Página inicial > Imaginal > Frithjof Schuon > Schuon: Islame

Comprendre l’Islam

Schuon: Islame

Capítulo I

segunda-feira 8 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Frithjof Schuon  : Schuon Islã - COMPREENDER O ISLÃ. Tradução de Arminda Eugenia Campos e Roberto Bartholo Jr. do livro de Frithjof Schuon, «Comprendre l’Islam»

    

O Islã é o encontro de Deus   como tal e o homem   como tal.

Deus como tal: isto significa dizer Deus concebido, não como manifestou-Se de forma particular numa época particular, mas sim independentemente da história, tendo em vista que Ele é o que é, e que, por Sua natureza, cria e revela.

O homem como tal: o homem tomado, não como ser decaído que precise de um milagre   para ser salvo, mas como ser teomórfico, dotado de uma inteligência   capaz de fazer ideia do Absoluto, e de uma vontade capaz de escolher aquilo que conduz ao Absoluto.

Dizer «Deus» é dizer também «ser», «criar», «revelar»; é dizer, em outras palavras, «Realidade», «Manifestação  », «Reintegração». Dizer «homem» é dizer «teomorfismo», «inteligência transcendente» e «livre-arbítrio  ». São essas, no entendimento do autor, as premissas da perspectiva islâmica, que explicam todas as suas aplicações e não podem nunca ser perdidas de vista por todo aquele que quiser entender qualquer aspecto particular do Islã.

Assim, o homem aparece a priori   como um receptáculo dual, destinado ao Absoluto. E o Islã vem para preencher duplamente esse receptáculo: em primeiro lugar, com a verdade do Absoluto, em segundo lugar, com a lei do Absoluto. O Islã é, portanto, em essência  , uma verdade e uma lei — ou, a Verdade e a Lei —, a primeira correspondendo à inteligência e a segunda correspondendo à vontade. É dessa forma que o Islã parte para abolir tanto a incerteza quanto a hesitação e, a fortiori, tanto o erro   quanto o pecado  . O erro   de considerar que o Absoluto   não é, ou que é relativo, ou que há dois   Absolutos, ou que o relativo é absoluto; sendo esses erros levados ao nível da vontade, ou da ação, pelo pecado. Essas duas doutrinas do absoluto e do homem se encontram, respectivamente, nas duas «profissões» da fé islâmica, a primeira (la ilaha ill Allah) em relação a Deus e a segunda (Muhammadun Rasul   Allah) em relação ao Profeta  .

A ideia de predestinação, tão fortemente acentuada no Islã, não elimina a ideia de liberdade. O homem está sujeito   à predestinação porque não é Deus, mas é livre porque é «feito à imagem de Deus». Somente Deus é liberdade absoluta, mas a liberdade humana, apesar de sua relatividade — no sentido em que é «relativamente absoluta» —, não é outra coisa que não liberdade, assim como uma luz fraca não é nada senão luz. Negar a predestinação equivaleria a pretender que Deus não sabe dos acontecimentos «com antecedência» e não é onisciente  : quod absit.

Resumindo: o Islã confronta o que é imutável   em Deus com o que é permanente no homem. Para o Cristianismo «exotérico» o homem é uma vontade a priori, ou mais exatamente, é vontade corrompida. É claro que a inteligência não é negada, mas é levada em consideração   apenas como um aspecto da vontade. O homem é vontade, e no homem a vontade é inteligente. Quando a vontade está corrompida também o está a inteligência, no sentido de que não poderia de forma alguma corrigir a vontade. Logo, uma intervenção divina é necessária: o sacramento. No caso do Islã, em que o homem é considerado como inteligência e a inteligência vem «antes» da vontade, é o conteúdo da inteligência que tem eficácia sacramentai. Todo aquele que aceita que só o Absoluto Transcendente é absoluto e transcendente, e extrai daí suas consequências para a vontade, é salvo. A Profissão de Fé — shahadah — determina a inteligência e a Lei Islâmica — shariah — determina a vontade. Para o esoterismo   islâmico - tariqah - há graças iniciáticas que funcionam como chaves e sublinham nossa «natureza supranatural». Novamente, nossa salvação  , sua textura e desenvolvimento, são prefigurados por nosso teomorfismo: como somos inteligência transcendente e livre-arbítrio, é essa inteligência e esse arbítrio, ou é a transcendência e a liberdade, que nos salvarão. Deus não faz mais que preencher os receptáculos que o homem tinha esvaziado mas não destruído; destruí-los não está no âmbito do poder do homem.

