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Burkert Morte

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Excerto   do capítulo Necessidades pessoais na Vida Terrena e após a Morte (sem as diversas notas)

O medo da morte é um fato da vida. «À medida que a pessoa   se aproxima da expectativa   da morte», escreveu Platão, «aparecem o medo e a preocupação com coisas em que não se pensava antes»; assim, algumas pessoas, como diz Plutarco  , pensam que algum tipo de iniciação   e purificação há de ajudar: uma vez purificadas, elas acreditam que continuarão brincando e dançando no Hades   em locais cheios de brilho, luz e ar puro. Desse modo, os mistérios respondiam a necessidades práticas, mesmo em suas promessas de uma vida após a morte. Cabe-nos indagar o que realmente constituía a unidade   intrínseca dessas duas dimensões dos mistérios - de um lado, as imunizações e curas reais, e de outro lado as garantias imaginárias da bem-aventurança   após a morte. Não basta invocar os múltiplos níveis de significado num tipo de simbolismo, como por exemplo o ciclo   natural da semeadura, do crescimento e da colheita, ou a transformação   da uva em vinho  ; a fé utiliza o simbolismo, mas dificilmente brota dele. É tentador imaginar que todas as iniciações tenham como idéia central a morte e a ressurreição  , de modo que o aniquilamento e a salvação   seriam antecipados no ritual, e a morte real se tornaria uma repetição de importância secundária; mas as indicações de um simbolismo pagão da ressurreição são, na melhor das hipóteses, inconvincentes. De maneira mais geral, a iniciação é uma mudança   de condição, e pareceria natural que isso se refletisse numa condição melhor após a morte. Todavia, tal mudança de condição não é minimamente visível   nos mistérios antigos, e portanto torna-se difícil entender como os privilégios de uma vida no além poderiam ser uma projeção   sua.

Talvez haja uma outra resposta   presente   nas curas práticas. Os «sofrimentos manifestos», para empregar as palavras de Platão, são remontados a algum «antigo motivo de ira  », menima: algum fato terrível do passado despertou forças destrutivas ainda atuantes; os espíritos dos antepassados, vítimas assassinadas ou alguém que não teve um sepultamento adequado estão atormentando os vivos. Esse tipo de explicação para as doenças ou crises é extremamente corrente em várias civilizações, inclusive o Oriente Próximo e a Grécia arcaica. A cura  , portanto, consiste em aplacar a fúria e a inveja   dos mortos: fazendo com que eles se sintam alegres e felizes, hileoi, o paciente real também se sentirá melhor. Tais são, pois, as «purificações por meio de festas alegres», que são boas «tanto para os vivos quanto para os que morreram», como descreveu - e denunciou - Platão. Há essa relação mútua porque as perturbações no além são sentidas de maneira muito dolorosa nesta vida; por isso o ritual, que tem como efeito eliminar a dor   e o pesar e instaurar um estado   «bem-aventurado», traz repercussões imediatas para o outro lado. Por essa razão  , imagina-se que os mortos participam da festa dos mistérios, continuam como jubilosos teletai mesmo no mundo subterrâneo; inversamente, «coisas terríveis aguardam» os que não realizam os sacrifícios. Essa ameaça já se encontra no Hino a Demeter  , com a garantia de que Persephone libertará os que lhe prestam honras através dos rituais.

Este conceito parece apontar a «magia  » como uma das principais raízes dos mistérios. Mas mesmo a magia tem seu lugar, função e significado dentro de um complexo   cosmo social. Ela pode ter efeitos psico-terapêuticos que não são negligenciáveis; faz sentido para os que a utilizam. Talvez seja mais atraente, do ponto de vista de um teórico moderno, considerar os mistérios derivados de iniciações tribais. Mesmo estas, porém, em seus supostos contextos pré-históricos, podiam perfeitamente estar relacionadas com os mortos e sua respectiva «magia».

