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L’HOMME IMMORTEL

Paul Nothomb: « Le Bien et le Mal »

L’ARBRE DE L’OMNISCIENCE

domingo 24 de julho de 2022, por Cardoso de Castro

    

tradução sumária

"O Bem e o Mal", eis noções completamente   ausentes da Bíblia das Origens, e que todas as traduções aí colocam. As palavras "Bem" e "Mal" em francês designam valores — não somente morais mas ideais. O Bem é a Ideia de Platão que se confunde em seu princípio com o Belo e o Verdadeiro. Esta Ideia, para Platão, é uma realidade   eternam anterior   a toda manifestação   concreta, e superior mesmo aos deuses. Nada de tal existe, de perto ou de longe, no pensamento   bíblico.

E no entanto não se fala correntemente, em se referindo ao Jardim do Éden  , de "Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal"? Em todas nossas bíblias francesas, à exceção reticente da Tradução Ecumênica, este termo consagrado continua a figurar, como se fosse impossível substituí-lo — enquanto ele é absolutamente inexato.

O que se traduz pelo "Bem" é o adjetivo "tov" que no texto não tem artigo definido, e logo não é nem mesmo equivalente de "o bom" ou de "isto que é bom". Pois "tov" quer dizer "bom" e não "bem", como "ra’" quer dizer "maligno" e não "mal". "Bom" e "maligno" não exprimem como "bem" e "mal" juízos de valor  , juízos morais. São apreciações subjetivas de prazer ou de desprazer, de conforto ou de desconforto, de alegria   ou de sofrimento  , que refletem sensações imediatas ou lições da experiência. Vermos adiante que mesmo nos textos "legais" ou sapienciais, onde é questão de escolha   entre o "tov" e o "ra’" e notadamente na famosa injunção do Deuteronômio 30,15, este "tov" e este "ra’" permanecem coisas muito concretas posto que comparadas à "vida" e à "morte".

Mas em todo caso no relato do Jardim do Éden "tov" e "ra’", associados na expressão   "tov wara’" não querem dizer de modo algum "o Bem e o Mal", nem "a felicidade   e a infelicidade", como traduz a Tradução Ecumênica, nem mesmo "o bom e o maligno", nem mesmo "bom e mau". Trata-se de uma locução que se encontra em outros textos bíblicos e que significa "tudo" (ou precedida de uma negação, "nada"). Gn 24,50

Seguem-se inúmeras citações da Bíblia que comprovam a tradução desta expressão pela noção   de "totalidade". Insistimos e citamos numerosos exemplos, porque trata-se uma questão de fundo e não de uma disputa   pedante sobre o vocabulário. Se "tov" e "ra’" conjuntos significam, como pensamos ter provado, a totalidade e constituem gramaticalmente uma espécie de locução adverbial (que se pode traduzir "na totalidade", "em tudo", "em todo gênero  " ou "todos os azimutes") então a árvore mítica da qual nossos primeiros pais   comeram o fruto   e que precipitou sua "Queda" e sua expulsão do Éden — nossa eterna nostalgia —, esta árvore famosa, que continua a desempenhar tamanho papel em nossa cultura e nosso inconsciente, não é aquela do Conhecimento do Bem e do Mal mas aquela do Conhecimento em Tudo, ou da Totalidade — como proponho denominá-la a "Árvore da Onisciência".

Só do ponto de vista sintático, esta tradução que proponho é preferível àquela que supõe ao Bem e ao Mal um artigo definido que falta no texto, e negligencia o fato que a palavra   precedente leva um, contrariamente à regra   do "estado   construído". Em hebreu com efeito no estado construído que liga os dois   nome, cujo segundo é o complemento do primeiro, é sempre o segundo que leva o artigo definido e jamais o primeiro. Aqui a ordem é inversa. Certamente o hebreu bíblico não respeita sempre a regra do estado construído mas na ocorrência   da incorreção é repetida três vezes com insistência que deveria alertar há muito tempo   os hebraizantes sobre o bem-fundado desta tradução suspeita. Literalmente, eles sabem, deveria se traduzir: "A árvore do Conhecimento bom e mau" onde "bom" e "mau" não podem ser nem adjetivos qualificativos (não tendo em uma frase determinada artigo definido) nem complementos de nome do "conhecimento" ou da "árvore". Só podem ser oposições, o que corresponde à função de locução adverbial que lhes atribuo, na Árvore do Conhecimento "em bom e em mau" quer dizer "em tudo", ou ainda melhor, a "Árvore da Onisciência".

