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Benz Satanas

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Tendo sido criados à eikon   - imagem de Deus   como espíritos livres, é entre os anjos   (aggelos) que ocorre a primeira queda, o primeiro abuso da liberdade, quando o seu mais elevado príncipe, Lúcifer (o «Porta  -Luz» - vide phos  ), se revolta   contra Deus. Segundo a concepção dos padres da Igreja   Primitiva, da Idade Média e dos reformadores, o homem   não foi criado senão em segundo lugar. A criação do homem torna-se necessária após a queda   dos anjos, que foram expulsos do Reino de Deus   e precipitados no abismo  . Ela serve para preencher o reino de Deus com novas criaturas espirituais capazes de oferecer   a Deus o livre amor que lhe foi negado pelos anjos rebeldes. O problema do mal (kakon  ) já surge entre os primeiros seres criados, já neste nível superior e anterior   ao humano o mal aparece como um problema de liberdade ou de abuso da liberdade. No Antigo e no Novo Testamento  , Satan  ás (o diabo   - diabolos) aparece como o representante do mal (kakon). A filosofia e a teologia do iluminismo empenhou-se em banir da consciência   cristã a figura do demônio, por considerá-lo produto da fantasia mitológica da Idade Média; mas é justamente esta figura que torna particularmente concreta a idéia cristã de Deus e o conceito do mal. Satanás só aparece como figura autônoma no decurso da história religiosa veterotestamentária. No Antigo Testamento o mau ainda é visto em ligação direta com o próprio Deus; na medida em que possui força e vida, o mal também é produto de Deus - «eu formo a luz e crio as trevas, eu faço a ventura e crio a desgraça  , eu, o Senhor, faço todas estas coisas» (Is 45,7). Satanás representa o lado demoníaco da ira   (orge) divina. No livro de Jó ele aparece como parceiro de Deus, encarregado de pôr o justo à prova. Somente no judaísmo pós-bíblico é que ele passa a ser o adversário de Deus, o príncipe dos anjos, que criado por Deus e à frente dos exércitos angélicos seduz uma parte dos anjos a se revoltarem contra Deus. Em castigo   por sua rebeldia ele é precipitado do céu juntamente com seus seguidores, transformados em demônios, e como soberano dos anjos decaídos combate   agora contra o Reino de Deus de três maneiras  : buscando seduzir os homens ao pecado   (hamartia), procurando perturbar o plano de salvação   de Deus, e apresentando-se diante de Deus como acusador e caluniador dos santos a fim de reduzir o número   dos eleitos no Reino de Deus.

Satanás tem, assim, uma tríplice função: ele é criatura de Deus, de quem recebeu o ser   e o existir, é parceiro de Deus no drama   da história da salvação (soteria), e é o rival que luta contra o plano de salvação de Deus. No judaísmo tardio, por influência do dualismo   da religião zoroástrica durante o exílio   persa, Satanás assumiu os traços   de um antideus. Nos escritos da seita   de Qumran  , Belial, o «anjo das trevas» e «espírito   do pecado», também aparece como adversário do «príncipe das luzes» e do «espírito da verdade». A história da salvação se encerra com o combate, no final dos tempos, do príncipe das luzes contra Belial, luta que terminará com o juízo   sobre ele e seus anjos e sobre os homens que lhe obedecem, e que haverá de trazer o fim da «aflição  , suspiros e crimes» e o reinado da «verdade».

