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Religion after Religion

Wasserstrom: Eliade, sobre Goethe

terça-feira 23 de agosto de 2022

    

Excertos da tradução em português de Dimas David   Santos Silva, do livro de Steven Wasserstrom  , «Religion after Religion»

    

Eliade  , assim como Corbin  , nutria uma paixão pela Alemanha e suas coisas nos anos 20 e 30. Naquela época Goethe   tornou-se um de seus marcos pessoais de grandiosidade. ‘(Voltaire) encorajou meus sonhos de um espírito   universal  ... (mas quando) descobri outros autores universais, especialmente Papini e, mais tarde, Goethe e Leonardo da Vinci, parei de lê-lo’. No final de sua carreira ele ainda situava Goethe no panteão cultural: ‘Devemos levar muito a sério   estas obras — da mesma forma que levamos a sério o Antigo Testamento  , as tragédias gregas, ou Dante  , Shakespeare   e Goethe’. Eliade comparou-se a Goethe em muitas outras ocasiões. Ele deixou claro, por exemplo, que ‘as penas do jovem Goethe’ eram, para usar um eliadismo favorito, ‘paradigmáticas’ de iniciação  ; ele cita Dichtung und Wahrheit como evidência de que Goethe passou por uma prova xamânica de transformação  . No final de sua vida ele observou: ‘Pareço-me, ou quero parecer-me, com Hasdeu, Cantemir e com Goethe’.

Claramente, portanto, Eliade compreendeu que seu papel na história era muito grande, diretamente calcado no do ‘Goethe universal’. Por isso ele escreveu ‘um grande destino’, para falar para a nova geração inteira e ‘meu destino, considerando-se ao mesmo tempo um ‘bucarestiano autêntico’, e um ‘homem   universal’. Isto foi ainda mais claramente estabelecido muito mais tarde em sua vida: ‘Como Gide já observou corretamente, Goethe era altamente consciente de uma missão para conduzir uma vida que pudesse ser exemplar   para o resto da humanidade. Em tudo o que fez ele estava tentando criar um exemplo. ...Como escreveu Paul Valéry   em 1932: Ele representa para nós, cavalheiros da raça   humana, uma de nossas melhores tentativas de nos tornarmos como os deuses.’ Em 1959, Eliade declarou simplesmente: ‘Como sempre, vejo o destino de Goethe como o meu próprio’.

Qual era aquele destino goetheano? Em 1973 ele observou que ‘Goethe melhora a cada nova leitura. Reli sem parar Dichtung und Wahrheit.’ Logo depois dessa leitura Eliade refletiu sobre Gespräche mit Goethe, em que Goethe especula sobre Deus  , que destrói e recria o cosmos. Esta Naturphilosophie   remitologizadora parece ser a chave de sua devoção por Goethe. Eliade, portanto, atribui a Goethe suas afirmações metafísicas mais fundamentais, ou seja, que o cosmos opera sob o princípio da Natureza, cujo Mistério consiste em um ritmo de morte e renascimento. O alqui-mista ‘coopera com a Natureza’, age ao lado de Deus neste trabalho  .

As propensões ‘faustianas’ e mesmo demoníacas do homem perfeito  , um tema caro ao demiurgo   Goethe, foram desta maneira compreendidas como praticamente sem limites. Goethe falou de uma ‘demonologia empírica’. Eliade escreveu estudos ‘empíricos’ de demonologia a partir de seu texto ‘Notas sobre demonologia’ (1939), em Ocultismo, Magia   e Modas Culturais. O faustiniamismo de Eliade então fundiu-se com um ‘diabolismo’ similarmente goetheano e ficou situado programática e permanentemente no cerne de sua metafísica  : ‘Não é por acaso que Goethe buscou durante toda a sua vida o verdadeiro lugar de Mefistófeles, a perspectiva em que o Demônio que negava a vida pudesse mostrar-se   paradoxalmente como seu aliado mais valioso e incansável’. Em novembro de 1968 Eliade novamente voltou a Goethe, confidenciando a seu diário que, sempre que ele se sentia cansado, doente, deprimido (e como não, visto que não sei ainda de que doença   estou sofrendo?), lia Gespräche mit Goethe, de Eckermann:

Então me sinto acalmado e confortado. O mistério dessa atração total por Goethe continua a fascinar-me. Um pensamento   ou uma página dele, qualquer trabalho relacionado ao mesmo, projeta-me em um universo   vigoroso, luminoso, familiar. Sinto-me como se gritasse: este é o meu mundo, esta é a razão por que fui criado, e assim por diante.

Eventualmente, lia Dichtung und Wahrheit, até quase o final de sua vida e ficava surpreso pelo exasperante egocentrismo de meu querido Goethe’.

Para Goethe, o símbolo era ‘uma revelação viva, instantânea (lebendigaugenblickliche) do inescrutável’. O símbolo goetheano de revelação era então compartilhado por Corbin, Scholem   e Eliade. Corbin usou ambos os termos perenes de Eliade para revelação, ‘hierofania’ e ‘teofania’. Explicitamente citou Eliade a respeito deste uso. O próprio tratamento definitivo de Corbin foi publicado na parte 2 de IMAGINAÇÃO CRIATIVA NO SUFISMO DE IBN ARABI  , especialmente em ‘Criação como teofania’ e ‘Imaginação   teofânica e a criatividade do coração  ’. Para Corbin, escritura e terra  , revelação e criação eram em si mesmas teofanias. O símbolo de Eliade similarmente era uma espécie de portal das estrelas, um ponto de acesso abrindo-se para o infinito  ; o ponto de revelação, disponível onde quer que sejam encontrados símbolos. Para os historiadores das religiões, a força teofânica do símbolo era — como Goethe já lhes tinha mostrado com gênio — insuperável.


Ver online : Excertos de «Religion after Religion»