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Eros e Psique 9

segunda-feira 28 de março de 2022, por Cardoso de Castro

CAPÍTULO 9
Entrementes, pouco inclinada a usar os meios terrenos de investigação, Vênus parte para o céu. Ordena que lhe preparem a carruagem primorosamente polida e construída às pressas pelo ourives Hefestos, que sutilmente a deu de presente de casamento à deusa antes de sua primeira tentativa dentro da câmara nupcial, pressa que lhe custou um ferimento com a lima afiada, bem como certo prejuízo financeiro.

Das várias pombas presas nos aposentos da deusa, adiantaram-se quatro que, com passo ligeiro, enfiaram os pescoços pintados nas trelas preciosas que puxavam a carruagem; e, junto com a deusa, levantaram voo alegremente. Acompanhando a carruagem, os pardais voavam fazendo alegre estardalhaço e os demais pássaros, cantando docemente, anunciavam com sua melodiosa ressonância a chegada da deusa. As nuvens do céu se abriram para receber sua filha e o éter superior saudou a deusa com alegria. Diante das águias e dos gaviões rapaces que vieram saudá-la, a ruidosa comitiva alada da grande Vênus não demonstrou nenhum temor.

Vênus dirigiu-se diretamente à corte de Júpiter e exigiu, com pedidos gentis, a preciosa assistência de Mercúrio, o mensageiro dos deuses. O olhar azul de Júpiter, sem desviar-se do da deusa, concedeu-lhe a permissão. Em seguida, tentadora, Vênus empreende a descida do céu acompanhada por Mercúrio, ao qual encanta com as seguintes palavras:

— Tu bem sabes, arcádico irmão, que tua irmã Vênus nunca faz nada sem contar com a tua presença; e ninguém melhor do que tu conheces o fato de que há tempos venho buscando, encontrar a pista dessa escrava fugida. Nada mais resta então do que pedir-te para anunciares pelo mundo inteiro a sua fuga e prometeres a quem a encontrar primeiro uma valiosa recompensa. Faze com que minha ordem seja cumprida sem demora e espalha com exatidão os traços pelos quais ela pode ser reconhecida, para que ninguém ouse cometer o crime de acobertá-la alegando não saber quem ela é.

E, ao terminar de falar, entregou-lhe um papelucho, no qual estava anotado o nome de Psique e a descrição da sua aparência física. Tendo feito isso, voltou diretamente para casa.

No entanto, Mercúrio não se esqueceu da obediência que devia à deusa. Pois, percorrendo o mundo inteiro, cumpriu as ordens da deusa, divulgando o seguinte anúncio: "Se alguém souber do paradeiro ou puder fornecer alguma pista sobre a criada Psique, pertencente à rainha das deusas, Vênus, pode encontrar-se com o mensageiro dos deuses, Mercúrio, atrás da Pirâmide pois, cumprindo ordens da própria deusa, será recebido por sete adoráveis beldades e por um belo rapaz, doces como mel ao toque da língua.

A promessa contida no anúncio de Mercúrio despertou a cobiça de todos os mortais, que se entusiasmaram diante da perspectiva de receber esse prêmio.

Esse anúncio apressou a deliberação de Psique, que dirigiu-se com pressa para o palácio da deusa. Já estava bastante próxima do mesmo quando foi avistada por uma das escravas do palácio, cujo nome era Hábito.

Tão logo avistou Psique, a serva pôs-se a gritar, tão alto quanto podia:

— Afinal, criada imprestável, te lembraste de que tens uma senhora? Ou, segundo teus maus costumes, fazes de conta que nada sabes a respeito do trabalho que tivemos para te encontrar? Sorte tua que ficaste presa entre as grades do Orco, pois assim poderás receber logo o castigo pela tua teimosia!

E, agarrando-a pelos cabelos com brutalidade, arrastou-a até sua Senhora, embora Psique não lhe oferecesse resistência.

Assim que Vênus viu Psique, suas feições contorceram-se numa gargalhada gutural, igual às que os dementes costumam soltar e, sacudindo-a pela cabeça e puxando-lhe as orelhas, falou:

— Afinal me dás a honra de vires cumprimentar tua sogra? Ou vieste por causa do teu marido, que está com a saúde abalada devido à ferida que lhe causaste? Mas não te preocupes, pois já te darei uma recepção digna de uma nora tão boa!

E chamou:

— Onde estão minhas criadas, Inquietação e Tristeza? Depois de fazê-las entrar, entregou-lhes Psique para que estas a torturassem.

