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Orpheus

segunda-feira 28 de março de 2022

      

Orfeu  , orfismo, Orfismo
Segundo Elemire Zolla   - Elèmire Zolla, um dos grandes estudiosos italianos da Tradição, que inicia com Orpheus sua obra monumental sobre os místicos do Ocidente, o orfismo teria se difundido no século IV AEC, enquanto tradição congênere   ao ensinamento dos templos egípcios. Pico de la Mirandola demonstrará na Renascença, a sua concordância com a Qabbalah  .

Segundo os pesquisadores da tradição grega, Anaxagoras teria sido iniciado na tradição órfica, e seria o mestre de Sócrates. Só nos resta de Orpheus (ou Orfeu) alguns de seus hinos onde, segundo Elemire Zolla, não se distingue misticismo   de indicação litúrgica.

As traduções dos hinos órficos mais reconhecidas são as do platonista Thomas Taylor  , em inglês, e do poeta Leconte de Lisle, em francês.
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Mitologia Mircea Eliade   Parece impossível escrever   sobre Orfeu e o orfismo sem irritar certa categoria de estudiosos: quer os cépticos e os "racionalistas", que minimizam a importância do orfismo na história da espiritualidade grega, quer os admiradores e os "entusiastas", que nele veem um movimento   de enorme alcance [1].

A análise das fontes permitem-nos distinguir   dois   grupos de realidades religiosas: 1) os mitos e as tradições fabulosas relacionados com Orfeu; 2) as ideias, crenças e costumes vistos como "órficos". O citaredo é mencionado pela primeira vez no século VI pelo poeta Ibico de Région, que alude a "Orfeu de nome célebre". Para Píndaro  , Orfeu é "o tocador de phórmigx [2], pai   dos cantos melodiosos" (Píticas, IV, 177). Ésquilo evoca-o como "aquele que, com os seus acentos, mantém encantada toda a natureza" (Agamêmnon, 1630). É representado, a bordo de uma nau, a lira entre as mãos, e com o nome expresso sobre uma métopa do século VI pertencente ao tesouro   dos siciônios em Delfos  . Do século V em diante, a iconografia de Orfeu vai-se enriquecendo de maneira contínua: vemo-lo a tocar lira e cercado de pássaros, de animais   selvagens ou ainda dos fiéis trácios. É dilacerado pelas Mênades ou encontra-se no Hades   ao lado de outras divindades. Ainda do século V datam as primeiras alusões à sua descida aos Infernos para resgatar a sua esposa   Eurídice (Alceste, 357 s.). Não teve êxito ou porque, demasiado cedo, voltou-se para a olharFOOTENOTE()>As fontes acham-se analisadas por W. K. C. Guthrie  , Orpheus and Greek Religion, pp. 29 s. e Ivan M. Linforth, The Arts of Orpheus.]], ou porque as forças infernais se opuseram ao seu intento [3]. Segundo a lenda, viveu ele na Trácia, "uma geração antes de Homero  "; no entanto, a cerâmica do século V representa-o sempre em traje grego, encantando com a sua música animais selvagens ou bárbaros [4]. Foi na Trácia que Orfeu encontrou a morte. Segundo As Bassárides — drama   perdido de Ésquilo —, Orfeu, todas as manhãs, subia ao monte Pangeu, a fim de adorar o sol  , identificado com Apolo  ; irritado, Dioniso   enviou contra ele as Mênades; o citaredo foi estraçalhado e teve os membros dispersados [5]. A sua cabeça, deitada ao Hébron, flutuou cantando até Lesbos. Piedosamente recolhida, passou a servir de oráculo.

Teremos oportunidade   de lembrar outras alusões a Orfeu na literatura dos séculos VI e V. Observemos, por enquanto, que o prestígio de Orfeu e os episódios mais importantes da sua biografia lembram, estranhamente, as práticas xamânicas. Tal como os xamãs, é curandeiro   e músico; encanta e domina os animais selvagens; desce aos Infernos para resgatar Eurídice; a sua cabeça cortada é conservada e serve de oráculo, tal como, ainda no século XIX, os crânios dos xamãs iucajires [6]. Todos esses elementos   são arcaicos e contrastam com a espiritualidade grega dos séculos VI-V; mas ignoramos a sua proto-história na Grécia antiga, ou seja, a sua eventual função mítico-religiosa antes de serem incorporados à lenda órfica. Além disso, Orfeu estava relacionado com uma série de personagens fabulosas — Ábaris, Arísteas etc. — igualmente caracterizadas por experiências extáticas de tipo xamânico ou paraxamânico.

