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L’ABANDON

Baret: la conscience

Extrait du Chapitre 11

sexta-feira 13 de abril de 2018, por Cardoso de Castro

      

Extrait du chapitre 11 de « L’Abandon »

Antonio Carneiro

Sou   interpelado por uma palavra   que pronunciastes mais cedo: « insucesso. » Poder  -se-ia dizer que se pode passar sua vida alcançar fracassos e que isso seria também uma via de sucesso… porque o insucesso deixa um gosto   amargo e leva à se pôr muitas questões sobre o sentido de sua vida?

Podeis passar vossa vida à vos imaginar ter êxito ou fracassar. Mas em nada podeis ter êxito nem fracassar: é uma ideologia.

Um dia   estareis enfastiado de imaginar, nesse instante, vossos êxitos e fracassos imaginários, vossos fantasmas de vitórias e derrotas futuras se eliminarão também. Eis o sucesso, não há nenhum outro. É isso que é preciso deixar se instalar em nós.

Nenhum lugar   para mágoa, esperança ou amargura: tudo isso é uma forma de agitação. Permaneceis tranquilo, claro. A vida se desenrola em vós, não estais na vida.

– Se não tem sucesso, não tem evolução também?

Não tem evolução psicológica. O velho não é mais que a criança: é uma outra expressão da vida. Também não é menos quando perde sua força, sua inteligência  , sua memória e sua saúde.

– Quando o velho se desequilibra, quando perde a memória, é menos consciente, não?

Consciência relativa, pois não estava consciente. Ele imaginou ter êxito e fracassar em coisas — aquilo que é do inconsciente. Ele imaginou ter um nome, decidir seus atos … Ele imaginou toda sua vida. Não é porque ele esqueceu esse imaginário que ele tem menos. Ele reencontra alguma coisa de essencial, sem memória, sem apropriação.

É importante observar   quanto ver um ancião que se torna senil nos repercute. Por que é tão difícil? Que é que me assusta? Sou posto em questão. Apercebo-me que vou ser como isso e que não vou mais poder pretender — pretender meu êxito, meus fracassos. Eu vou ser obrigado a abdicar minha querida vida, minha querida identificação a mim mesmo. É isso que me é penoso.

Deixemos o velho tranquilo de nossas projeções, de nossos medos  . O velho vai muito bem: somos nós que temos medo. Um salmão no fim da vida não é menos que em seu esplendor. A degenerescência, sobre certo plano, faz parte de nosso processo biológico. Tem tanta beleza em cada um que morre quanto em cada um que nasce.

– Se não existe sucesso, de que me serve minha consciência?

A consciência não vos serve para nada. Não é um objeto destinado à vos estimular psicologicamente. Não é um carro vermelho, um marido ou um cão. Ela não está aí para servir: ela é vossa emoção fundamental, ela vos impulsiona à vos procurar constantemente através das situações.

« Consciência »: essa palavra é mal compreendida. No Oriente se fala de « consciência sem objeto ». Não há que « ser consciente ».

A consciência das pessoas que querem morrer   « conscientemente » não tem importância alguma. O que acontece no instante da morte é tudo de outra ordem. Morrer conscientemente depende da capacidade funcional de vosso cérebro. Se recebeis uma porretada no crânio, não morrereis conscientemente e nada vos faltará.

A consciência de alguma coisa é uma consciência funcional. É como uma perna para andar. Essa consciência não tem substância alguma, é uma função. A Consciência, é outra coisa.

– Se eu chego a estar de acordo   com a consciência, posso atingir a essência?

Tentais um instante estar em desacordo com vossa consciência …

Que poderíeis ser outro senão vossa consciência? Não sois uma zebra vermelha situada no exterior   da consciência, para vos colocar   de acordo com ela. Essa consciência é vós mesmos quando parais de procurar o que quer que seja, quando cessais de pretender ter o poder de estar de acordo ou em desacordo.

Em vosso silêncio, entre dois pensamentos, duas percepções, no sono profundo e o tempo   todo — porque o tempo aparece na consciência -, vossa vida está em perfeito acordo com a consciência.

Suprimeis todo comentário ideológico sobre vossa vida. Vosso saber sobre a vida vos impede de ver o quanto ela é perfeita. Nada tem aí para mudar  . Vossa vida muda, é a vida. Não tendes que vos colocar de acordo com o que quer que seja. Senão ireis sempre vos sentir em desacordo.

