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Puritas Cordis

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Merton Pureza   de Coração   - Puritas Cordis (cont.)

A luz   de Deus   que brilha na alma   humilde, vazia de si, é o que os antigos Padres chamavam puritas cordis, pureza de coração. Cassiano   ensinava que o escopo, todo, da vida monástica consistia em levar o monge   a essa pureza interior. Todas as observâncias e virtudes monásticas têm isso por objeto.

São estas as palavras de Cassiano: «Por causa   dessa pureza de coração é que devemos realizar tudo que fazemos, procurar tudo que procuramos. Por causa da pureza de coração buscamos a solidão  , os jejuns, as vigílias, os trabalhos, o vestuário pobre  , a leitura e todas as outras virtudes monásticas. Por esses exercícios, esperamos conservar nosso coração livre dos assaltos das paixões, e por esses degraus esperamos atingir o perfeito amor». [1]

Continua fazendo uma profunda observação   psicológica. Se, diz Cassiano, notamos que estamos sem vontade ou incapazes de renunciar a algum exercício particular ou alguma observância para cumprir alguma outra tarefa importante ou necessária, e se descobrimos que, não podendo manter a observância como havíamos planejado, ficamos tristes, zangados, irritados ou de qualquer forma perturbados, quer isso dizer que procuramos essas coisas para a nossa satisfação própria e, portanto, perdemos de vista nosso verdadeiro objetivo, a pureza de coração. Nesse caso, os exercícios que praticamos não estão purificando nosso coração das paixões egoístas, mas fortificando-as em nossa alma.

A pureza de coração descrita por Cassiano não é tanto um estado   psicológico como um novo nível de realidade. É a condição de uma alma transformada pela caridade perfeita. Essa alma é elevada acima de si mesma e para fora de si. Não só pensa e age num mais alto nível, mas é ela própria um novo ser, nova criatura.

Os Philokalia  -Deserto - Padres da Igreja   explicavam esse «novo ser» pela seguinte doutrina  : o homem  , criado à imagem de Deus, perdeu a semelhança   com Deus porque, voltando-se para si, ficou centrado em si mesmo  . Perdendo essa semelhança divina, mergulhou o homem na irrealidade, pois não está mais unido à fonte da sua realidade. Existe ainda. É ainda «imagem» de seu Criador. Não tem, entretanto, em si, a vida de caridade que é a vida do próprio Deus — uma vez que Deus é caridade. Já que não tem essa vida em si, é ele irreal, está morto. Não é o que deveria ser. É caricatura de si mesmo. Uma imagem que é dessemelhante daquilo que representa é, necessariamente, uma distorção. E essa distorção é, em verdade, uma completa oposição espiritual à vontade e ao amor de Deus. Criado para realizar-se pela perfeita semelhança a Deus que é perfeito amor, destrói o homem suas potencialidades centralizando em si mesmo todo o seu amor. Criado para dar testemunho da infinita verdade e do infinito   poder, realidade e existência de Deus, em Quem todas as coisas vivem, se movem e têm o ser  , nega o homem, a realidade e volta as costas à verdade, de maneira a fazer de si o centro   e a razão   de ser do universo  .

Para voltar a ser «real», deve o homem purificar o coração da treva da irrealidade e da ilusão  . Essa treva, porém, submerge-lhe o coração enquanto ele vive apoiado na vontade própria egoísta. A luz só pode brilhar em nossos corações quando nos decidimos a renunciar à nossa determinação de nos rebelar contra a vontade infinita de Deus, a aceitar   a realidade tal como Ele a quis e a colocarmos nossa vontade a serviço da perfeita liberdade d’Ele. Quando amamos como Ele ama somos puros. Quando queremos o que Ele quer somos livres. Então, nossos olhos se abrem e vemos a realidade como Ele a vê e podemos nos alegrar com a alegria   d’Ele porque todas as coisas são «muito boas» (Gn 1, 31).

O coração «impuro» do homem decaído não é apenas sujeito   à paixão carnal. «Pureza» e «impureza», nesse contexto, significam algo mais que a castidade. O coração impuro é um coração repleto de temores, ansiedades, conflitos, ódios, invejas, necessidades e apegos apaixonados. Todas essas e mil outras «impurezas» obscurecem a luz interior da alma. Não são, contudo, sua impureza capital nem a causa dessas impurezas. A corrupção íntima, básica, metafísica   do homem é sua convicção   profunda e ilusória de que ele é um deus e de que o universo está centrado nele. Notai que essa convicção tem base na verdade, uma vez que o homem vê em si a imagem obscurecida de Deus. Que imagem é essa? São Bernardo diz que é a liberdade do homem sentindo, então, em si, esse profundo, inalienável poder de auto-determinação espiritual, essa liberdade de moldar o próprio destino pela livre escolha  , sente-se o homem «deífico». Essa liberdade nos vem de Deus nosso Pai  .

Mas, embora Deus, nosso Pai, nos tenha criado livres, não nos fez onipotentes. Não somos deuses de direito próprio, capazes de realizar tudo que desejamos. Não podemos criar e desmanchar mundos, nem de nos impor a adoração e o serviço de todos os outros espíritos! Somos capazes de nos tornar perfeitamente «deíficos», recebendo livremente de Deus o dom de sua Luz, de seu Amor e de sua Liberdade em Cristo  , o Logos   Encarnado. Mas, na medida em que estamos implicitamente convencidos de que devemos ser onipotentes, por nós mesmos, usurpamos uma semelhança com Deus que não nos pertence.

Não somos, é claro, bastante tolos para imaginarmos que devemos encontrar em nós mesmos a onipotência absoluta de Deus. Entretanto, em nosso desejo de sermos «como deuses» — uma deformidade que perdura, impressa em nossa natureza pelo pecado original — procuramos o que se poderia chamar uma onipotência relativa; isto é, o poder de possuir tudo que queremos, de gozar de tudo que desejamos, de exigir que todos os nossos desejos sejam satisfeitos e que nossa vontade nunca se veja frustrada ou contrariada. É a necessidade   de ver toda gente se curvar à nossa opinião   e acatar nossas declarações como lei. É a sede insaciável pelo reconhecimento de nossa própria excelência, que tanto precisamos achar em nós mesmos para evitar o desespero  . Essa pretensão à onipotência, nosso mais profundo segredo e nossa mais íntima vergonha  , é, de fato, a fonte   de todos os desgostos, de toda a infelicidade, de toda a insatisfação, de todos os enganos e decepções que sofremos. É uma falsidade   radical que faz apodrecer nossa vida moral em suas raízes, porque torna tudo que fazemos mais ou menos uma mentira. Só os pensamentos e atos que estão livres da contaminação dessa secreta pretensão possuem alguma verdade, nobreza e valor  .



[1Cassiano, Conferência 1, VII, Migne P. L. 49: 489.