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Semelhanças Arda Viraf Divina Comedia

Semelhanças entre a “Narração de Arda Viraf” e a “Divina Comédia”

segunda-feira 28 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Tradução de Antonio Carneiro

    

De somente uma leitura deste resumo da narração de Arda Viraf, podem se apreciar as grandes semelhanças entre esta e a divina Comédia  . Nossa intenção   não é dar uma enumeração e descrição detalhada de similitudes, mas sim entregar algumas referências , que possam guiar   posteriores estudos da “Narração de Arda Viraf”. Entreguemos, então, algumas chaves.

a.- A existência   de uma viagem   iniciática

Não há dúvida possível quanto a que ambos os textos superam a simples literatura; indo mais além inclusive de seu grande valor   poético. Um dos expositores mais autorizados do pensamento   tradicional do século XX, assinala com exatidão: “Quem considerar a Divina Comédia de Dante como uma pura fantasia, na realidade não a compreendeu de todo, e quem a viu como uma construção conceitual envolvida com uma roupagem poética não lhe faz justiça” [1].

A obra de Dante se deve situar dentro daquilo que é a Arte sagrada, a qual não só busca simetria ou beleza formal, mas sim antes de tudo e em primeiro termo a Verdade, da qual justamente derivará a harmonia  . Uma obra será verdadeira enquanto estiver baseada na suprema realidade e não em meros acidentes. Daí que o fundamental seja entregar verdades tradicionais, e não científicas (quer dizer, hipóteses suscetíveis de revisão, a qual demonstra o relativismo   que domina nas ciências modernas). Portanto, seu valor não se baseia em uma lógica   de ordem   racionalista, mas sim intelectual, entendendo por esta palavra o conhecimento que é revelado pelo centro   espiritual e que se representa pelo coração  .

Ao igual que a “Divina Comédia”, o relato de “Arda Viraf”, entrega dados baseados em modo direto à “Daena   Vanguji” (Boa Religião), como os zoroastrianos chamam sua doutrina   espiritual, e não é o mero produto de uma fecunda imaginação  , nem tem por fim um prazer estético. Estas obras são instrutivas de elementos   tradicionais, que a comunidade pra qual são dadas deve resgatar e sentir sua plena intimidade.

Assim, descrevem o que é um caminho   iniciático, uma verdadeira “Via Crucis  ”, que há de percorrer o narrador (Dante e “Arda Viraf”), e que vai desde o inferno, passando pelo purgatório, ao céu. Os protagonistas são guiados por seres altamente qualificados (Virgílio e São Bernardo, no caso da “Divina Comedia; e “Sarosh” e “Arda” na “Narração”), quer dizer dotados de pleno   conhecimento da trilha espiritual. Isso é alusivo à necessidade   do Maestro ou Guia espiritual.

O estudioso Mario Antonioletti em seu importante ensaio sobre a “Divina Comedia”, faz patente o dito por Titus Burckhardt  , e indica a via seguida por Dante: “O caminho percorrido por Dante, na Divina Comédia, é o que os orientais designam como “gnani-yoga  ”, o caminho da contemplação   e do conhecimento” [2]. Com efeito, Dante é guiado pelo Mestre (chame-se Virgílio ou São Bernardo), quem lhe mostra as distintas etapas e lugares de toda sincera busca espiritual, as quais o iniciado   irá conhecendo em um caminho que é ascendente.

b.- A presença   de “acompanhantes” ou “guias” no peregrinar.

Em “Divina Comedia” serão Virgílio e São Bernardo. Uma tal eleição não é casual. Enquanto o primeiro representa a sabedoria   do mundo antigo; o segundo, a sabedoria cristã.