Desta "onisciência" há três menções no relato do Jardim do Éden. A primeira em Gn 2,9 onde é dito que Deus   fez crescer fora do pesadume no jardim, entre outras, a Árvore da Onisciência. A segunda em Gn 2,17, onde é dito que Deus prescreve ao Homem  : "Tu não comerás da Árvore da Onisciência, pois neste caso morrerás certamente". Não guardo nesta enumeração dos substantivos "onisciência" o verbo do qual se serve a serpente   em Gn 2,5 para enganar a Mulher   — palavra armadilha na qual caíram não somente Eva   e em seguida Adão, mas a maior parte dos teólogos até hoje em dia — mas aí incluo o substantivo (e não o verbo que aí se vê frequentemente) que termina a célebre reflexão emprestada a Deus em Gn 3,22 sobre a pretendida prerrogativa divina da onisciência!

Ora convém ser categórico. Na Bíblia, é só a serpente que afirma — lógica   e mentirosamente — que Deus é dotado de onisciência. A Bíblia jamais diz que Deus conhece o Bem e o Mal — nem o Bem ou o Mal sós, nem que Deus conhece ou sabe tudo. Deus não conhece qualquer abstração   (e o Bem e o Mal, como a totalidade, são abstrações, entidades, que o homem absolutiza) pois as abstração não existem na realidade. Deus conhece o coração   do homem, o coração de cada homem, Deus conhece o passado  , Deus conhece o futuro — e ainda estes conhecimentos não prevalecem contra seu todo-poder de mudar   os corações e as vidas, e de fazer mesmo que o passado cesse de ter sido, ou que o futuro seja diferente do que ele previu — se ele o quer.

Deus conhece o coração de cada homem. Mas não esqueçamos que, na fisiologia bíblica, o coração não é a sede do sentimento   (situado todavia nas entranhas, ver Sl 40,9; Jó 30,27). É a sede da vontade e em primeiro lugar da inteligência (Dt 29,3; Is 32,4; Jr 24,7; Ec 1,17; 8,16; etc.).

No primeiro relato da Criação (Gn 1,1 a 2,3), Deus pontuou as etapas da obra de sua Palavra de sete suspiros de satisfação, repetindo sete vezes: "E Deus viu que isto era bom" (da qual uma vez, depois da criação do Homem, "que isto era muito bom"). Nada há de maligno na Criação e a palavra "ra’" não aparece no primeiro relato. Assim como não aparece uma só negação (conta-se aí seis "ken" - sim - e nenhum "lo’" - não - nem nenhum "’ayin").

No segundo relato a palavra "ra’" não aparece também isolada. Ao contrário "tov" aí aparece quatro vezes isolado no sentido de "bom". Logo quando se trata de árvores do jardim "boas a comer" e em geral (2,9) e em particular (3,6). "Bom" tem aqui um sentido bastante concreto, que é reforçado pela adjunção no primeiro caso do adjetivo "nehmad", desejável, encantador, e no segundo caso não somente desta adjetivo mas de um substantivo exprimindo o desejo mais sensual, "tov" é ainda empregado para qualificar o ouro   do país de Havila (2,12) e negativamente quando Deus diz: "Não é bom que o Homem viva só" (2,18).

Quanto a "ra’" não aparece no segundo relato da Criação senão associado à "tov" e sempre na segunda posição   atrás de "tov" como sua sombra.

É o que ele é. Ele não tem conteúdo por ele mesmo. Ele não quer dizer "maligno" neste estado, Deus não tendo nada criado de maligno. Esta palavra vazia figura simplesmente o "duplo" que representa toda linguagem em relação à realidade. Linguagem da qual Deus dotou o Homem em criando-o "consciente de existir" (v. neshamah) e que é "bom" para melhor viver   esta realidade com o risco — pois ele é livre — que dela se serve para negar ou conferir imaginariamente a sua sombra.

Esta ilusão   de um real mais profundo que conheceria pela linguagem, Deus quer preservar o Homem proibindo-o, não de desfrutar-se da vista da Árvore da Onisciência, nem de se estender a sua sombra — ao abrigo da qual os olhos da criatura podem contemplar sem morrer   seu Criador — mas somente, como o precisa o relato, dela "comer" enquanto não é comestível, que porta frutos benéficos sem dúvida em pequena dose mas que envenenam se deles se alimenta. É o caso das ideias abstratas. Princípios, falsas totalidades, cômodas para a conversação, mas que não têm outra existência que não seja fictícia e, se as toma à sério  , nociva.