Tudo isso bastaria para situar o cantor lendário "antes de Homero", como alegava a tradição e como repetia a propaganda órfica. Pouco importa se essa mitologia arcaizante foi, em parte, o produto de uma reivindicação suscitada talvez por certos ressentimentos. (É possível, na verdade, discernir por trás da mitologia o desejo de projetar Orfeu nos tempos prestigiosos das "origens" e, por conseguinte, de proclamá-lo "o ancestral de Homero", mais velho e mais venerável que o representante, o próprio símbolo, da religião oficial.) É importante o fato de que se tenham escolhido com cuidado   os elementos mais arcaicos a que podiam ter acesso os gregos no século VI [7]. A insistência com que se evocavam a estada, a pregação e a morte trágica de Orfeu na Trácia [8] corroborava a estrutura   "primordial" da sua personagem. É igualmente significativo que, entre as raras descidas aos Infernos atestadas na tradição grega, a descida de Orfeu se tenha tornado a mais popular [9]. A catábase é solidária dos ritos iniciatórios. Ora, o nosso Cantor era tido como "fundador de iniciações" e de Mistérios. Segundo Eurípides, ele "mostrou as tochas dos mistérios indizíveis" (mustêríôn te tôn aporrêtôn phanàs édeixen Orpheús) (Reso, 943). O autor do Contra Aristogíton A (§ 11) afirmava que Orfeu "nos mostrou as iniciações mais sagradas", referindo-se, provavelmente, aos Mistérios de Elêusis.

Finalmente, as suas relações com Dioniso e Apolo confirmam-lhe a reputação de "fundador de Mistérios", pois trata-se dos únicos deuses gregos cujo culto envolvia iniciações e "êxtase" (evidentemente, êxtase de tipos diferentes, ou até antagônicos). Desde a Antiguidade  , essas relações deram lugar a controvérsias, Quando Dioniso tira do Hades sua mãe, Semeie, Diodoro (VI, 25, 4) nota a analogia   com a descida de Orfeu em busca de Eurídice. O despedaçamento deste último pelas Mênades pode também ser interpretado como um ritual dionisíaco, o sparagmós do deus   sob a forma de um animal (cf. § 124). Orfeu, porém, era conhecido principalmente como o fiel por excelência de Apolo. Segundo certa lenda, era mesmo o filho do deus e da ninfa Calíope. Deve a sua morte violenta à devoção que mostrava para com Apolo. O instrumento musical de Orfeu era a lira apolínea [10]. Finalmente, na qualidade   de "fundador de iniciações", Orfeu atribuía grande importância às purificações, e a káthawis era uma técnica especificamente apolínea [11].

Vários traços são dignos de menção: 1) embora o nome e certas alusões ao mito   sejam atestados apenas do século VI em diante, Orfeu é uma personagem religiosa de tipo arcaico. Pode-se facilmente supor que ele viveu "antes de Homero", entendendo-se essa expressão quer cronológica, quer geograficamente (isto é, numa região "bárbara", ainda não afetada pelos valores espirituais específicos à civilização homérica). 2) A sua "origem" e a sua, pré-história nos escapam, mas Orfeu não pertence decerto à tradição homérica, nem à herança mediterrânea. As suas relações com os trácios são bastante enigmáticas, pois, de um lado, goza dos prestígios mágico-religiosos pré-helênicos (domínio sobre os animais, catábase xamânica). Morfologicamente, aproxima-se de Zálmoxis (§ 179), também fundador de Mistérios (por meio de uma catábase) e herói-civilizador dos getas, esses trácios "que se acreditavam imortais". 3) Orfeu é apresentado como o fundador de iniciações por excelência. Se o proclamam como "antepassado de Homero" é para melhor salientarem a importância da sua mensagem religiosa. Esta contrasta radicalmente com a religião olímpia. Ignoramos o essencial da iniciação tida como "fundada" por Orfeu. Dela conhecem-se apenas os atos preliminares: vegetalismo, ascetismo, purificação, instrução religiosa (hieroi lógoi, livros). Dela também se conhecem as pressuposições teológicas: a transmigração e, por conseguinte, a imortalidade   da alma  .