No “Arda Viraf Namak” , são dois   anjos   ou yazds (yazatas): Srosh y Adar , os que guiarão o narrador. O primeiro, sem lugar a dúvidas, é o Yazd ou Yazata (anjo) conhecido como Sarosh , é quem vela pela alma   durante os três primeiros días da muerte  . Srosh (em pehlevi ), Sraosha ou Sarosh , é além disso “aquele que ouve”, um mensageiro de Ahura Mazda  . O segundo, é o Atar, ou Atash, da língua persa (Adar é palavra pehlevi ), quém em sua qualidade   de anjo que representa o fogo  , ocupa um lugar central na angelologia mazdeísta. O elemento ígneo em simbólica zoroastriana é sinônimo de pureza  , luz e sabedoria divina.

Acerca de Sarosh , o iranólogo Henry Corbin   indica algo que é revelador:

“Assim, por uma parte, o anjo Sraosha vela sobre o mundo adormecido; é o anjo tutelar e o cume de uma solidariedade de migradores que “velam” sobre o mundo e pelo mundo...” [3].

Desta forma, enquanto Adar ou Atar é a luz   sapiencial que guia e abriga, Sarosh é o anjo que protege o homem   durante as provas próprias do caminho espiritual.

Em um hadiz que recolhe Miguel Asín Palacios (“Dante y el Islam”, op.cit., p.32) se indica que Mahoma   é despertado por duas pessoas, as quais segue. “Chegados a Jerusalém, começam as visões de além tumba ”.

c.- A viagem a outros mundos: inferno, purgatório, céu.

A busca da compreensão das distintas manifestações da Realidade, necessariamente nos deve levar a conhecer três aspectos ou reinos, que são inferno, purgatório e céu.

Inferno. É a etapa ou lugar do caos  , onde a matéria é dura e terrosa. As sombras e a morte dominam. O negro o simboliza. Aqui Saturno é o astro   reitor. A ação é descontrolada e pouco fluída, dado o predomínio da matéria densa, pouco espiritualizada. Daí que “o fundo do Inferno é a zona mais pétrea e gelada da “terra  ”; e esta “petrificação” do espírito   no sentido negativo (de distanciamento progressivo do dinamismo espiritual), é operado pela paixão da soberbia ...” [4].

Purgatório. Na Alquimia   é a etapa ou lugar dos lavados, as contínuas purificações da matéria prima, a que se torna em mercúrio   segundo.

O tempo se encontra “estacionado”. É o “Hamistagan” zoroastriano, ou seja o “eternamente estacionário”. A ação e a contemplação estão em estranho equilíbrio; pelo qual não há avanço nem retrocesso espiritual. Ali se acham aqueles que em vida lograram perfeita igualdade de ações positivas e negativas.

Céu. Aquele que os alquimistas ou filósofos pelo fogo chamam “nosso rei” há sido coroado. A imortalidade e a bem-aventurança   são conhecidas. A tríada zoroástrica (bons pensamentos - boas palavras - boas ações) se cumpre perfeitamente. Predomina a contemplação, a qual se expressa na “Narração” nas alabanças e no estado   de perpétua paz   que só no céu achamos.

d.- Simbologia numeral.

Os casos dos números 7 e 3 são evidentes. Para o texto de Dante, sete são os pecados, sete as bem-aventuranças, sete os céus e sete os dons do Espírito. Já temos indicado alguns exemplos de aplicação deste número   no livro de Viraf . A respeito do três, ambos escritos nos falam de três reinos: purgatório, céu e inferno; Dante considerará três formas de corrupção (incontinência, bestialidade, malícia  ) [5]; etc.

Alguém poderia argumentar que praticamente não encontramos no “Arda Viraf Namak” , o número 9, que é muito importante para Dante, o que se faz evidente   tanto em sua “Divina Comedia” , como na “Vida Nueva”. Sendo o 9 múltiplo de 3, não consideramos que haja necesidade de maior aprofundamento; menos contradição. Agreguemos que os números 3, 7 e 21 são essenciais no Zoroastrismo. O “Yatha Ahu Vairyo” (a oração   com a qual “Ormuzd” (“Ahura Mazda”) ataca a “Ahrimán” (“Angra Mainyu”) está composta de 21 palavras, como 21 seriam os capítulos do “Avesta” primitivo. No “Ribayats Persa” (a correspondência entre mazdeístas iranianos e aqueles que fugiram da dominación árabe para a Índia — os célebres “parsis” — , que é um compêndio de assuntos doutrinais e cosmológicos) se faz um estudo sobre a analogia entre dita oração e os 21 capítulos do “Avesta” . Notemos que 3 x 7 = 21.

e.- Tipologia de pecados y castigos infernales

Comum à “Divina Comedia” e à “Narração”, é a construção de uma enumeração, e inclusive classificação, dos pecados e das sanções às que são sometidos aqueles que se encontram no inferno.