Não se trata portanto aqui de "bom" e de "mau" no sentido moral como se repete sempre, mas de "mau" como outra face de "bom" e formando com ele a aparência de uma plenitude  , antes de formar sem ele uma entidade fantasmática.

A palavra "ra’" isolada não aparece senão no sexto capítulo do Gênesis, no momento que Deus "se arrepende" de ter criado o Homem, decide o Dilúvio mas salva Noé (6,5). Depois em seguida no capítulo oito, no final do Dilúvio (8,21).

Até aí então, nada de "mau" se passou para a Bíblia. Nem a desobediência de Adão e de Eva, nem sua expulsão do Éden, nem o assassinato de seu irmão   por Caim   ainda não são qualificados de "maus". Só depois das experiência das primeiras gerações humanas, que viviam perto de 120 anos, que Deus viu que "a maldade (ra’at) do homem era grande sobre a terra  " e que "todo o instinto dos pensamentos de seu coração era unicamente mau (ra’) cada dia" e que decide exterminar toda a vida pelo Dilúvio. Parece que se pode verdadeiramente falar aí de pecado  , senão "original" pelo menos herdado.

E ainda mais depois do Dilúvio, quando Deus constata que "o instinto do coração do homem é mau (ra’) desde sua juventude  . Isso parece uma condenação sem apelo. E de fato não, como depois de sua decisão   de enviar o Dilúvio, Deus pelo menos salva Noé, mesmo depois de ter pronunciado esta sentença, Deus dela tira como conclusão: "Não amaldiçoarei mais a terra-pesadume por causa   do homem... não golpearei mais tudo o que é vivo como o fiz".

Me parece extremamente significativo que a palavra "ra’" não apareça então na Bíblia das Origens senão associada a "tov" e religada a ele por uma conjunção de coordenação que faz uma totalidade teórica. O "todo" representa a tentação intelectual de não se contentar do "tov" que é dado no éden mas de buscar outra coisa atrás, que dele seria o complemento não somente lógico, mas somente a ideia da coisa.

Só é quando o Homem se adona desta possibilidade teórica, que será forjada sua ideia própria do tov que não é outra — esta ideia — que o ra’, que o ra’ tomará corpo e se separará do tov para devir seu contrário, não mais dialético mas real, e que Deus constatará depois de muitas gerações a emergência definitiva e aparentemente irreversível de um ra’ autônomo no coração (quer dizer na inteligência e na vontade) do Homem. O pecado "herdado" é portanto o resultado do hábito mental tomado pelo homem de se fazer uma ideia do bom (do que é bom para ele) em lugar de simplesmente o acolher  .

Desde sua "juventude" — e não de sua infância, ou desde seu nascimento. É porque vale mais evitar o termo "pecado original", que se situa este pecado seja no início da história do Homem, seja no início da história de cada homem. Juventude (ne’ourim) designa em hebreu como em francês uma categoria de idade que exclui a infância, e ultrapassa a adolescência. Os "filhos da juventude" (bne-hane’ourim) (Sl 127,4) é uma expressão para distinguir   aqueles que tivemos jovens daqueles que tivemos velhos (bne-haziquounim). O que caracteriza esta juventude (ne’ourim) na Bíblia é um mínimo de consciência  . Pode-se aí fazer votos, e exercer responsabilidades, atividades econômicas, se casar, ter filhos, fazer a guerra  , se prostituir, etc. Já se sofreu a influência de toda uma educação  , de toda uma tradição   cultural e intelectual. Herdou-se dos hábitos mentais de sua entourage. Não se é mais uma cera virgem, se aprendeu a pensar, a raciocinar de uma certa maneira... Se o instinto do "coração" do homem é dito "mau desde sua juventude", é que só é a partir deste período de formação que se desenvolve assim. Não é inato, no sentido biológico. Não é um pecado já presente no embrião, e do qual se necessitaria se lavar pelo Batismo. O dogma   católico da imaculada concepção é absurdo à luz da Bíblia, para qual não há "maculada concepção" para ninguém. A criança é inocente do pecado original verdadeiro, que não é uma disposição   da natureza humana pervertida, mas uma repetição de geração, pela via do ensinamento, e em particular do ensinamento da linguagem, de uma mesma estrutura   mental guardando o homem na lógica das abstrações que inventa e que transmite, e que ele substitui mais e mais à realidade.

