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Couliano Cosmos

segunda-feira 28 de março de 2022

    

Demonização do Cosmos e Dualismo   Gnóstico
As mudanças nas perspectivas cosmológicas, antropológicas e escatológicas do período clássico, durante o Helenismo e a época romana, foram objeto de pesquisas notáveis por M.P. Nilsson, W. Nestle e E.R. Dodds. O novo Zeitgeist comporta a transcendência   radical da divindade, a multiplicação dos sistemas intermediários entre a divindade   e o mundo, o tema quase unitário da escatologia celeste.

A partir do século I DC, a escatologia celeste se combina com a demonização do cosmos, triunfante nos sistema gnósticos  , do tipo sírio-egípcio ou do tipo iraniano.

No século V AC propagam-se ideias relativas as relações almas-astros e no século I DC se atribui um caráter demoníaco às esferas celestes. Entre os séculos IV e II AC surge um representação intermediária: o inferno celeste.

  • Escatologia celeste, mesmo se ela representa um motivo de data mais antiga só se impõe com os mitos de Platon   - Platão.
    • Primeira alusão na Grécia à imortalidade   celeste, parece ser o epitáfio dos guerreiros mortos em 432 em Potide: «O éter   recebeu suas almas, a terra   seus corpos». Um complexo   mítico e ideológico difundido no século V põe em relação a alma   humana, imortal ou não, com as alturas celestes.
    • Louis Rougier sustentou a hipótese da origem pitagórica da crença na imortalidade celeste das almas.
    • Tese de Rougier contestada por Franz Cumont  , que mesmo assim não nega a existência   deste complexo   mítico e ideológico no pitagorismo, mas defende uma origem iraniana, enquanto a ordem   caldaica dos planetas seria de origem babilônica.
    • Walter Burkert   destrói as teses de Rougier, acentuando as influências orientais, mas também arcaicos.
    • Conclui-se que no século V na Grécia tem início a cristalização de um complexo mítico arcaico concernente às relações almas-corpos celestes.
    • Os mitos escatológicos de Platão situam o inferno no abismo   do Tártaro que atravessa de ponta a ponta a terra esférica e imóvel   no centro   do universo  . O céu é reservado a existência feliz do filósofo, cuja alma recuperou, pelo exercício do desapego  , as asas perdidas quando do evento funesto da descida no corpo. Há duas zonas celestes onde sua existência continua após a morte: uma sobre a superfície da terra (a «Verdadeira Terra» ou as Ilhas aéreas dos Bem-aventurados), onde desfruta de imponderabilidade e outras faculdades   especiais, por exemplo do contato direto com os deuses, e outra situada mais alto, lá onde contempla-se direta e imediatamente as essências hyperouranianas, as ideias.
    • Problema da origem em aberto; provavelmente Heraclides (Heráclido do Ponto); papel do estoicismo   elevando para o Alto o Hades subterrâneo; convívio de dois infernos: celeste - ouranização da escatologia e sublunar - imortalidade celeste x desvalorização da existência terrestre (dualismo platônico; Empedocles   - Empédocles; tradição   órfica; tradição pitagórica - (vide Pitagoras).
      • Separação   entre mundo sublunar e supralunar: invalidada a origem   da teoria   pitagórica, considerada de fato de origem provavelmente aristotélica. Mas aceita por Walter Burkert a acousma pitagórica em Iamblichus   - Jamblico que transmite a crença segundo a qual as Ilhas dos Bem-aventurados seriam Sol e a Lua   (etapa intermediária no caminho   solar), enquanto existiria um purgatório atmosférico das almas desencarnadas, já que os pitagóricos consideravam o ar como povoado de demônios (daimon  ), a região a ser atravessada para alcançar os lugares da beatitude   celeste. A ideia de metensomatose, que seria de origem pitagórica, provinda da Índia passando pela Pérsia, é repensada por Walter Burkert como de proveniência órfica, do sul   da Itália, tendo sido remanejada por Pitagoras, e implicando em uma concepção pessimista da vida terrestre, ilustrada no dualismo platônico. A metensomatose com suas variantes e correlações dualistas tem um efeito sobre as representações do inferno, como no caso de Platão que é aceita juntamente com a afirmação de um inferno subterrâneo, para punição.
      • A soma-sema platônica faz alusão a duas doutrinas diferentes, onde uma somente é órfica (soma-phroura  ). soma - Corpo túmulo da alma. Doutrina   de origem órfica (soma-phroura), representada na dualidade platônica soma-sema.
      • pecado, originário da literatura órfica, causou a decadência do homem; alusões em Empedocles e Píndaro  ; os palaioi   theologoi te kai manteis de Filolau (vide Pitagoras) é órfico, sustentando que a alma está enterrada no corpo por causa   da punição de certos pecados (dia tinas timorias). A doutrina da metensomatose com suas variantes e suas correlações dualistas, tem um efeito imediato sobre as representações do inferno; podendo o inferno até ser considerado supérfluo, o que não acontece, tendo um papel como lugar de punição dos pecadores em Platão.
    • O motivo do inferno celeste não existe em Platão, mas pode ser deduzido da escatologia celeste platônica, remanejada por Xenocrates, Crantor ou por Heraclides.
