Página inicial > Arte e Simbolismo > Metafísica Medieval

Metafísica Medieval

segunda-feira 28 de março de 2022

      

Excertos de «A Filosofia Medieval», Jorge Zahar, 1990

Muitos problemas "metafísicos" foram tratados pela Idade Média antes de qualquer difusão efetiva da Metafísica aristotélica; reciprocamente, a questão da possibilidade da metafísica, a de sua acessibilidade a um espírito   adulto, a questão, enfim, da definição do projeto metafísico, a partir da determinação de um objeto específico, colaboraram para a recepção e a interpretação   de três textos fundadores: a Philosophia   prima de Avicena  , a Metafísica de Aristóteles  , o Grande Comentário de Averróis   sobre a Metafísica. O problema da delimitação da essência   da metafísica como tal, entendida como "teiologia" (Heidegger  ) isto é, como a entre-implicação originária de uma ontologia e de uma teologia, solicitando a formulação de um conceito geral do ser em termos de univocidade ou de analogia  , supõe a utilização da integridade do corpus   metafísico grego-árabe. Assim, a história da metafísica medieval se distribui, pelo menos, em duas fases: uma fase "greco-latina", e outra "aristotélica", ou mais exatamente "peripatética". Em fins do século XIII e no século XIV aparece uma corrente neoplatonizante que subordina a metafísica à henologia.

A metafísica como ciência das "realidades separadas da matéria" — O ensino universitário dos ano 1240-1260 propõe uma síntese original das diferentes concepções árabes do objeto de estudo da metafísica. Nessa perspectiva, diz-se que a filosofia primeira, teologia ou ciência divina, "se refere às coisas que não são combinadas com a matéria e com o movimento  ", ou melhor, às "realidades incorporais separadas da matéria". Essa caracterização, que parece decidir a favor da concepção averroísta da filosofia primeira como ousiologia, é, de fato, o desenvolvimento englobante de uma teoria   inicialmente atestada em al-Fãrãbí.

O Guia   do Estudante parisiense (Barcelone, Ripoll 109, f. 134 ra) define a metafísica no interior da "ciência das coisas naturais" (por oposição à simples ciência dos signos, oferecida pelas artes da linguagem) como "ciência das coisas absolutamente   separadas do movimento e da matéria segundo o ser e a definição". Se a distinção entre scientia de rebus e scientia de signis é latina e herdada de Pedro   Lombardo (Sent., I, d. 1, c. 1) — Alberto a retomará sob o título de Philosophia Realis —, a definição das realidades separadas é tirada de uma passagem da Philosophia prima de Avicena (I, 1) consagrada à divisão   das ciências teoréticas (segundo Aristóteles, Metaf, VL 1), anterior   à discussão sobre a possibilidade de tomar Deus   como objeto de estudo da filosofia primeira. A mesma definição da metafísica figura na Divisio scientiarum de Arnoul de Provença, na Philosophia de Aubry   de Reims, e no De ortu scientiarum (c. 5, 15), redigido por volta de 1246-1247, por Robert Kilwardby ao fim de seu magistério parisiense. A expressão   res vere a matéria separatae designa o universo das Inteligências e dos Intelectos — entre os quais o Intelecto   divino  . O objeto de estudo da teologia é assim o conjunto   do cosmo noético, e visa as realidades simultaneamente inteligíveis e inteligentes, que, como tais, estão acima do ser das realidades corporais. Essa definição é mais farabiana que aviceniana. Dão testemunho dela, principalmente, as Quaestiones supra Libros IV physicorum de Roger Bacon, compostas em Paris nos anos 1245, que distinguem realidades abstratas e realidades separadas. As realidades abstratas são as formas inteligíveis tiradas da matéria por abstração  , em resumo, os objetos do intelecto em ato (inlelectus in effectu); as realidades separadas são as realidades divinas que, por si, não estão, não estiveram e nunca estarão em nenhuma matéria, ou, em outras palavras os objetos do intelecto adquirido (intellectus adeptus). Essa distinção, tirada do De intellectu et intellecto de al-Farabi, faz da metafísica uma ciência intuitiva, coroando o conhecimento abstrativo, que. dada a atualização   do sujeito cognoscente no inteligível que ele conhece, preparou-o para receber   as "formas puras" das Inteligências separadas, e para adquirir assim a sua mais alta perfeição inteligível, geradora de felicidade  . A fusão, do pensamento avice-niano no tema farabiano do conhecimento intuitivo das realidades divinas, operada pelos mestres parisienses dos anos 1250, é a substância daquilo que o "aristotelismo radical" dos anos 1260 desenvolverá.

A concepção "nominalista" da metafísica — Ainda que Guilherme de Ockham não tenha deixado comentários sobre a Metafísica, há uma concepção "ockhamista" da metafísica, que se pode reconstruir a partir dos elementos   de ontologia que ele expõe em seus escritos teológicos (comentário sobre as Sentenças, Quodlibeta), lógicos e físicos. O problema do sujeito da metafísica toma ali uma dimensão nova, na medida em que a "abordagem proposicional" das questões científicas e epistemológicas, típica da prática nominalista, lhe permite distinguir   o "sujeito" e o "objeto" da filosofia primeira.

