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Utopia

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Utopia e Novo Mundo
Akasha Grant e Murilo Cardoso de Castro  

O Ocidente empreendeu, não apenas a descoberta de um Novo Mundo, mas um retorno às suas origens além das águas primordiais do oceano. Desde a Idade Média viajantes tinham recolhido e reproduzido os ecos de um reino fabuloso se estendendo do Oceano ao Nilo: o reino do Preste João onde viviam os primeiros cristãos salvos do pecado   original, herdeiros da Promessa Divina.

Segundo outras tradições, os Reis magos tinham sido recompensados por sua fidelidade em Belém com reinos que se estendiam às fronteiras do Paraíso   terrestre: Melquior com a Pérsia, Gaspar com a Etiópia, Baltazar com a Arábia.

Na década   de 1480, o rei de Portugal enviou expedições à África, com emissários à busca do Reino do Preste João. Esta peregrinação às origens do Ocidente, às fontes do Tigre e do Eufrates, tinha também uma meta muito concreta: descobrir novos cristãos com os quais fosse possível estabelecer um bom comércio e se formalizar acordos contra os muçulmanos.

Foi neste contexto ideológico que chegando às margens do Novo Mundo, Cristóvão Colombo tinha a certeza de estar alcançando a Terra   prometida do Antigo Testamento  , não longe do Paraíso terrestre. Tão grande era sua convicção da empreitada que iria realizar, que ele havia até escolhido para acompanhá-lo, Rodrigo de Jerez, um judeu convertido que conhecia muito bem o hebreu e o aramaico, línguas que certamente deveriam se faladas pelos habitantes da Terra prometida, do Éden reencontrado.

O navegador “estava convencido que a profecia   concernente à difusão do Evangelho sobre toda terra deveria ser realizada antes do fim do mundo.” Ora, para ele isto não estava longe de acontecer. Em seu Livro das Profecias, Colombo afirmava que este evento seria precedido pela conquista do Novo Continente, pela conversão dos pagãos e pela destruição do Anticristo. Assim sendo, a exploração geográfica se situa claramente no prolongamento de uma apocalipse - tradição   apocalíptica, que fará do Novo Mundo a Terra Prometida pelas profecias .

A razão   pela qual a fascinação obstinada por uma rota ocidental na direção   das Índias, deve estar relacionada à uma geografia simbólica originada da mesma tradição. Mircea Eliade  , mostrou muito bem como a era dos grandes descobrimentos foi caracterizada também pelo retorno de um simbolismo solar, por intermédio do hermetismo, transmitido ao humanismo por Marsílio Ficino  , entre outros, e veiculado, ampliado pelo heliocentrismo de Copérnico e Galileu  .

Este simbolismo solar relaciona portanto intimamente nos espíritos cultos da época a busca de Deus  , o futuro   de sua Igreja  , à orientação ocidental. A viajem para o sol   poente se torna então a via iniciática de realização   da profecia.

Suas primeiras cartas descrevem em tom idílico a bondade natural, infantil dos habitantes deste paraíso. Eles são pacíficos, hospitaleiros, confiantes, uma vez acalmados seus medos   pueris. Como eles ignoram a cobiça e a propriedade privada, sua sociedade não têm nenhum sistema econômico. A igualdade absoluta reina, os bens que eles possuem em comum são suficientes às necessidades de todos.

Mais tarde, este tema vai dar origem   ao mito   do “bom selvagem”, pois a beleza física dos índios deveria estar acompanhada de uma natureza nobre: uma espécie de pureza   primitiva próxima da inocência infantil. Como no lembra Mircea Eliade (1957), citando um etnólogo italiano, G. Cocchiara, “antes de ser descoberto o selvagem foi inventado”.

Com efeito, o renascença - imaginário renascentista inventou um tipo de “bom selvagem” na medida de suas novas preocupações morais, políticas e sociais. No contato com civilizações tradicionais, ou melhor, no relato dos navegadores sobre estes contatos se basearam diferentes especulações filosóficas sobre a descoberta do Outro, do Novo, do Maravilhoso. Ideólogos e utopistas se encantaram com os “selvagens”, com seu comportamento   familiar, social e econômico.

Entretanto, essa “invenção do selvagem”, na aurora   da Modernidade, já sinalizava a revalorização, desta feita secularizada, de um mito muito mais antigo: o mito do Paraíso terrestre e de seus habitantes nos tempos fabulosos que precederam a História. Segundo Mircea Eliade deveríamos falar de uma “recordação mitificada” de uma imagem exemplar   do homem  , em lugar de uma “invenção do selvagem”.

O “bom selvagem” guardava uma semelhança   com certos modelos da Antiguidade   clássica, assim como com personagens da Bíblia. A imagem mítica do “bom selvagem”, do “homem natural”, mais além da história e da civilização, renovada nos relatos dos viajantes e na prosa dos pensadores renascentistas, relançou o mito da “Idade de Ouro  ”. Ou seja, em meio a ambiguidade   de uma época que mirava o passado   para se lançar para um futuro “melhor”, o mito do “bom selvagem” pregava a perfeição dos primórdios da humanidade. Perfeição que teria sido perdida, segundo os ideólogos renascentistas, por uma falha da civilização ocidental.

Por outro lado os selvagens também tinham consciência   da perda de um Paraíso primordial. Poderia se dizer que os selvagens não se consideravam diferentes dos ocidentais cristãos na medida que também se sentiam distantes de uma situação   anterior   fabulosamente feliz. Os mitos do Paraíso diferem sem dúvida de uma cultura para outra, segundo Eliade mas alguns traços comuns reaparecem, em particular uma certa nostalgia das origens.

Para explicar a novidade, o inteiramente Outro do Novo Mundo, os descobridores, os cronistas começaram por assimilá-lo à noções pseudo-científicas ou míticas do próprio   passado do Ocidente. O que se vislumbrava no Novo Mundo seria assim aquilo de mais antigo e remoto da consciência histórica da Humanidade: o paraíso terrestre da Gênesis, a Idade de Ouro dos mitos clássicos, as tribos perdidas de Israel  , até mesmo a bucólica Arcádia Clássica reelaborada no Renascimento.

O Novo da América era, segundo Fernando Ainsa (1992), o original (relativo às origens) do Velho Mundo: um tempo de harmonia   e felicidade  , recordado com nostalgia. O Ocidente não descobria uma nova realidade  , mas retornava, pelo próprio Ocidente, às suas “origens orientais”. Essa transposição da cosmogonia europeia ao território americano resultou não somente da necessidade   de enquadrar a “alteridade  ” do Novo Mundo, mas também da carga simbólica dos mitos e profecias que haviam acompanhado o olhar do homem ocidental diante da Terra Incógnita.