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EVANGELHO DE JESUS

Logia Jesus: Renúncia (Mt 16,24-28; Mc 8,34-38; Lc 9,23-27; Lc 14,33)

DITOS DE JESUS

sexta-feira 12 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Dos dois   “si mesmos” do homem  , os dois Atmans dos textos indianos, aquele que era conhecido pelo nome de Fulano de Tal deve matar a si próprio para que o outro esteja livre de todos os fardos — “livre como a Divindade   em sua não-existência”. [AKC  ]

Tomas de Aquino  : Lucas IX, Lucas XIV

    

Mt 16,24-28

mt  .16.24 τοτε ο [THEN] ιησους [JESUS  ] ειπεν τοις [SAID] μαθηταις αυτου [TO HIS DISCIPLES,] ει [IF] τις [ANY ONE] θελει [DESIRES] οπισω [AFTER] μου [ME] ελθειν [TO COME,] απαρνησασθω [LET HIM DENY] εαυτον [HIMSELF,] και [AND] αρατω τον [LET HIM TAKE UP] σταυρον αυτου [HIS CROSS,] και [AND] ακολουθειτω [LET HIM FOLLOW] μοι [ME.]

mt.16.25 ος γαρ αν [FOR WHOEVER] θελη την [MAY DESIRE] ψυχην αυτου [HIS LIFE] σωσαι [TO SAVE,] απολεσει [SHALL LOSE] αυτην [IT;] ος δ αν [BUT WHOEVER] απολεση την [MAY LOSE] ψυχην αυτου [HIS LIFE] ενεκεν [ON ACCOUNT OF] εμου [ME,] ευρησει [SHALL FIND] αυτην [IT.]

mt.16.26 τι γαρ [FOR WHAT] ωφελειται [IS PROFITED] ανθρωπος [A MAN,] εαν [IF] τον [THE] κοσμον [WORLD] ολον [WHOLE] κερδηση την δε [HE GAIN,] ψυχην αυτου [AND HIS SOUL] ζημιωθη [LOSE?] η [OR] τι [WHAT] δωσει [WILL GIVE] ανθρωπος [A MAN «AS»] ανταλλαγμα της [AN EXCHANGE FOR] ψυχης αυτου [HIS SOUL?]

mt.16.27 μελλει γαρ [FOR IS ABOUT] ο [THE] υιος του [SON] ανθρωπου [OF MAN] ερχεσθαι [TO COME] εν [IN] τη [THE] δοξη του [GLORY] πατρος [FATHER  ] αυτου [OF HIS] μετα των [WITH] αγγελων αυτου [HIS ANGELS;] και [AND] τοτε [THEN] αποδωσει [HE WILL RENDER] εκαστω [TO EACH] κατα την [ACCORDING TO] πραξιν αυτου [HIS DOING.]

mt.16.28 αμην [VERILY] λεγω [I SAY] υμιν [TO YOU,] εισιν [THERE ARE] τινες [SOME] των [OF THOSE] ωδε [HERE] εστηκοτων [STANDING] οιτινες ου [WHO] μη [IN NO WISE] γευσωνται [SHALL TASTE] θανατου [OF DEATH] εως αν [UNTIL] ιδωσιν [THEY HAVE SEEN] τον [THE] υιον του [SON] ανθρωπου [OF MAN] ερχομενον [COMING] εν τη [IN] βασιλεια αυτου [HIS KINGDOM.] [Outras evangelhos  : Mc 8:34-38; Lc 9:23-27; Lc 14:33]

Roberto Pla

Como a negação não é fácil de efetuar mas muito trabalhosa, se diz dela que há que tomá-la «cada dia» para andar com ela sem pretender salvar a vida ou a alma  . A vida, não é a Vida senão o viver   do que há de negar porque não é o próprio, e a alma, o que cremos que é a alma, é somente uma sucessão de imagens de nós mesmos, aderidas erroneamente à Glória   que realmente somos. Por isso está dito: «quem quiser salvar sua alma, a perderá, mas quem perde sua alma por mim  , esse a salvará» (Lc   9,23-24). Tomo a tradução «alma» e não «vida», segundo o texto latino do NT. O vocábulo psyche se entende assim com referência às vivências conscientes e não-conscientes. Evangelho de Tomé - Logion 55


À negação de si mesmo   referia-se Jesus quando dizia: “Se alguém quer me seguir, negue-se a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me”. Convém esclarecer o alcance profundo dessa negação solicitada por Jesus que parece consistir em uma negação cotidiana e persistente, gradual, de todo os nomes adquiridos no mundo como tesouros agregados na terra  , ao Ser estrito, puro, de cada homem  . É esta uma ação destruidora prévia que deve ser encaminhada a deixar de sentir-se identificada a alma com tudo o que não é nome divino. Esse nome —Eu sou   o que é — somente revela (com exclusão de qualquer outra coisa), ao Filho do Homem   — “o que é” — quando em seu seguimento, a alma, já desnuda dos nomes do mundo, acaba por ser só um lugar vazio  , tão vazio para os olhos do mundo que a espada   da perseguição não encontra onde fundir seu fio.