Nos documentos dos chamados cultos orientais, a dimensão de uma vida no além é muito menos evidente  . A forma helenizada do culto a Meter (vide Cybele) fundiu-se parcialmente com Dionysus   num período muito precoce, e assim o tímbale de Meter foi introduzido em todas as formas de culto e imagens báquicas. Mas a forma pessinunciano-romana do culto, com os galloi e a elaborada festa anual que conhecemos a partir das fontes tardias, pelo visto se preocupava muito mais em evitar as catástrofes da vida terrena do que com a sobrevivência do indivíduo após a morte. Há apenas uma observação   em Agostinho de que a castração dos galloi visava à futura bem-aventurança, utpost mortem vivat beate - mas e os outros devotos, mais normais? Existem alguns casos de enterros coletivos para os adoradores da Magna Mater, mas esta não é absolutamente a regra  ; encontram-se também enterros particulares inclusive de archigalloi. Alguns altares e sarcófagos são adornados com uma figura que se chama «Atis enlutado», mas não há a menor clareza   se significa alguma esperança para o devoto ou se se deve entendê-la apenas como expressão   de fraqueza, morte e luto. A passagem do lamento à alegria  , a «descida» (katabasis  ) a Hilária na festa de Meter, pode significar uma libertação da morte, como entende Damascius  ; mas Damascius, nesse texto tão citado, está se referindo a um risco real, a uma perigosa visita de alguns neoplatônicos atenienses à fenda vulcânica em Hierápolis, e aos sonhos que tiveram a seguir. Seria incorreto inverter a situação  , converter o sinal (o sonho   da festa) em objeto e transformar o fato real no significado do sonho, como fez Franz Cumont  . Uma inscrição taurobólica famosa, muitas vezes citada, é a dedicatória de Edésio, dizendo que ele foi in aeternum renatus. Essa inscrição foi feita em 376 d.C, duas gerações depois da vitória do cristianismo e meia geração depois de Juliano, em meio a uma reação paga. Ela está em contradição flagrante com a profusa documentação anterior  , que indica que o taurobóleo guarda sua eficácia por não mais de vinte anos; a explicação mais plausível é que essa dedicatória se inspira nas famosas declarações cristãs e tenta derrotar o adversário pela imitação  .

O culto de Osíris no Egito   está intimamente ligado ao culto dos mortos. A fórmula «Possa Osíris lhe dar a água fresca» se desenvolveu no Egito, mas também ocorre em outros locais, notadamente em Roma. Temos notícias de «enterros à maneira de Osíris» mesmo no mundo greco-romano. A mumificação, porém, quase não era praticada fora do Egito. Existe um grande número   de monumentos funerários de adoradores dos deuses egípcios; há as insígnia do culto, o sistro, a pátera, a embarcação, e as inscrições mencionando o grau dos sacerdotes   e sacerdotisas, que no entanto parecem desempenhar uma função basicamente comemorativa, sem tanto indicar o futuro ou alguma mensagem especial sobre uma vida no além. Um sarcófago em Ravena, com pinturas e inscrições incomuns, tem sido interpretado como expressão de esperanças «místicas» específicas, mas o texto fragmentário e as imagens dão espaço a muitas especulações. Mais explícito é um epitáfio de Bithynia, descoberto recentemente; ali, um sacerdote de Ísis declara que, devido aos ritos secretos que realizou durante a vida, ele segue não para o sombrio Aqueronte, mas para o «porto dos bem-aventurados», e invoca o testemunho dos Isiakoi em favor de sua reputação. Este epitáfio, todavia, guarda consonância com o estilo dos epigramas   fúnebres gregos. Os meninos que tinham uma morte prematura eram iconograficamente identificados com Horos  , através dos característicos cabelos cacheados. Não há nada que indique que esse simbolismo derivava do ritual; esse tipo de endeusamento figurativo também ocorria com outros deuses, inclusive Dionysus.

A própria Ísis, em sua revelação a Lúcio-Apuleio   (vide Apuleius), é menos explícita do que algumas paráfrases suas. «E quando chegares ao término de tua vida e desceres às regiões ínferas», teria ela dito, «tu me encontrarás na câmara subterrânea, brilhando nas trevas de Aqueronte e reinando nas recônditas paragens do Estige, enquanto tu que me vês estarás habitando os campos elíseos, e irás me adorar muitas vezes, pois sou   propícia a ti.» Compare-se a seguinte maldição contra um violador de sepulturas: «Os ritos sagrados de Ísis, que significam a paz   para os mortos, se voltarão em fúria contra ele». É um retomo aos sortilégios práticos em prol do repouso dos mortos. Com Aqueronte e os Elíseos, Ísis é levada a adotar a mitologia grega normal; está de acordo com as esperanças dos mystai eleusinos e dionisíacos, tal como se vêem a partir do século V. A identificação de Ísis com a lua   e Perséfone - e também com Deméter - faz com que ela brilhe e ao mesmo tempo reine no mundo dos mortos. A tônica principal, de todo modo, recai sobre seus poderes neste cosmo, alterando os destinos aqui e agora, em favor de seu protegido, mas não se pode esquecer a verdade que vale mesmo para o devoto de Ísis: «Da natureza, o homem   recebeu a morte como quinhão comum».