Original (excertos)

Ce qu’on traduit par « le Bien » c’est l’adjectif « tov » qui dans le texte n’a pas d’article défini, et n’est donc même pas l’équivalent de « le bon » ou de « ce qui est bon ». Car tov veut dire « bon » et non « bien », comme ra’ veut dire « mauvais » et non « mal ». « Bon » et « mauvais » n’expriment pas comme « bien » et « mal » des jugements de valeur, des jugements moraux. Ce sont des appréciations subjectives de plaisir ou de déplaisir, de confort ou d’inconfort, de joie ou de souffrance, qui reflètent des sensations immédiates ou des leçons de l’expérience. Nous verrons plus loin que même dans les textes « légaux » ou sapientiaux, où il est question de choix entre le tov et le ra’ et notamment dans la fameuse injonction du Deutéronome 30,15, ce tov et ce ra’ restent des choses très concrètes puisque comparées à « la vie » et à « la mort ».

Mais en tout cas dans le récit du jardin d’Eden tov et ra’, associés dans l’expression tov wara’ ne veulent pas dire du tout « le Bien et le Mal », ni « le bonheur et le malheur », comme le traduit la TOB, ni même « le bon et le mauvais », ni même « bon et mauvais ». Il s’agit là d’une locution, qu’on retrouve dans d’autres textes bibliques, et qui signifie « tout » (ou précédée d’une négation, « rien »). Gn 24,50

Lorsque le serviteur d’Abraham   va chercher une femme pour Isaac et rencontre Rebecca, il demande au père et au frère de celle-ci, Bétuel et Laban, de lui donner la jeune fille pour ce mariage. Ou alors, s’ils refusent, de le déclarer tout de suite. Laban et Bétuel répondent : « C’est de l’Eternel que la chose vient ; nous ne pouvons te parler ni en bien ni en mal » (traduction de Segond). La Bible   de Jérusalem traduit cette dernière phrase : « Nous ne pouvons te dire ni oui ni non. » Le plus curieux, si l’on suit cette traduction, c’est qu’immédiatement après, ils disent au serviteur d’Abraham d’emmener Rebecca. Le texte hébreu se lit littéralement : « Nous ne pouvons te parler ni ra’ ni tov. » Et il faut comprendre : « La chose vient de Dieu, nous ne pouvons rien te dire. » En d’autres termes, Laban et Bétuel s’inclinent devant la volonté de Dieu. Il n’est pas question ici de « mal » ou de « bien » ; ra’ et tov associés veulent simplement dire « tout » — et avec la négation, « rien ». Gn 31,24
Lorsque Jacob s’enfuit de chez Laban et que celui-ci part à sa poursuite, Dieu apparaît en songe à Laban et lui dit : « Garde-toi de parler à Jacob ni en bien ni en mal » (traduction de Segond). « Garde-toi de rien dire à Jacob ni en bien ni en mal » (TOB). La Bible de Jérusalem traduit ici tout à fait correctement : « Garde-toi de dire à Jacob quoi que ce soit » et précise en note : « Littéralement ni bien ni mal, rien du tout. » Gn 31,29

La même phrase est répétée mot à mot cinq   versets plus loin. Nb 24,13

[...]

Nous y voilà! Nous avons insisté et cité de nombreux exemples, parce qu’il s’agit d’une question de fond et pas du tout d’une querelle pédante portant sur le vocabulaire. Si tov et ra’ conjoints signifient, comme nous pensons l’avoir prouvé, la totalité et constituent grammaticalement une sorte de locution adverbiale (qu’on peut traduire « en tout », « en tout genre » ou « tous azimuts ») alors l’arbre mythique dont nos premiers parents ont mangé le fruit et qui a précipité leur « chute » et leur expulsion de l’Eden — notre éternelle nostalgie —, cet arbre fameux, qui continue à jouer un si grand rôle dans notre culture et notre inconscient, n’est pas celui de la Connaissance du Bien et du Mal mais celui de la Connaissance en tout — ou, comme je propose de l’appeler « l’arbre de l’Omniscience ».

[...]

De cette « omniscience » il y a trois mentions dans le récit du jardin d’Eden. La première en Gn 2,9 où il est dit que Dieu fit pousser hors de la pesanteur dans le jardin, entre autres, l’arbre de l’Omniscience. La seconde en Gn 2,17, où il est dit que Dieu enjoint à l’Homme : « Tu ne mangeras pas de l’arbre de l’Omniscience, car en ce cas tu mourrais certainement. » Je ne retiens pas dans ce décompte des substantifs « omniscience » le verbe dont se sert le serpent en Gn 3,5 pour tromper la Femme — parole piège dans laquelle sont tombés non seulement Eve et à sa suite Adam, mais la plupart des théologiens jusqu’à ce jour — mais j’y inclus le substantif (et non le verbe qu’on y voit souvent) qui termine la célèbre réflexion prêtée à Dieu en Gn 3,22, sur la prétendue prérogative divine de l’omniscience !

