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Lewis Simbolismo

segunda-feira 28 de março de 2022

    

SIMBOLISMO LITERÁRIO
O simbolismo também me capacitou a descartar-me da fantasia   absurda de se admitir que os diabos estão empenhados na busca desinteressada de algo a que se dá o nome de Mal (â maiúscula é essencial). O simbolismo aqui dotado não teria o que fazer, absolutamente  , com tais espíritos diabólicos assim desfigurados. Os maus anjos  , à semelhança   dos homens maus, são dotados de espírito   eminentemente prático. Têm dois   motivos para isso. O primeiro deles é o medo da punição; como os países totalitários têm seus campos de concentração, da mesma forma o meu inferno contém infernos mais profundos, que funcionam como "casas correcionais". O segundo motivo vem a ser certa espécie de fome. Imagino que os diabos podem, no sentido espiritual, devorar-se uns aos outros e a nós   também. Mesmo na esfera   da vida humana, temos visto a paixão dominar, quase devorar mesmo, um ao outro; fazendo com que toda a vida intelectual e emocional do outro nada mais seja do que uma simples extensão   de sua própria paixão — o indivíduo   passa a odiar  , então, aos próprios ódios  , a ressentir-se dos próprios agravos c a ceder, sem freios, às impulsões do egoísmo através   de outro tanto como por si mesmo  . Seu próprio   depósito pequeno de paixão precisa ser supresso para ceder lugar ao nosso. Se ele resistir a esta supressão, está sendo muito egoísta.

Na terra   este desejo é por vezes chamado "amor". Imagino que no inferno seja identificado como fome. Lá, porém, a fome é mais voraz   e é mais viável uma satisfação plena. Imagino que lá o espírito   mais forte   — não havendo corpos que o impeçam — pode real   e irrevogavelmente absorver o mais fraco, refestelando-se, assim, de modo permanente na individualidade ultrajada do mais débil. Esta é a razão   (suponho) pela qual os diabos desejam conquistar as almas humanas, bem como as almas uns dos outros. Também é por esta razão que Satan  ás anseia por todos os seus seguidores e por todos os filhos de Eva   e mesmo por todos os exércitos do céu. O sonho   que ele acalenta é o do dia quando tudo esteja em seu interior  , de modo que qualquer que venha a dizer "EU", tão somente o possa dizer através dele. Esta, assim o creio, é a paródia da aranha inchada, a única imitação   que lhe é possível ocorrer daquela bondade incomensurável segundo a qual Deus torna instrumentos em servos e servos em filhos, de modo que estes finalmente possam ser reunidos a Ele, destratando da mais perfeita liberdade do amor que lhes é outorgado, sem que sejam destituídos dos alcandores da individualidade para a qual foram redimidos.

Entretanto, como acontece com um dos contos de Grimm  , estas coisas são apenas criações de mito   e símbolo. É a razão pela qual a pergunta a respeito de minha própria opinião   sobre os diabos, posto que merecendo resposta   plausível quando foi suscitada, torna-se de mínima relevância para o leitor destas Cartas. Para os que participam desta opinião, meus diabos serão meros símbolos de uma realidade concreta; para outros, eles não passarão de personificações e abstrações, de forma que o livro será uma alegoria  . Fará pouca diferença  , porém, o modo pelo qual você o leia, pois com efeito, o propósito do livro não é fazer especulações em torno da vida diabólica, mas sim lançar luz, partindo de um novo ângulo, sobre a vida dos homens.

Disseram-me que não sou   o primeiro neste campo   e que alguém, no século XVIII, escreveu cartas atribuindo-as ao diabo  . Não tive ensejo de ver o referido livro. Creio que visava, principalmente, a um objetivo político. Não obstante, tenho satisfação de reconhecer   o débito contraído relativamente às Confissões de uma mulher   bem intencionada, de autoria de McKenna. Os pontos de contato podem não estar muito claros, mas o leitor verificará ali a mesma inversão moral — os pretos ficam todos brancos e os brancos todos pretos — e o humor que decorre do falar mediante uma pessoa   totalmente destituída de humor. Suponho que minha idéia relativa ao canibalismo espiritual, com toda a probabilidade deve alguma coisa às cenas horrendas de "absorção" que se encontram descritas nas esquecidas Viagens para Arcturus, de autoria de David_Lindsay.