Querer estar de acordo é um medo. Medo de que? A causa   do medo é imaginária, a um dado momento se cessa de tremer. O que se apresenta é o acordo. Quando eu não o qualifico mais de positivo ou de negativo, de êxito ou de fracasso, o que se apresenta não é outro senão eu mesmo, senão minha ressonância: aí, tem acordo verdadeiro. Esse não é um acordo de um sujeito para com um objeto, é um acordo de unidade  , sem separação  . Um acordo com vosso corpo quando sofre ou funciona, com a vida naquilo que ela vos oferece. Sem demanda por sucesso, por receber   o que quer que seja.

É extraordinário escutar  . Isso transcende o que se escuta. O acordo profundo da vida consiste em escutar.

Estar um instante sem pergunta, sem espera, é a coisa mais simples que pode ser. Isso vos liga com todos os seres, todos os mundos. Aí, há a simbiose.

Se tentais vos colocar de acordo com que quer que seja, vos colocais de acordo com uma ideologia: se sois muçulmano vos colocais de acordo com a sharia ou vossa tarika, se sois budista vos colocais de acordo com o Sangha ou o dharma; com vossos conceitos se sois ateu, etc. Esse acordo tem pouco valor  .

É preciso se colocar de acordo com o que se apresenta no instante. Mas isso, não podeis fazê-lo. É uma graça   que vos chama e que recusais à cada instante porque quereis estar de acordo com o instante seguinte… Ver o mecanismo.

A emoção que surge em mim, é com ela que devo estar de acordo. Não tem nenhuma outra.

– Que sejamos nós mesmos sem expectativa   sim, mas as solicitações vindo do exterior?

É preciso amá-las. É normal que vosso cão espere sua refeição, que vosso amante, vosso marido, vosso filho  , vosso pai, vosso patrão, vosso empregado esperem alguma coisa. Mas ides vos dar conta que não estais aí para responder às expectativas dos outros. Estais aí, eventualmente, para estimular a não expectativa no vosso meio social. Às vezes vosso ambiente será satisfeito, às vezes será decepcionado: é preciso respeitar isso, há necessidade   dos dois. Vosso filho tem necessidade que o encheis de satisfação e que o decepcioneis; sua maturidade depende dos dois, do sim e do não. Vosso amigo tem necessidade da mesma coisa, vosso dromedário também.

Nenhuma culpabilidade a ter. Não estais aí para responder as expectativas de vosso vizinho. Tem sempre um vizinho que vos achará grande demais, um outro que vos achará pequeno demais. Respeitai cada um. Para alguns aparecereis simpático, para outros antipático: todos têm razão; segundo seus estados afetivos, eles vos veem de uma maneira ou de uma outra.

À um dado momento, não vos alimentareis mais da projeção de vosso vizinho. O respeitareis no seu ódio como no seu amor. É uma projeção, ele não fala senão a ele mesmo. Não sois a quem diz respeito. Compreendeis intimamente por que, quando ele vos vê, ele experimenta um tal ódio e tem vontade de vos estrangular, ou um tal amor e tem vontade de vos saltar em cima. Ele não pode fazer de outro modo. É como os cães que querem vos morder ou vos lamber. Não estais aí para ensinar   ao cão que quer vos morder que ele não tem que fazê-lo, nem à explicar àquele que vos lambe que projete uma segurança sobre vós e que ele faria melhor de a encontrar em si mesmo  . Respeitais o cão que vê esta segurança em vós e vos lambe como aquele que quer vos degolar. Tratai em função da situação  . Por respeito.

Se não tendes problema em relação   a vós mesmo, não tereis nenhum em relação à sociedade. A sociedade é clara, perfeita… salvo quando se vive na expectativa, na intenção. Aí, tem conflito.

Por mais que se queira que o ambiente seja diferente, a insatisfação permanece. Que meu marido se torne exatamente o que desejo dele, no dia seguinte outra coisa faltará mesmo assim… O que peço à meu marido, à meu camelo é eu mesmo. Isso, nenhum camelo me pode dar. No instante quando não espero mais nada do que quer que seja, aí incluído eu mesmo, realizo que escutar é minha segurança, minha fruição, minha satisfação. Não preciso mais que se me escute, que se me ame ou me deteste; compreendo, respeito a maneira como o mundo me vê — ele tem suas razões.

O ambiente não cria qualquer choque psicológico. Se suscita em mim a menor dificuldade  , é que carrego uma forma de julgamento  : volto à mim mesmo. No lugar   de viver   a realidade  , penso que o ambiente deveria ser diferente. O ambiente é o que é. Não estar de acordo com a realidade é ter um problema: não com ela, consigo.

Olhar claramente em si. Perceber que seu marido, seu patrão, seu cão não podem fazer outra coisa senão sentir o que eles sentem, agir como eles agem. Nesse respeito, esse amor da realidade, reintegro a disponibilidade.


Ver online : ERIC BARET