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Alquimia da Felicidade Perfeita

Cattani: Ibn Arabi - Assunção Celeste (miraj)

Introdução

quarta-feira 10 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

EXCERTOS DA INTRODUÇÃO DE ROBERTO AHMAD CATTANI DE SUA VERSÃO EM PORTUGUÊS DA «ALQUIMIA   DA FELICIDADE   PERFEITA», DE STÉPHANE RUSPOLI (The Alchemy of Human Happiness)

    

O primeiro versículo da sura   17 do Alcorão, de forma bastante obscura, recita: «Glorificado seja Aquele que, durante a noite, transportou o Seu servo   do Templo   inviolável ao Templo longínquo, cujo recinto abençoamos, para mostrar-lhe alguns dos Nossos sinais  . Saber que Ele é o Ouvinte, o Vidente». O que está mencionado sucintamente aqui é a misteriosa viagem   noturna do Profeta   Mohammad, levado da Sagrada Mesquita de Meca até aquela de Jerusalém, e daí para os céus, até a Presença   de Deus  . Esta viagem arcana é denominada em árabe miraj, assunção celeste.

Segundo o relato posterior   do Profeta aos seus seguidores, «eu estava dormindo no recinto sagrado   quando o Arcanjo   Gabriel veio me sacudir com o pé até eu acordar e levantar. Ele me fez montar um bicho que parecia uma mula com asas, e cada passo dela chegava até onde meus olhos podiam enxergar». [1] Montado em Buraq e escoltado por Gabriel, Mohammad parte de Meca e chega em poucos instantes a Jerusalém, onde é recebido por um grupo de profetas, entre os quais Abraão, Moisés e Jesus  , e todos rezam juntos. Do Templo de Jerusalém, Mohammad é levado por Buraq e guiado pelo Arcanjo através dos sete Céus, onde ele encontra novamente oito Profetas (aqueles mesmos que ensinarão o adepto na ascensão da Alquimia   da Felicidade  ), desta vez despojados de suas aparências corpóreas e «incorporando suas realidades celestiais». Aos companheiros de fé, na volta, Mohammad contou que ele chegou «até a distância de três tiros de arco da Presença Divina». Sobre os Paraísos que ele visitou, ele disse: «Uma parcela de Paraíso   do tamanho de um arco é melhor que tudo o que há debaixo do sol, desde que se levanta até que se põe». [2]

O ápice da ascensão de Mohammad é a Árvore de Lótus do Limite Último, conforme contou o Profeta: «As raízes da Árvore de Lótus estão no Trono (de Deus), e ela marca   o limite do conhecimento de qualquer sábio  , seja ele Arcanjo ou Profeta-Mensageiro. Mais adiante é um mistério oculto, ignorado de qualquer um que não seja Deus». [3] A Luz   Divina desce sobre a Árvore e a envolve num esplendor insustentável, mas o Profeta não baixa os olhos, e sustenta o clarão sem pestanejar.

Debaixo da Árvore de Lótus, o Profeta-Mensageiro recebe a Gordon Estado   Primordial que constitui o credo fundamental do Islã: «O Mensageiro crê no que foi revelado por seu Senhor, e todos os crentes creem em Allah, em Seus anjos  , em Seus livros e em Seus mensageiros. Nós não fazemos distinção entre Seus mensageiros. Disseram: escutamos e obedecemos. Só anelamos a Tua indulgência, ó Senhor nosso! A ti será o retomo!». [4]

