paixões humanas que impedem o homem de alcançar o conhecimento: a irascibilidade, a concupiscência   e a imaginação  . Para poder realizar a jornada iniciática em direção ao Uno, sua origem, antes de empreender a viagem, a alma terá de dominar suas paixões e vícios  .

9. — Interlúdio: o iniciado   se apresenta preparado para receber a mensagem oculta

O narrador manifesta seu desejo de empreender a viagem guiado pelo Sábio, o qual lhe responde ser impossível percorrê-la em vida. Contudo, o homem poderá empreender partes do itinerário que muitas vezes será interrompido, pois a companhia de suas paixões e vícios desviam-no constantemente de seu caminho   iniciático.

10, 11, 12. — Preparação para receber a revelação: aquisição do conhecimento

Inicialmente, é preciso saber que há três regiões: o Ocidente, o Oriente e uma região situada entre essas duas. Esta região intermediária é o mundo terrestre onde habitam os homens; o Ocidente é a figura para representar a matéria, lugar da escuridão, porque é lá onde a luz   se põe; o Oriente representa o lugar dos inteligíveis, pois é lá que surge a luz. As regiões para além do Ocidente e do Oriente, difíceis de serem atingidas, representam os princípios da matéria e dos inteligíveis, respectivamente. Para atingir tais regiões é preciso adquirir o conhecimento da lógica  , ciência que possibilita ultrapassar os obstáculos com os quais vai se defrontar a alma em sua viagem ao Oriente, pátria dos inteligíveis.

13, 14, 15, 16. — Revelação da ordem   do universo  : cosmologia

O sistema cosmológico passa a ser descrito em ordem ascendente. Do Ocidente da mais pura matéria, a alma passa ao mundo vegetal e animal  , chega à região que anuncia o mundo celeste e finalmente atinge a região dos astros. Segue-se a descrição do sistema planetário segundo Ptolomeu. A viagem através das esferas significa libertar-se dos vícios e paixões que cada astro   simboliza nos arquétipos astrológicos. Até aqui a descrição se limita ao mundo físico, terreno e celeste. Na divisão   das principais ciências, o mundo material do Ocidente pode ser apreendido com o conhecimento da física.

17, 18, 19, 20, 21, 22, 23. — Revelação do destino da alma: escatologia

Após os sete   climas, correspondentes aos sete planetas conhecidos na época de Avicena, surgem dois   climas que já pertencem ao mundo dos inteligíveis. A narrativa passa então a descrever o mundo eterno, isto é, o mundo dos inteligíveis e Deus  , finalidade da viagem da alma em seu retorno à pátria original. O mundo dos inteligíveis é apreendido pela metafísica  , e a passagem do mundo físico para o mundo eterno representa um espaço intermediário   que pode ser atribuído à matemática, ciência que apreende os elementos   do mundo sensível   com noções abstratas. A metafísica é a ciência que estuda as essências, as formas e os inteligíveis. Com o conhecimento da metafísica, a alma ingressa no mundo eterno.

24, 25. — Epílogo: missão de Hayy ibn Yaqzan.

O Sábio afirma que somente alguns poucos atingem o mundo dos inteligíveis. Esses poucos eleitos são preenchidos pelo conhecimento, única possibilidade para que se realize o regresso da alma à sua origem, isto é, a Deus. O Sábio confessa que já se aproxima de Deus ao descrever a região eterna, isto é, os inteligíveis. Termina sua mensagem com o convite ao narrador para acompanhá-lo nessa viagem em busca do conhecimento.


Ver online : Henry Corbin