    • O estoico Posidonius (130-146 AC) parece ter sido o propagador do motivo do inferno celeste; a física   estóica não aceita bem um idéia de escatologia subterrânea: a alma sendo um sopro ardente, tem tendência natural a se elevar para as alturas celestes. Posidonius combinou dados estóicos com o pitagorismo platônico de sua época e velhas crenças astrais do Oriente.
    • Prevalece a hipótese hoje em dia de Heraclides como aquele que transformou a escatologia platônica, substituindo o inferno subterrâneo por um inferno celeste; Ele teria frequentado a Academia em 364. Um tratado dele contendo história de catalépticos célebres seria a base da concepção do inferno celeste.
    • Proclus   também relata uma história sobre a morte de um certo Cleonymes de Atenas, sendo sua alma liberada do corpo e lançada nos espaços siderais, de onde contempla a terra em baixo «lugares de diferentes formas e cores e rios que nenhum mortal pode ver». Junto com outro cataléptico, veem as "almas que são julgadas e punidas e purificadas uma após a outra sob o controle da Eríneas. J.D.P. Bolton acredita que esta passagem é um testemunho irrefutável a respeito do inferno celeste (vide Mito de Er  ).
  • Demonização do cosmos
    • Apresentação de documentos concernentes a escatologia e o inferno celestes a partir da época romana, e seguir a gradual “demonização” do cosmo até os sistemas gnósticos.
    • A escatologia celeste substitui em geral à escatologia ctonitana; inferno subterrâneo continua a ter papel importante ao lado do inferno celeste.
    • Divindades telúricas dos mistérios se tornam urânicas: não apenas Perséfone  , mas Cibele  , enquanto Attis se torna divindade solar; Hades subterrâneo permanece ainda no século IV: Damascius  , Apuleio  ; Osíris e Sarapis, divindades dos mistérios ctonianos se transforma em deuses celestes.
    • A tradição do inferno subterrâneo, com seus clichês literários, perde credibilidade, dái a abundância   de interpretações alegórica; Virgílio guarda a decoração e a geografia, no entanto destrói a validade destas representações. Ele fala da “purificação, da ascensão  , da transmigração das almas”. Os Infernos estão localizados na atmosfera e a alma aí é purgada quando da travessia das zonas do ar, da água pluvial e do fogo  . Não há concordância sobre o lugar do inferno aéreo: parte mais baixa da atmosfera, assombrada pelos demônios maus, ou toda zona sublunar. Ampliada pelo peso de seus pecados, a alma celeste se torna a presa dos ventos. O papel da lua nestes complexos escatológicos se torna fundamental. É aí que se produz a cisão entre a razão   (nous) e a alma (psyche), a qual se dissolve lentamente no reino de Perséfone. O Styx, que delimita este reino, se estende desde a esfera lunar até a terra e ao mais profundo do Tártaro. A lua em sua passagem absorve as almas purificadas e rechaça aquelas que não merecem ainda ascender à existência celeste. “Enquanto criadora e receptora das almas, enquanto região da segunda morte que, cedo ou tarde, porta   a psique à quietude   da existência elementar, enfim, enquanto lugar de julgamento   do bem e do mal, (a lua) tem, com efeito, uma grande influência sobre a vida humana, que vê nela a epifania   de sua melhores esperanças, a meta de suas nostalgias mais secretas”.
    • Teorias consideradas “aberrantes” por Franz Cumont, tomarão uma enorme importância a partir do século I dC: “só fazem começar o estadia dos justos acima da esfera das estrelas fixas, e estendiam até as provações purificatórias das almas, que estas fossem queimadas pelos fogos do sol e lavadas pelas águas da lua, ou bem que elas devessem passar através dos círculos planetários, entre os quais se repartiam os quatro elementos”.
    • Breve quadro da situação do inferno, celeste ou não, na literatura apocalítica judaica   e judaica-cristã:
      • Segundo o Enoque   Etiópico (séc. II aC), os mortos habitam a terra, o mundo inferior   e o inferno, e entre eles (os Justos e os Santos). No juízo final, diz um outro apócrifo  , Satã será vencido, os pagãos serão punidos e os ídolos serão destruídos. Israel   se elevará, vencerá a águia de Roma, e Deus   o receberá nos céus, enquanto seus inimigos irão para o inferno. Como em Philon   o inferno está situado aqui sobre a terra. É o lugar onde viverão os pagãos, enquanto Israel continuará sua existência escatológica “no santo éter”.
      • Sempre no primeiro Enoque, o patriarca visionário, guiado pelo arcanjo   Uriel que, em uma das listas angelológicas do apócrifo, se ocupa do mundo humano e do Tártaro (enquanto antes ele tinha justamente a função de vigiar   sobre as sete estrelas que pecaram e sobre “a prisão dos anjos  , onde serão presos para sempre”), chega a um deserto   horrível e vê “sete estrelas como montanhas ardentes”. Uriel lhe explica que se trata das sete estrelas que não escutaram as ordens divinas e não atenderam aos termos prescritos. Um dos capítulos concernindo o Julgamento fala de sete montanhas de metal que aparecerão diante do Messias   e “se fundirão diante dele como a cera esquentada pelo fogo”, caindo sem poder.