O último episódio da viagem celeste de Mohammad pode deixar perplexo o leitor pouco acostumado com o pragmatismo islâmico em termos de doutrina   e ética: ainda debaixo da Árvore, o Profeta recebe de Deus a ordem   para que os muçulmanos rezem cinquenta vezes por dia. Na volta, durante a descida, Mohammad para para despedir-se de Moisés, e este pergunta-lhe quantas orações lhe foram ordenadas. Quando o Profeta responde-lhe, Moisés diz: «A oração   congregacional é um fardo pesado, volte lá e peça ao Senhor para aliviar a carga para ti e para o teu povo». Três vezes Mohammad volta, e três vezes Deus diminui o número   de preces obrigatórias. Finalmente, ele consegue «apenas cinco  , para cada dia e cada noite». Ainda assim, Moisés insiste que é muito, mas Mohammad dessa vez rebate que está com vergonha   de voltar mais uma vez. «E foi assim que a quem executa as cinco orações em boa fé e com a consciência   da bondade de Deus serão atribuídos os méritos de cinquenta orações». [5]

A Laylat al-miraj, a Noite da Viagem Noturna, representa simbolicamente o correspondente simétrico celeste da Noite da Descida do Alcorão na Terra  , a Laylat al-qadr: numa é o Profeta que é levado até o Céu para receber   a mensagem divina, na outra é a mensagem divina que é trazida até ele. Da mesma forma, F. Schuon   lembra que o Profeta é designado com o nome Mohammad quando se refere ao mistério da Revelação, com a Descida, enquanto é designado como Ahmad (com a idêntica raiz etimológica, as letras m-h-d, raiz que indica a generosidade), quando se refere ao mistério da Ascensão. [6]

Uma descrição muito mais detalhada da viagem celeste do Profeta Mohammad encontra-se no Liber Scalae Machometi, [7] tradução latina de 1264 de um original árabe hoje perdido, mas certamente conhecido por Ibn Arabi  . «A ‘imitação  ’ desta experiência visionária e extática do profeta do Islã representará durante alguns séculos um objetivo constante e um incentivo profundo para as mais altas expressões da espiritualidade muçulmana: por isto, considera-se o miraj como uma imagem arquetípica fundamental da cultura religiosa que tem suas raízes no verbo corânico (...) Entre os sufis e os gnósticos   islâmicos, impõe-se rapidamente o anseio   de imitação da ascensão celeste: Mohammad é percebido como o modelo de herói   místico  , e o seu miraj como o protótipo de todas as êxtases visionárias». [8] Abu Yazid Bistami, grande mestre sufi do Khorasã, por exemplo, atribuiu-se uma ascensão in spiritu, através das mesmíssimas etapas que as do Profeta. A significação esotérica do miraj para os sufis é a de que ao homem   que alcançou o conhecimento total e perfeito (como o adepto da Alquimia da Felicidade), mesmo mergulhado na «noite dos sentidos» (o sono do Profeta perto da Caaba  , ou a «selva oscura» de Dante  ), é dado ver antecipadamente (em vida) o seu Senhor e pregustar a beatitude final.

As etapas e as «estações» místicas (maqamat) da alma   progredindo para a realização   e a perfeição, com o tempo, distanciaram-se do simbolismo cosmológico da viagem celeste (céus, estações planetárias, Paraísos), para se tornarem paradigmas metodológicos e didáticos dos caminhos espirituais (Tariqat) ensinados pelos mestres sufis aos aspirantes e aos discípulos e dos estados da alma, em muitos casos rigorosamente codificados, [9] sendo um deles a alquimia espiritual.



Ver online : IBN ARABI


[1Sirat Rasul Allah, Ibn Ishaq, citado por Martin Lings em Muhammad: His Life Based on the Earliest Sources (Allen & Unwin, 1983).

[2Hadith mencionado por al-Bukhari.

[3Ta’rikh ar-Rusul wa ‘l-Muluk (trad. francesa La Chronique, «Les prophètes et les rois», Sindbad, 1984) de Tabari.

[4Alcor. 2.285.

[5Ibn Ishaq, op. cit.

[6The Spiritual Significance of the Substance of the Prophet, Frithjof Schuon, em Islamic Spirituality.

[7II libro della scala di Maometto, tradução italiana de R. Rossi Testa (SE, 1991)

[8Il «miraj» di Maometto, C. Saccone.

[9Ver, por exemplo, Les Maladies de l’Âme et leurs Remèdes, de al-Sulami (Arché, 1990).