No Novo Testamento surgem claramente os traços de um poder contrário a Deus na figura do Diábolos-Satanas-Belial-Beelzebub (diabolos), do «inimigo» - ele é o acusador, o maligno, o tentador, a antiga serpente  , o grande dragão, o príncipe deste mundo, o Deus deste mundo, que procura impedir que a soberania de Deus seja restaurada pela vida e paixão de Cristo  . Oferece a Cristo todos os reinos deste mundo se ele o reconhecer   como soberano (Mt   4,8-9); é o verdadeiro antagonista do Messias-Filho   do Homem, de Cristo, que Deus enviou ao mundo para «destruir as obras do demônio» (1Jo 3,8). Mas falta a ele a possibilidade de encarnar  -se: ele tem que se limitar a espoliar outras pessoas para assumir a aparência da personalidade e da corporeidade. Face   à «philanthropia» de Cristo, ao seu amor pelo homem, que o leva a entregar-se como vítima pelos pecados da humanidade, Satanás aparece (nos Padres antigos, como p. ex. em Basílio) como o «misánthropos», o que odeia o homem, frente ao que traz a beleza celeste como aquele que a odeia, o «misókalos». Com a gnose, também surgem traços dualísticos no terreno da contemplação   cristã -já na Carta de Barnabé, do século II, Satanás aparece como «o negro» (Barn 4,9), em Atenágoras como «o que sabe administrar a matéria e suas aparências», «o espírito que paira em volta da matéria». Por influência da gnose e do maniqueísmo este aspecto dualístico leva também à demonização do sexo, que é visto como a esfera   particular da atividade   tentadora do demônio, e onde à mulher cabe o papel de instrumento da sedução   diabólica.

Mais tarde a união   destes três aspectos - Satanás como criatura, como parceiro e como adversário de Deus - sempre de novo cede lugar também a uma interpretação   puramente dualista, como entre os Cátaros, mas também se pode perceber tendências maniqueístas, como uma corrente subterrânea permanente na igreja, determinando a compreensão do pecado e da redenção. Sendo o rebelde por excelência, que não se conforma em ser semelhante a Deus amando o seu modelo e criador mas que quer ser como Deus colocando o amor a si próprio acima do amor a Deus, Satanás permanece o modelo primordial do pecado.

A idéia de Satanás como antagonista de Cristo levou já entre os Padres da antigüidade cristã a uma interpretação mística da encarnação e do ocultar-se sob a «condição de escravo  ». «Revestindo-se» da natureza humana, o Filho de Deus   torna sua origem irreconhecível a Satanás. Cristo se faz «isca» jogada a Satanás e que este engole (assim Lutero) porque o toma por um homem comum sujeito a seu poder, isca esta que o leva à morte. A isto acrescenta-se na Idade Média a compreensão do demônio como «símio de Deus», como aquele que tenta arremedar Deus através de falsas e malignas criações que procura impingir ou opor às criaturas.

Na história da Igreja as fases que apresentam o despertar   de uma nova consciência do pecado coincidem com as que manifestam um sentido mais aguçado da presença   do «maligno», como em Agostinho de Hipona   ou Bernardo de Clairvaux, em Lutero, Calvino ou Wesley. Na consciência histórica cristã a figura de Satanás desempenha um papel importante, não em último lugar por influência do Apocalipse   de João. A história da salvação é entendida como um permanente combate entre Deus e seu antagonista, que com sempre novos recursos tenta contrariar o plano divino de salvação. Jacobus Acontius (t 1567), um engenheiro de fortificações, falava dos «ardis de Satanás» (strategemata Satanae). Este combate, que constitui o fundo religioso do drama da história universal  , é caracterizado pela crescente rapidez, já esboçada no Apocalipse: golpe e contragolpe se dão a intervalos de tempo cada vez mais curtos, pois «o diabo sabe que lhe resta pouco tempo» (Ap 12,12), seu poder no céu já foi derrubado: «Vi Satanás cair do céu como um raio  » (Lc   10,18). Também na terra   seu poder de ação fica limitado pela volta do Senhor. Por isso, nos últimos tempos, seus ataques contra os eleitos do Reino aumentam de tal forma que o próprio Deus se vê obrigado a abreviar os dias da última tribulação, pois «se não se abreviassem aqueles dias, ninguém se salvaria» (Mt 24,22). No idealismo alemão e na filosofia russa foram conservados muitos desses traços; Berdiaeff   - Nicolau Berdiaeff, assim como Schelling   e Franz von Baader   antes dele, realçam que o demônio não possui uma verdadeira personalidade ou realidade autêntica, mas que está repleto de uma insaciável «fome de realidade», que ele não pode satisfazer senão espoliando os homens de quem se apossa. Desde o iluminismo a teologia ocupa-se em desmitologizar o demônio e provar sua não-existência. Mas, segundo Sofiologia   - Vladimir Soloviev  , esta é a mais requintada tentativa de disfarce do demônio, e por conseguinte a prova mais cabal de sua existência.