O “lugar” que deve mostrar-se   vazio para que nele resplandeça a glória do nome divino, é a alma. O evangelho conhece e explica a possibilidade alternativa em que está o Homem real, quer dizer, o espírito  , o Eu puro, muito além da estrutura   terrena da alma, de ganhá-la e perdê-la. As referências a alma dadas neste sentido pelo relato evangélico se afirmam sempre em uma contradição, que somente se explica pelo fato bem sabido de que “Ser” no mundo é “nadidade  ” para o mundo real, quer dizer, que os agregados mundanos, não são nada para o mundo celeste, o mundo do Filho do Homem. Por isso é dito: “De que serve ao homem (a alma), ganhar o mundo inteiro, se se perde ou arruína a si mesmo (o espírito)?” (Lc 9,25).

A negação que Jesus reclama ao que quer segui-lo, à alma que pretende chegar a seu si mesmo, ao espírito ou Eu puro, para ser uma só coisa com ele, é sempre uma prescrição prévia de todos os “lugares” ou nome do mundo agregados à alma na vã crença de que são verdadeiros; a negação que pede Jesus exige uma lavação batismal da alma, tão profunda, quanto completa, que deve levar à alma até a situação   limite de estar “triste até o ponto de morrer  ” e finalmente a beber com Jesus aquele cálice de morte que ele bebeu (Mc   10,39), pois a cruz e a morte de Jesus são no evangelho, além disso, figura, explicada pelo evangelho, de todo aquele que segue os passos do Filho do Homem.

A contradição reservada à alma aparece escrita em muitos logia evangélicos, mas se pode recordar especialmente na passagem joanica seguinte: “O que ama sua alma a perde, e o que odeia sua alma neste mundo, a guardará para uma vida eterna” (Odiar tua alma). Aqui não é o mundo o que odeia ou prescreve o nome divino, senão a alma que é convocada a odiar   os nomes ou componentes do mundo nela incrustados e que erroneamente estima   como conformando uma alma mundana. Estes são os que devem ser negados, quer dizer, desmascarados, reconhecidos em sua verdadeira condição de ser um apêndice inadequado da alma. Evangelho de Tomé - Logion 68


Jesus o Vivente — a alma de Jesus — tinha que saber bem que a cruz é o limite da Plenitude  , o signo   terminal que separa ao homem interior  , “pleno  ”, do homem hílico  , “deficiente”. Por isso dizia: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me”. Negar-se a si mesmo implica retirar a consciência   de sua pétrea identificação com o corpo, o qual é o “objeto” da deficiência  , para levá-la, livre, ao outro lado do limite, à Plenitude, onde refulge o Reino de Jesus o Vivente. Este é o caminho  , a senda fronteiriça, e a subida ao Calvário, que em si mesma, como vontade de transpassar os limites, é a cruz. Um cristão gnóstico, recordado por Clemente de Alexandria  , o diz: “Levando Jesus nas costas, nos ombros, às sementes (Palavra semeada), as introduz — através do signo — no Pleroma”. Evangelho de Tomé - Logion 87 (v. Evangelho de Tomé - Logion 98)
Jesus descreve, em uso paradoxal, o estado   extremo da tribulação, e o diz expressando-se como Cristo oculto  , o Filho do Homem: "Quem quiser salvar sua alma (vida = psyche), a perderá, mas quem perder sua alma (vida) por mim, a encontrará (Lc 9,24)

Não é fácil converter em realidade interior o sentido deste logion onde a dupla acepção da palavra psyche (alma, vida), proporciona uma dificuldade   prévia de entendimento. Jesus «manifesto» pede a negação de si mesmo a todos, para chegar através dessa negação e do seguimento do exemplo de Jesus à contemplação   do (universal  ) Filho do Homem. Por essa contemplação não sobrevém até que a negação da alma e da vida perecedora que ela supõe, é absoluta.

Por isso diz Jesus que há que perder a alma (psyche, a vida mortal da alma), para encontrar a Vida eterna (psyche), a qual é em si mesma o Filho do Homem. Ou o que é o mesmo: quem quer salvar sua Vida (eterna), deverá perder antes, voluntariamente, sua alma (sua vida perecedora), significada pelo mundo. Isto é uma mudança   com ganância  . Evangelho de Tomé - Logion 113

Ananda Coomaraswamy

São estas as palavras de Cristo: “Eu sou a porta  ; todo aquele que entrar por mim será salvo; entrará, e sairá.” Não basta ter chegado à porta; precisamos ainda que nos deixem entrar. A entrada, porém, tem um preço. “Quem quiser salvar a sua alma, que a perca.” Dos dois   “si mesmos” do homem, os dois Atmans dos textos indianos, aquele que era conhecido pelo nome de Fulano de Tal deve matar a si próprio para que o outro esteja livre de todos os fardos — “livre como a Divindade   em sua não-existência”. [NADIFICAÇÃO; ATMANYAJNA EL SACRIFICIO DE SÍ MISMO]


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