Or il convient d’être catégorique. Dans la Bible, c’est le serpent seul qui affirme — logiquement et mensongèrement — que Dieu est doué d’omniscience. La Bible ne dit jamais que Dieu connaît le Bien et le Mal — pas plus d’ailleurs que le Bien ou le Mal seuls, ni que Dieu connaît ou sait tout. Dieu ne connaît aucune abstraction (et le Bien et le Mal, comme la totalité, sont des abstractions, des entités, que l’homme absolutise) car les abstractions n’existent pas en réalité. Dieu connaît le cœur de l’homme, le cœur de chaque homme, Dieu connaît le passé, Dieu connaît l’avenir — et encore ces connaissances ne prévalent pas contre sa toute-puissance de changer les cœurs et les vies, et de faire même que le passé cesse d’avoir été, ou que l’avenir soit différent de ce qu’il a prévu — s’il le veut.

Dieu connaît le cœur de chaque homme. Mais n’oublions pas que, dans la physiologie biblique, le cœur n’est pas le siège du sentiment (situé plutôt dans les entrailles, voir Ps 40,9 ; Jb 30,27). C’est le siège de la volonté et en premier lieu de l’intelligence (Dt 29,3; Is 32,4; Jr 24,7; Eccl 1,17; 8,16; etc.).

Dans le premier récit de la Création (Gn 1,1 à 2,3), Dieu a ponctué les étapes de l’œuvre de sa Parole de sept soupirs de satisfaction, en répétant sept fois : « Et Dieu vit que cela était bon » (dont une fois, après la création de l’Homme, « que cela était très bon »). Il n’y a rien de mauvais dans la Création et le mot ra’ n’apparaît pas dans le premier récit. Pas plus que n’y apparaît une seule négation (on y compte six « ken » [oui] et aucun « lo’ » [non] ni aucun « ’ayin »).

Dans le second récit le mot « ra’ » n’apparaît pas non plus isolé. Par contre « tov » y apparaît quatre fois isolé dans le sens de « bon ». D’abord lorsqu’il s’agit des arbres du jardin « bons à manger » en général (2,9) et en particulier (3,6). « Bon » a ici un sens tout à fait concret, qui est renforcé par l’adjonction dans le premier cas de l’adjectif « nehmad », désirable, charmant, et dans le second cas non seulement de cet adjectif « nehmad » mais d’un substantif exprimant le désir le plus sensuel, « tov » est encore employé pour qualifier l’or du pays de Havila (2,12) et négativement quand Dieu dit : « Il n’est pas bon que l’Homme vive seul (2,18). »

Quant à « ra’ » il n’apparaît dans le second récit de la Création qu’associé à « tov » et toujours en seconde position derrière « tov » comme son ombre.

C’est qu’il l’est. Il n’a pas de contenu par lui-même. Il ne veut certes pas dire « mauvais » à ce stade, Dieu n’ayant rien créé de mauvais. Ce mot encore vide figure simplement le « double » que représente tout langage par rapport à la réalité. Langage dont Dieu a doué l’Homme en le créant « conscient d’exister » et qui est « bon » pour mieux vivre cette réalité avec le risque — car il est libre — qu’il s’en serve pour la nier ou la conférer imaginairement à son ombre.

Cette illusion d’un réel plus profond qu’il connaîtrait par le langage, Dieu veut en préserver l’Homme en lui défendant, non pas de se réjouir à la vue de l’arbre de l’Omniscience, ni de s’épanouir à son ombre — à l’abri de laquelle les yeux de la créature peuvent contempler sans mourir son Créateur — mais seulement, comme le précise le récit, d’en « manger » alors qu’il n’est pas comestible, qu’il porte des fruits bénéfiques sans doute à petite dose mais qui empoisonnent si on s’en nourrit. C’est le cas des idées abstraites. Des principes, des fausses totalités, commodes pour la conversation, mais qui n’ont d’autre existence que fictive et, si on les prend au sérieux, nocive.

Il ne s’agit donc pas ici de « bon » et de « mauvais » au sens moral comme on le répète toujours, mais de « mauvais » comme autre face de « bon » et formant avec lui l’apparence d’une plénitude, avant de former sans lui une entité fantasmatique.