Da mesma forma, só o homem tem o dom da linguagem, porque só ele entre todas as criaturas da Terra   é «feito à imagem de Deus» de uma forma direta e integral. Ora, se é esse teomorfismo que, graças a um impulso divino, ocasiona a salvação ou redenção, a linguagem tem um papel a desempenhar, assim como a inteligência e a vontade. Estas últimas são na verdade efetivadas pela prece  , que é linguagem tanto divina como humana; o ato relacionando-se com a vontade e seu conteúdo com a inteligência. A linguagem é como que o corpo imaterial, ainda que sensório, de nossa vontade e do nosso entendimento; mas a linguagem não é necessariamente só o exteriorizado, já que o pensamento articulado também envolve linguagem. No Islã não existe nada mais importante que as preces canônicas (salat), dirigidas à Caaba  , e a «re-lembrança de Deus», em Sua invocação (dhikr Allah), dirigida ao coração  ; a palavra do sufi é repetida na prece universal   da humanidade e até mesmo na prece, frequentemente muda, de todos os seres.

O que constitui a originalidade do Islã não é a descoberta da função redentora da inteligência, da vontade e da linguagem — essa função é evidente e conhecida por toda religião — mas ter feito dela, dentro da estrutura   do monoteísmo   semita, o ponto de partida de uma perspectiva de salvação e libertação. A inteligência é identificada com seu conteúdo que traz salvação, não é senão o conhecimento da Unidade  , ou do Absoluto, e da dependência de todas as coisas em relação a ele. Da mesma forma, a vontade é al-islãm, ou seja, submissão ao que é desejado por Deus, ou Absoluto, não só em relação a nossa existência terrena e nossa possibilidade espiritual, como também em relação tanto ao homem individual, como ao coletivo. A linguagem é comunicação com Deus e é, essencialmente, oração e invocação. Visto desse ângulo, o Islã recorda ao homem não tanto o que ele deveria saber, fazer e dizer, mas o que são, por definição, a inteligência, a vontade e a linguagem. A Revelação não acrescenta novos elementos  , mas desvela a natureza fundamental do receptáculo.

Isso também poderia ser expresso da seguinte forma: se o homem, tendo sido feito à imagem de Deus, se distingue das outras criaturas por possuir inteligência transcendente, livre-arbítrio e o dom da linguagem, então o Islã é a religião da certeza, do equilíbrio e da oração, considerando em sua ordem   as três faculdades   deiformes. Encontramos então a tríade tradicional do Islã: al-imam (a «Fé»), al-islam (a «Lei», literalmente, «submissão») e al-ihsan (o «Caminho  », literalmente, «virtude»). Ora, o meio essencial deste último é a «relembrança de Deus», efetuada através da linguagem, com base nos dois primeiros elementos. Do ponto de vista metafísico al-imam é a certeza do Absoluto e da dependência de todas as coisas com respeito ao Absoluto; al-islam (e o Profeta, na medida em que personifica o Islã) é um equilíbrio relativamente ao Absoluto; e, finalmente, al-ihsan conduz os dois primeiros a suas essências pelo poder mágico da palavra sagrada, visto que essa palavra é o veículo tanto da inteligência como da vontade. Assim, o papel cumprido pelos aspectos humanos do teomorfismo no que pode ser chamado de Islã fundamental e «pré-teológico» é o mais notável, na medida em que a doutrina   islâmica, que enfatiza a transcendência de Deus e a incomensurabilidade entre Ele e nós, é contrária a analogias que beneficiem o homem. Dessa maneira, o Islã está longe de confiar, explícita e ordinariamente, na qualidade   do homem de ser uma imagem divina, embora o Corão o testemunhe nessas palavras: «Quando o tiver modelado e lhe tiver insuflado parte do Meu Espírito   (min Ruhi), caí perante ele, prostrados!» (XV, 29 e XXXVIII, 72), e ainda que o antropomorfismo de Deus no Corão implique no teomorfismo do homem.


Ver online : Islame