As servas, seguindo as ordens da senhora, bateram em Psique com os açoites e a torturaram com todos os demais instrumentos disponíveis de tortura; em seguida, conduziram-na de volta à presença da deusa. Então Vênus disse com um sorriso feroz nos lábios:

— Vede só, com o encanto da sua enorme barriga ela quer despertar nossa compaixão pois, através do divino rebento que traz no ventre, conta em transformar-me em avó. Afortunada sou, de fato, se for chamada de avó na flor dos meus anos e mais ainda se chamar o filho de uma criada de neto de Vênus. No entanto, estou sendo parva ao dizer filho; pois esse casamento não é legítimo e, além disso, nenhum casamento pode ser considerado consumado sem a anuência do pai. E assim, ele nascerá como um bastardo, isso caso eu venha a consentir no nascimento.

Dizendo isso, lançou-se sobre Psique, rasgando-lhe e tirando-me as vestes do corpo, arrancando-lhe os cabelos. Espancou-a da cabeça aos pés. Em seguida, fez um grande e único monte misturando uma grande quantidade de trigo, cevada, milho, grão-de-bico, sementes de papoula, lentilhas e favas, dizendo a Psique:

— Parece-me que tu, criada inútil, só podes conquistar teu amante na medida em que trabalhares arduamente, e de nenhum outro modo. Além disso, com esse trabalho também porei em risco o fruto do teu ventre. Separa esse monte por espécies e depois que tiveres feito isso de forma correta, mostra-me a tarefa cumprida até a noite.

Como tivesse despejado grande quantidade de grãos, Vênus foi entregar-se aos regalos de uma festa amorosa.

Psique, vendo que a tarefa era inexequível, nem mesmo tentou executá-la, permanecendo imóvel, em silêncio.

Uma formiguinha que passava por ali, esse animalzinho tão incrivelmente trabalhador, avaliou a impossibilidade da execução de tarefa tão enorme, e sentiu pena da amante do deus do amor. E, amaldiçoando a perversidade da sogra, convocou um batalhão de formigas para que estas viessem em socorro de Psique:

— Tende piedade, ó criaturinhas ágeis da terra, mãe de todos, tende piedade da esposa do Amor, dessa adorável menina!

Trabalhando sem cessar, com a maior das pressas e reunindo esforços conjuntos, as formiguinhas separaram espécie por espécie, grão por grão; depois de arrumarem tudo em montes separados, sumiram rapidamente de vista.

No início da noite, Vênus voltou da festa, recendendo a vinho e perfumada a bálsamo, com todo o corpo emoldurado por rosas brilhantes; quando viu o sucesso e o esforço do trabalho maravilhoso, disse com ódio:

— Não se trata de trabalho teu, sua inútil, nem o esforço foi feito pelas tuas mãos; quem fez tudo foi ele, ao qual causaste uma desgraça e que ainda sofrerá mais por tua causa! - E, depois de atirar-lhe um pedaço de pão embolorado, retirou-se para seus aposentos. Enquanto isso, Eros estava trancado sozinho numa ala retirada do castelo, em parte para que sua ferida não se agravasse por alguma negligência intencional, em parte para que não se encontrasse com quem tanto desejava. De sorte que os dois amantes tiveram de passar isolados debaixo do mesmo teto uma noite pavorosa.

Mal a aurora despontou, Vênus chamou Psique e lhe disse o seguinte:

— Vês aquele bosque que acompanha as margens do rio, repleto de imensos sorvedouros provenientes de quedas de água das montanhas próximas? Por ah vagueiam ovelhas ferozes com os dorsos cobertos de flocos de lã de ouro. Creio que me trarás, custe o que te custar, um pouco dessa lã assim que a encontrares.

Psique acatou a ordem sem revidar, não para cumprir a tarefa, mas para precipitar-se nas águas impetuosas do rio, jogando-se do rochedo para obter paz de tanto sofrimento. Contudo, do rio, lhe diz um simples caniço verde, por inspiração divina, um daqueles caniços que espalham pelo ar doces melodias à mãe da natureza [1]:

— Psique, não perturbes minhas águas sagradas com tua morte miserável, nem tentes aproximar-te das ovelhas enquanto o sol estiver a pino, visto que o calor as deixa tomadas de terrível furor, o que as faz atacar com os chifres e morder com mordidelas venenosas e letais qualquer mortal que as venha perturbar. Mas quando o calor do meio do dia tiver se aplacado, e o rebanho descansar devido ao vento fresco proveniente do rio, podes ir até o plátano e ocultar-te embaixo dele, pois ele é alto e bebe junto comigo da água do mesmo rio. E quando o furor das ovelhas já tiver se aplacado e elas estiverem mais descansadas, basta sacudires as árvores do bosque e colher os flocos de lã dourada que ficam presos por toda a parte dos seus galhos curvados.