Segundo Ockham, o objeto (obiectum) da metafísica como ciência é qualquer uma das proposições que nela são demonstradas; seu sujeito (subiectum), o sujeito de cada uma dessas proposições. Como ciência, a metafísica tem, pois, tantos sujeitos quantas "conclusões": quot sunt subiecta conclusionum, tot sunt subiecta scientiarum (In I Sent., Prol., q.9). Mesmo se Deus, em razão de sua perfeição supereminente, ou o ente  , em razão de sua extensão   epistemológica, estão, de direito, entre os principais sujeitos da metafísica não há sujeito metafísico por si unificador ou hegemônico. Existe, entretanto, um conceito de ente que permite fundar metafisicamente o conhecimento de Deus pelo homem   (pro statu isto): esse conceito é o "conceito unívoco do ente", herdado de Duns Scot   (Report., III, q.9). Todavia, o termo "ente" tem dois   sentidos: o conceito unívoco ao Primeiro Ente e aos outros entes sendo comum às res pertencentes às dez   categorias, o termo "ente" é, num primeiro sentido, predicado de todas as coisas in quid  , à maneira pela qual um transcendental pode ser predicado in quid: Pois de todo ente ou de todo pronome demonstrativo que indique um ente, pode-se predicar, na verdade  , o mesmo conceito mental [de ente], do mesmo modo que a palavra [ente] pode ser predicado, em verdade, de tudo e de qualquer coisa"; mas, num segundo sentido, o termo "ente" é equívoco, pois não sendo nem gênero   nem espécie, não pode ser predicado, segundo o mesmo conceito, de todas as próprias categorias nem de todos os predicáveis (Summa Logicae, I, 38; Expositio In libr. Porphyrii de Praedicabilibus, 3, 10).

A concepção ockhamista do sujeito da metafísica não se distingue, pois, aparentemente, da concepção scotista — Ockam até remete explicitamente à argumentação de concepto dúbio et certo (Report., III, q. 9; Summa logicae, I, 38) introduzida por Duns Scot (Ordinatio I, 3, 27-34; Lectura, I, 3., 21-23; Report. Paris., I, 3, 4); scotismo e ockhamismo se opõem no terreno da ontologia.

As Questões sobre a metafísica de Jean Buridan propõem uma exposição completa da concepção nominalista da essência da metafísica. Ao mesmo tempo  , elas refletem precisamente os hábitos de leitura da Universidade parisiense do século XIV: o comentário não vai além do livro XII, consagra uma única questão ao livro VIII, deixa de lado o livro III (textus non legitur) e o livro XI (= K), "que é apenas uma recapitulação do que é dito em outro lugar, razão pela qual não é útil   propor questões a seu respeito" (In Metaph., X, q. 6).

O plano das questões é mais ou menos imutável  : enunciado do problema, seguido de um quod non, ao qual se opõe Aristóteles (oppositum dixit Aristóteles), depois resposta   de Buridan (ad ratianes), abrindo, se for o caso, um conjunto de "conclusões". Como em Ockham, o nominalismo metafísico se apresenta como uma sutil reformulação das teses de Avicena, nos moldes da "abordagem proposicional". A questão 4 do livro II (Utrum ad metaphysicam pertineat demonstrare Deum esse) sustenta que, contrariamente às alegações do "Comentarista", não cabe ao "físico", mas apenas ao "metafísico" "demonstrar   a existência de Deus": com afeito, mesmo se, "segundo a verdade da coisa", o Primeiro Motor é Deus, a física não pode demonstrar a "verdade da proposição" o Primeiro Motor é Deus; a questão 4 (Utrum metaphysicae sit assignandum unum subiectun proprium adequatum) e a questão 5 (Utrum metaphysicae proprium sibiectum sit ens) do livro IV mostram que o sujeito próprio   e adequado da metafísica é um termo mental, pois o termo de "ente" existe em diferentes espíritos — o que implica a pluralidade numérica das metafísicas "mentais" —, e não; apesar do título de Scientia divina dado à metafísica, o próprio Deus, que é apenas um dos significados, é verdade que o mais eminente (principalissimum), do nome "ente".

A unidade   da ciência metafísica, aparentemente comprometida no ockhamismo pela pluralidade dos sujeitos decorrentes da multiplicidade das conclusões efetivas, é, em conformidade com uma tendência de fundo do nominalismo, assegurada por um recurso explícito à analogia de atribuição  : tudo o que é considerado em uma ciência o é "segundo a atribuição a um sujeito único", seja a título de parte, seja a título de paixão. Pode-se indagar se esse uso da analogia significa uma ruptura em relação ao avicenismo ou um corretivo epistemológico da tese da univocidade do conceito de ente.