O destino post mortem   da alma constituía, como já vimos (§ 97), o objetivo das iniciações eleusinas, mas os cultos de Dioniso e Apolo também envolviam a sorte da alma. Parece, portanto, plausível que, nos séculos VI e V, se tenha visto na figura mítica de Orfeu um fundador de Mistérios que, mesmo inspirando-se nas iniciações tradicionais, propunha uma disciplina iniciatória mais apropriada, já que levava em conta a transmigração e a imortalidade da alma.

Desde o princípio, a figura de Orfeu surge sob os signos conjugados de Apolo e Dioniso. O "orfismo" desenvolver-se-á na mesma direção. Não se trata de um exemplo isolado. Melampo, o adivinho de Pilos, embora fosse o "preferido de Apolo", foi ao mesmo tempo "quem explicou aos gregos a figura de Dioniso, o sacrifício que lhe é oferecido e a procissão do phallós" (Heródoto, II, 49). Aliás, como vimos (§ 90), Apolo tinha certa relação com o Hades. Por outro lado, ele terminara por fazer a paz   com Dioniso, que acabava de ser admitido entre os Olímpicos. Essa aproximação entre os dois deuses antagônicos não é destituída de significado. Será que o espírito grego não exprime dessa maneira a sua esperança de encontrar, através de tal coexistência entre os dois deuses, a solução para as crises desencadeadas pela ruína dos valores religiosos homéricos?


[1Mesmo a valorização das fontes muda de uma categoria para a outra: os cépticos dão ênfase à pobreza dos documentos e à sua data tardia; os outros cuidam que não se deve confundir a data de redação de um documento com a idade do seu conteúdo; que, por conseguinte, utilizando, com rigoroso espírito crítico, todos os testemunhos válidos, estamos capacitados a apreender a mensagem essencial do orfismo. Essa tensão entre duas metodologias responde a uma oposição filosófica mais profunda, atestada na Grécia desde o século VI e ainda sensível em nossos dias. "Orfeu" e "orfismo" constituem um dos temas por excelência que desencadeiam quase automaticamente as paixões polêmicas.

[2Lira ou pequena harpa primitiva, de três, quatro e, mais tarde, sete cordas. (N. do T.)

[3"Nada lhe concederam (os deuses), isto é, apenas permitiram que vislumbrasse uma sombra da mulher a quem ele fora buscar, e isto porque, como não passasse de um simples tocador de cítara sem coragem, não soubera morrer por amor ao seu amor, como Alceste, quando procurou meio de penetrar vivo nas regiões do Hades. Os deuses, irados, castigaram-no pela sua covardia e fizeram com que ele fosse morto por mulheres!" (Platão, Banquete, 179 d — tradução de Jorge Paleykat.).

[4Cf. Guthrie, Orpheus, pp. 40 s., p. 66 e fig. 9, cf. prancha 6.

[5O. Kern, Orphicorum fragmenta, n.° 113, p. 33. As Musas reuniram os membros e os enterraram em Leibethria, no maciço do Olimpo.

[6M. Eliade, Le Chamanisme et les techniques archaïques de l’extase (2.a ed., 1968), pp. 307-308.

[7Num momento em que se conheciam melhor as populações "bárbaras" da Trácia, e inclusive os citas que viviam como nómades ao norte do mar Negro.

[8Cf. a lista das localizações do culto de Orfeu na Trácia em R. Pettazzoni, La religion dans la Grèce antique, p. 114, nota 16.

[9A Katábasis eis Hádou (Kern, Orph. fr., frags. 293 s., pp. 304 s.). A catábase da Odisseia (XI, especialmente versos 566-631) comporta provavelmente uma interpolação "órfica".

[10Guthrie lembra um passo da Alceste, v. 578, que mostra Apolo cercado de linces e leões, e da corça que "dançava ao som da cítara"; The Greeks and their Gods, p. 315.

[11Apolo reduz ao silêncio os oráculos proferidos por Orfeu em Lesbos (Filóstrato, Vida de Apolo, 4, 14). Trata-se de um gesto de ciúme do deus, ou de uma incompatibilidade entre as duas técnicas oraculares, "xamânica" e pítia?