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Religion after Religion

Wasserstrom: Ahriman, segundo Henry Corbin

segunda-feira 28 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Excertos da tradução em português de Dimas David   Santos Silva, do livro de Steven Wasserstrom  , Religion after Religion

    

Ahriman   é muito conhecido como a versão final persa da parte diabólica do antigo mito   dualista do zoroastrismo. Aristóteles já falava sobre esta divindade mágica em seu discurso A respeito da Filosofia. Este Adversário, quase demoníaco, foi transposto eventualmente em versões gnósticas. Como o Leviatã, também foi identificado com Satã pelos patronos da Igreja  . Encontrado nas versões grega e latina, bem como no mitraísmo (como Deus   Arimanius), no maniqueísmo e até mesmo em algumas versões da cosmologia islâmica. Esta última encarnação   do demônio do zoroastrismo como Ahriman atraiu muita atenção   ideológica no criticismo cultural do século vinte. Carl Jung  , Joseph Campbell, Denis de Rougemont, Mircea Eliade   e Henry Corbin   usaram o mito de Ahriman como o antagonista planetário de formas que tendiam a mascarar uma espécie de antijudaísmo filosófico.

O antijudaísmo gnóstico está implícito na identificação de Ahriman com Jeová. A figura dominante de Eranos, sua presença   imperativa, Spiritus Rector, e que deu abertura à mesma, o próprio Carl Jung identificou tanto o Leviatã quanto Ahriman com YHWH   em Resposta   a Jó, um livro prontamente atacado por Martin Buber   por seu antijudaísmo gnóstico. Talvez o documento mais perfeitamente gnóstico do século, Resposta a Jó tornou-se o texto mais importante de Jung por atacar o Deus do povo judeu   após o holocausto. Outros exemplos de Eranos e do grupo Bollingen podem ser acrescentados. Joseph Campbell, em seu livro muito lido As máscaras de Deus, também identificou Ahriman, ou Angra-Mainyu, com Jeová. E o volume   romeno de Eliade, O mito da reintegração, trouxe um capítulo sobre Ahriman e Ohrmazd.

Encontramos uma desatenção mítica relacionada com Ahriman por outros do seu círculo   íntimo. Aqui a ideia não é de que o Deus dos judeus seja Ahriman, mas que os judeus foram responsáveis pela criação de Satã a partir de Ahriman. Um membro muito conhecido desse círculo foi o suíço Denis de Rougemont. De Rougemont foi um dos primeiros beneficiários da Fundação junguiana Bollingen — na verdade, foi patrocinado pessoalmente pela paciente de Jung, Mary Mellon  , a fundadora dessa intituição. Ahriman surge no tratado de De Rougemont sobre o mal. A quota do Diabo  , escrito na propriedade de Mary Mellon. Nesse livro do período da guerra  , ele proclamou que ‘o diabo é uma invenção dos judeus, como a divisão   Panzer é alemã... foram os rabinos que começaram a fazer uso da lenda de Ormuzd e Ahriman’.

O tratamento de Ahriman como antagonista planetário apresentado por Corbin foi talvez o mais complexo   e significativo de Eranos, obviamente um caso do que Scholem   chamou de ‘anti-semitismo metafísico’. De Rougemont foi um amigo íntimo e aliado teológico de Corbin nos anos trinta e continuou a usar a obra de Corbin em seus próprios ensaios durante toda a sua vida. Como observei nos capítulos anteriores, um antimodernismo virulento surgiu essencialmente no pensamento   de Corbin desde os anos trinta, quando ele elaborou uma ‘teologia da crise’ junto com De Rougemont.

Corbin lançou sua carreira do período pós-guerra como um persianista. O antigo deus persa Ahriman, nas décadas seguintes, tornou-se para ele um símbolo primeiro do odioso mundo moderno. Em um de seus primeiros e mais lidos ensaios de Eranos, Corbin investiu contra Ahriman, a quem ele atribuiu o termo princípio da atitude niilista ativa?b ‘Ahriman é o legítimo príncipe deste mundo; além do mais, embora ele seja uma Força das Trevas, esta Treva é um aspecto da suprema divindade em si mesma. Iblis  -Ahriman nunca é investido de uma legítima soberania, ele é o Adversário, pura e simplesmente’. Ele elucidou enfaticamente este princípio do mundo negativo no final da sua vida: ‘A norma de nosso mundo pode assumir todas as sortes de nomes: sociologia, materialismo dialético ou não-dialético, positivismo  , historicismo, psicanálise e assim por diante’. Para Henry Corbin, a modernidade, assim descrita, era uma catástrofe ahrimânica. Ele posiciona esta catástrofe no centro da história do mundo’. E a era da catástrofe que sucedeu ao dia em que Adão   entregou o segredo e a visão   do Paraíso   à ira   e ao escárnio de Iblis-Ahriman. Realmente, a tecnologia   arruinou completamente o mundo:

Aquilo que chamamos de risco ocidental é a aplicação da inteligência à investigação científica de uma natureza que foi dessacralizada, que deve ser violada para descobrir suas leis e para submeter suas forças à vontade humana. Isto nos trouxe até onde estamos agora. Um trabalho   sobre o nada   e sobre a morte que deve ser olhado de frente para ser denunciado, da maneira que os sábios da antiga Pérsia, que foram os primeiros, senão os únicos a procederem assim, olharam nos olhos do atroz Ahriman.

No final de sua vida, ele reiterou que a condição humana como tal é uma ‘tragédia de Prometeu, mas é também uma tragédia ohrmazdiana (a invasão de Ahriman)’.

Devo ser perfeitamente explícito neste ponto. Não há evidência de que Henry Corbin fosse anti-semita. Isto posto, Corbin realmente ultrajou Ahriman, o antagonista planetário, em termos que o leitor pode associar com judaísmo rabínico. Ou seja, o inimigo, a catástrofe para Corbin era o legalismo. Corbin se mantém famoso por sua divisão gnosticamente dualística do Islã entre misticismo   e legalismo, sufismo e a Igreja do Islã. O legalismo, certamente, é um movimento   de rotina da retórica anti-semítica. Assim, é justo dizer que o exagero cósmico   de Corbin de um rompimento primordial entre a escritura e o espírito  , entre o legalismo e o esoterismo  , é ao mesmo tempo paradigmamente gnóstico e implicitamente antijudaico. O gnosticismo  , vale a pena   lembrar nesta conexão, já foi chamado por Gershom Scholem de ‘o maior caso de anti-semitismo metafísico’. Assim, embora Corbin não tivesse pretendido ofender os judeus, também nunca repudiou as implicações de sua imagem, que se desenvolveram em círculos ao seu redor durante toda a sua vida.

Corbin, eu acrescentaria, escreveu uma crítica extremamente elogiosa do livro Resposta a Jó de Jung, atualmente incluída na tradução corrente para o francês desse livro. Jung, por sua vez, elogiou o ensaio de Corbin como a única revisão, entre as dezenas que foram publicadas, que realmente entendeu o que ele pretendeu escrever  . Em retrospecto, isto não é de surpreender, visto que Corbin e Jung orgulhosamente (e mesmo esotericamente) se proclamaram gnósticos. Eles concordaram, com efeito, a respeito do princípio fundamental (e mesmo esotérico) de que o Deus da Bíblia   dos hebreus era, na verdade, um demiurgo   monstruoso, do qual um dos muitos nomes é Ahriman.