O românico e o gótico tomaram uns tais motivos para expressá-los de forma majestosa na pedra  .

Ao iniciar   este artigo, vimos uma surpreendente semelhança   entre um capitel espanhol, um extracto da “Narração” e “A Divina Comedia”. Mas, poderíamos achar ainda mais. Assim, por exemplo, é comum na escultura e pintura medieval e renascentista a seguinte imagem, que encontramos no “Arda Viraf” [6]:

“Ô Também vi a alma de um homem que estava dependurada em plena atmosfera, e cinquenta demônios o açoitavam, pela frente, e por detrás, com dardos em forma de serpentes  ”.

Ou esta outra:

“Ô Também vi a alma de um homem que, desde a cabeça   aos pés, permanecia estirado em um tornilho de tortura, e mil demônios o atropelavam com grande brutalidade e violência” [7].

f.- Outras semelhanças.

Como foi indicado, não é o objetivo deste trabalho   analisar cada uma das possíveis semelhanças entre ambos textos, mas sim tão somente dar alguns exemplos instrutivos. Outras similitudes que achamos ao: o simbolismo da ponte; o encontro com a luz divina; as distintas esferas celestiais; etc.

Conclusão
Finalmente uma pergunta legítima de se fazer: Como Dante pode ter acesso à esta antiga obra iraniana ou à sua lenda? Eis aqui um problema difícil de resolver.

Uma possibilidade seria que através do contacto com ambientes muçulmanos iranianos (literatura especialmente), nosso autor tenha lido ou ouvido a história de “Arda Viraf” . Isso não é impossível, dado que é conhecido o fato que Dante teve acesso a literatura islâmica.

Outra hipótese: graças a sua proximidade com os templários, os quais estiveram dois séculos no Oriente, tiveram trato direto com os custódios da sabedoria em ditas terras, entre outros os “Sufis”. Muitas irmandades sufis consideram a Zarathushtra   um verdadeiro Profeta, pelo qual são respeitosas de sua doutrina.

Una terceira, devido a sua pertinência em sociedades esotéricas, como os “Fiéis de Amor”, as quais teriam podido ter vínculos com os persas. Recordemos que a poesia amorosa persa é o ancestral da obra dos provençais e dos grandes poetas como Dante.

No entanto, estimamos que o fundamental não deve ser tanto o determinar como Dante pode acceder à história de “Viraf” e sua viagem; mas sim mostrar como distintas formas tradicionais podem aproximar-se em seus conteúdos e buscas, motivação subjacente deste breve percorrido por fecundas regiões da ancestral sabedoria iraniana e da cristã ocidental, fontes comuns de luz e paz.


[1Ciencia moderna y sabiduria tradicional, Titus Burckhardt, Taurus Ediciones, Madrid, 1982, p.105.

[2El simbolismo de la Divina Comedia, Mario Antonioletti, Instituto Chileno-Italiano de Cultura, Santiago de Chile, 1957, p. 65.

[3El hombre de luz en el sufismo iranio, Henry Corbin, ediciones Siruela, Madrid, p. 72.

[4El simbolismo de la Divina Comedia, Mario Antonioletti, Instituto Chileno-Italiano de Cultura, Santiago de Chile, 1957, p. 64.

[5Vide: La Divina Comedia. Dante Alighieri. Op. cit ., Inferno, Canto XI.

[6Arda Viraf Namak , Capítulo XXVIII.

[7Arda Viraf Namak , Capítulo XXXI.