Os nomes que atribuo aos diabos têm suscitado muita curiosidade e apareceram muitas explicações para eles, todas errôneas. A verdade   é que eu tão somente pretendi tomá-los horripilantes — no que, também, talvez tenha alguma dívida para com Lindsay — através do som  . Uma vez inventado um determinado nome, eu podia fazer especulações como qualquer outro (e sem nenhuma autoridade   mais do que a de qualquer outro) quanto às associações fonéticas que resultassem no referido efeito desagradável.

Frequentemente recebi solicitações e sugestões para fazer acréscimos às Cartas mas, por muitos anos, não experimentei a menor inclinação   neste sentido. Embora jamais tivesse escrito alguma coisa de modo mais fácil, nunca escrevi com menos prazer. A facilidade provinha, sem dúvida, do fato de que o expediente que consiste em escrever   cartas atribuindo-as ao diabo, uma vez que se tenha atinado com o método, fornece espontaneamente os assuntos, como no caso dos gigantes e dos liliputianos de Swift, da filosofia médica e ética de Erewhon, ou ainda, o caso da Pedra Ganida, de F  ._Anstey. Os assuntos se sucedem suficientemente para que se escreva um milheiro de páginas, uma vez que se fique à mercê da inspiração  . Entretanto, embora seja fácil conseguir-se que a mente   penetre na urdidura diabólica, isso não proporciona prazer, ou pelo menos não por muito tempo  . O esforço acarretaria uma espécie de estafa espiritual. O mundo no qual eu tinha que me projetar enquanto representava Morcegão era todo pó, areia, sede e cócegas. Todos os vestígios de beleza, frescura e genialidade tinham que ser excluídos. Quase fiquei sufocado antes de chegar ao fim. Por sua vez, os leitores ficariam sufocados caso eu tivesse prolongado tal esforço.

Além disso, fiquei algo aflito com meu livro por não ser ele uma obra de tal originalidade que ninguém pudesse escrever igual. Idealmente, a orientação prestada por Morcegão a Cupim deveria ser contrabalançada pelo conselho dum arcanjo prestado a um anjo protetor do paciente. Sem isto, o quadro da vida humana parece estar inclinado. Entretanto, quem seria capaz de suprir essa deficiência  ? Mesmo que alguma pessoa — que teria de ser muito melhor do que eu — chegasse a escalar as altitudes espirituais requeridas, qual haveria de ser o "estilo pertinente" que teria de empregar? Porque o estilo teria de participar efetivamente da sublimidade do assunto. Não bastaria o simples ministério de conselhos; cada sentença teria que transcender a aroma celestial. E atualmente, mesmo que se pudesse escrever em prosa igual à de Thomas_Traherne, não se lhe permitiria fazê-lo, uma vez que os ditames do "funcionalismo" tem inabilitado a literatura relativamente à metade das funções que lhe são inerentes. (No fundo, todo ideal estilístico não só cita normas quanto à maneira como as coisas devem ser ditas, mas também relativamente às próprias coisas que se nos permite dizer).

Então, à medida em que os anos decorriam e a experiência sufocante acarretada pela confecção das Cartas se enfraqueceu na memória, começaram a ocorrer-me algumas reflexões sobre pontos aqui e ali que demandavam a intervenção dum Morcegão. Estava resolvido a não escrever nenhuma outra Carta. Surgiu-me vagamente a ideia de algo como uma preleção ou como um "estudo" — ideia ora esquecida, ora relembrada, mas que nunca chegava a ser escrita. Se não quando, eis que me chegou às mãos um convite do Saturday Evening Post que me fez pôr   mãos à obra.

MAGDALENE COLLEGE, CAMBRIDGE
18 de maio de 1960
C. S. LEWIS