Foi assim que o caniço salvou a vida de Psique, ensinando-a como agir através desse ardil. E esta, não se arrependeu de dar-lhe ouvidos, não hesitando em cumprir e em seguir cuidadosamente à risca as instruções; e pôde voltar com o regaço cheio de flocos de lã de ouro para junto de Vênus. A deusa não se comoveu com o êxito de mais essa tarefa e, com as sobrancelhas cerradas, rindo cinicamente, disse:

— Sei muito bem quem foi o mestre dessa ação também! Mas agora vou tentar com empenho descobrir se tens de fato grande coragem e se és mesmo esperta. Vês o rochedo escorregadio da alta montanha? De lá rolam em cascatas as águas escuras que alimentam no vale próximo os dois rios: o Cocito e o Estige [2]. Lá chegando, sobe ao rochedo e enche a jarra com as águas espumantes da fonte mais alta.

Dizendo isso, Vênus deu a Psique um recipiente de puro cristal liso e, além disso, ainda a insultou o quanto pôde.

Psique, contudo, apressando o passo, procurou chegar logo ao rochedo, certa de conseguir pôr fim à sua infeliz vida. Mas mal chegou ao rochedo ficou como que petrificada diante da dificuldade da tarefa. O rochedo íngreme era alto demais e terrivelmente perigoso, pois era escorregadio. As águas jorravam bem no meio de uma cavidade arremessando-se no abismo, correndo através de um canal muito estreito e encoberto pela vegetação que ia dar no vale. Do lado esquerdo e do lado direito, de grotas selvagens safam os pescoços compridos de cobras venenosas, cuja missão era montar guarda noite e dia, com a atenta vigilância de suas pupilas brilhantes. E até as próprias águas se protegiam, pois eram dotadas de vozes que diziam: "Sai daqui!" E, "O que fazes? Presta atenção!" e ainda: "Que pensas fazer? Acautela-te!" E: "Foge!" Mais ainda: "Tu morrerás." Assim gritavam as águas turbulentas. Petrificada de horror, embora fisicamente presente, Psique estava com os sentidos amortecidos; dada a imensidão dos perigos, ficou inteiramente inerte, sem sequer poder chorar, o que seria o seu último consolo. Mas aos olhos da Criação não escapou o tormento dessa alma inocente. Pois a águia real, a predileta de Júpiter, resolveu socorrê-la por ter-se lembrado da inestimável ajuda que tivera de Eros por ocasião do rapto de Ganimedes. Este foi levado e entregue a Júpiter como presente sob a orientação de Eros. Homenageando a divindade do deus, a águia resolveu ajudar a esposa caída em desgraça, abandonando os ares frescos da abóbada celeste a fim de vir em seu socorro. Voando diretamente em direção da menina, disse-lhe:

— Achas que serás capaz, tu que és inexperiente e não tens prática de fazer essas coisas, de tirar uma só gota dessa água, quanto mais de chegares até a fonte, empreitada não menos perigosa? Não ficaste sabendo, por ouvir falar, que mesmo os deuses temem as águas do Estige, e que nem o próprio Júpiter escapa a esse medo? Não sabes também que, assim como os mortais costumam jurar pelos deuses, estes fazem seus juramentos invocando as águas do Estige? Mas agora entrega-me a tua jarra.

Com a jarra bem segura entre as garras, a águia apressou-se. Balançando as asas, passou rápida por entre os dentes e as línguas trifurcadas das serpentes. Esticando as asas para a direita e para a esquerda como se fossem remos, conseguiu apanhar a água. Estas estiveram de acordo e cuidaram para que a águia nada sofresse e saísse ilesa dali, visto que esta lhes disse que cumpria ordens de Vênus e que estava a seu serviço. Isso facilitou-lhe a tarefa. Assim foi que Psique pôde voltar com a jarra que recebeu alegremente da águia, entregando-a a Vênus.

Também dessa vez o temperamento raivoso da deusa não se aplacou. Pois ela lhe deu outra tarefa ainda mais fatal, com um sorriso sinistro:

— Parece que tu és uma grande e poderosa bruxa, visto que cumpriste minhas instruções com tanta facilidade! Mas agora, minha preciosidade, é preciso que me tragas mais uma coisa. Pega esta caixinha!

E a deusa lhe entregou a caixinha ordenando-lhe:

— Desce até o inferno e vai até o palácio do Orco. Então dize a Perséfone, ao lhe entregar esta caixinha:

— Vênus pede-te que mandes um pouquinho da beleza imortal que é tua, um tanto que baste para um único dia. Pois a beleza de que dispunha, ela gastou, consumindo-a nos cuidados com o filho doente. Mas não voltes tarde demais, pois preciso dessa pomada para ir à reunião dos imortais ainda hoje.



[1Segundo Thomas Taylor, referência para fazer lembrar a flauta de Pan formada de caniços reunidos.

[2Segundo Thomas Taylor, o Estige considerado de acordo com sua primeira subsistência, parece ser a causa pela qual as naturezas divinas retêm uma imutável mesmidade de essência. A imutabilidade portanto da energia divina é significada pelo deuses jurando pelo Estige, como leremos mais abaixo.