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O Pensamento Vivo de Buda

Coomaraswamy (PVB:72-79) – Gotama: Passagens Autobiograficas

Buda e os Arahants

sexta-feira 23 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Eu também, monges, antes do meu total despertar  , quando era ainda bodhisattva, não totalmente desperto, e pelo fato de que estava sujeito   ao nascimento devido ao eu, buscava o que estava igualmente sujeito ao nascimento, etc. Veio-me esta ideia: "Por que, sujeito ao nascimento devido ao eu, busco o que é igualmente sujeito ao nascimento?... etc.

    

Outrora, meus monges, eu residia em Uruvela, sobre a margem de Neranjara, sob o Banyan dos Cabreiros; foi logo depois de ter alcançado o grande Despertar  ; meditando na solidão  , pensava: "É um mal viver   sem respeitar nem obedecer. Que eremita, que brâmane existe junto do qual eu poderia viver rendendo-lhe homenagem e respeito? Visando tornar perfeita a soma total dos hábitos morais, da contemplação  , da sabedoria  , da liberdade ainda não perfeita, eu quereria viver junto de um outro eremita ou brâmane rendendo-lhe homenagem e respeito. Mas no mundo com seus Devas - devas, Maras, Brahman   - Brahmans, em toda a raça   — eremitas, brâmanes  , Devas - devas ou homens — não vejo nenhum outro eremita ou brâmane mais perfeito nestes ramos do estudo que não o seja eu mesmo, e junto do qual, por esta razão  , poderia viver rendendo-lhe homenagem e respeito.

Então pensei: «Este dhamma   no qual recebi o despertar total, se eu vivesse junto deste dhamma rendendo-lhe homenagem e respeito?» Sobre isto, meus monges, Brahma   Sahampati, tendo desaparecido do mundo de Brahma, se apresentou diante de mim   e disse: «É bem assim, ó Altíssimo! É bem assim, bom viajante! Os que outrora foram Perfeitos, totalmente despertos, estes Altíssimos, eles também, só viveram junto do dhamma, honrando-o e respeitando-o. Os Altíssimos que virão no futuro farão o mesmo. Que o Altíssimo, senhor, que é agora um Perfeito, um totalmente Desperto, só viva junto, do dhamma, honrando-o e respeitando-o.»

E Brahma Sahampati acrescentou ainda isto:

Os Budas perfeitos que se foram
os Budas perfeitos que virão
O Buda   perfeito do presente  
e que para numerosos seres baniu o sofrimento  ,
todos viveram honrando o verdadeiro dhamma,
vivem e viverão: Tal é o seu Caminho  .
Assim aquele a quem o Eu é precioso
e que deseja ardentemente o Grande Eu,
deve prestar homenagem ao dhamma
lembrando-se da palavra de Buda
[Anguttara Nikaya, II, 20-21, cf. S. I, 138.]

Quando estais reunidos, ó monges, de duas coisas uma podeis fazer: seja falar do dhamma, ou guardar o silêncio   ariano. Estas, monges, são as duas buscas: a busca ariana e a busca não-ariana. Em que consiste a busca não-ariana?

Tomai o caso de um homem   que, sujeito ao nascimento, devido ao eu, busca o que é igualmente sujeito ao nascimento: uma mulher e filhos, escravos de ambos os sexos, ovelhas, cabras, galos e porcos, elefantes, gado, cavalos e éguas, ouro e prata; e que, sujeito à velhice, ao declínio, à morte, à dor  , à impureza, sempre devido ao eu, busca o que está igualmente sujeito a estes estados (enumeração como esta acima, exceto o ouro   e a prata que são omitidos dos casos de declínio, de morte, e de dor). Eis aí a busca não-ariana.

E qual é, então, a busca ariana? Neste caso um homem sujeito ao nascimento devido ao eu, mas tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao nascimento, busca o não-nascido  , a mais absoluta segurança contra a escravidão [1], o Nirvana. Um homem, sujeito à velhice devido ao eu.. . busca o que não envelhece, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o Nirvana. Um homem, sujeito à dor devido ao eu... busca o que não conhece a dor, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o Nirvana. Um homem sujeito à impureza devido ao eu, tendo visto o perigo no que é igualmente sujeito à impureza, busca o imaculado, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o Nirvana. Eis aí a busca ariana.

Eu também, monges, antes do meu total despertar, quando era ainda bodhisattva, não totalmente desperto, e pelo fato de que estava sujeito ao nascimento devido ao eu, buscava o que estava igualmente sujeito ao nascimento, etc. Veio-me esta ideia: "Por que, sujeito ao nascimento devido ao eu, busco o que é igualmente sujeito ao nascimento?... etc. Se (sendo) sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao nascimento, buscasse o não-nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana? E se, sujeito à velhice, à morte, à dor, à impureza devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito a estes estados, eu buscasse o que é sem velhice, sem morte, sem dor, sem mácula, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana?

Então abandonei meu lar para viver sem lar, em busca do que é bom, buscando a incomparável vereda da paz  . Eu me dirigi primeiro para junto de Alara Kalama, depois para Uddaka Ramaputta; mas do dhamma e da disciplina destes dois   (mestres) compreendi o seguinte: este dhamma não conduz à indiferença, à impassibilidade, à cessação, à tranquilidade, ao conhecimento superior, ao despertar, ao Nirvana, mas somente com Alara, até o plano de aniquilamento do eu; com Uddaka, até o plano de nem percepção nem não percepção. Então, buscando o que é bom, buscando a incomparável vereda da paz, e percorrendo a pé o Magadha, terminei por chegar a Uruvela, a Povoação do Campo  . Ali vi uma deliciosa extensão   de terreno plano, um bosque encantador, um rio que corria com águas bem claras; não muito ao longe havia uma aldeia onde era possível viver [2]. Pensei: a um jovem que está resolvido a fazer esforços, que mais necessitaria para seus esforços? Sentei-me, pois, ali, achando o local conveniente para meus esforços. Então, ó monges, sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito ao nascimento, e procurando o não-nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana, encontrei meu caminho até o não-nascido, até a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana;. . . procurando o que não envelhece... o que não morre. . . o que é sem dor. . . encontrei meu caminho até o que não conhece nem velhice, nem morte, nem dor. Então, sujeito à impureza devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito à impureza, buscando o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana, consegui o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana. Conhecimento e visão   surgiram em mim: inabalável é minha liberdade, este meu último nascimento, não mais existe novo porvir. [Majjhima Nikaya I, 161-167.]


Os que dizem, ó Vaccha: “o eremita Gotama é omnisciente, tudo vê; ele tem a pretensão de um conhecimento e de uma visão que tudo abarcam; ele pensa: “Caminhando ou imóvel  , adormecido ou desperto, eu disponho contínua e perpetuamente do conhecimento e da visão”: esses não falam de mim com exatidão; eles me descrevem mal, em traços   que são falsos e não de acordo com os fatos.

Se tu dissesses, ó Vaccha: “o eremita Gotama é um homem de triplo conhecimento”, explicando-me assim tu falarias com exatidão, não me descreverías em traços não de acordo com os fatos; tu me explicarias de conformidade com o dhamma, e um confrade em religião não teria lugar de fazer uma exposição sectária para o refutar. Pois, Vaccha, eu me lembro de muitas moradas anteriores tão longe quanto quero no passado, isto é, de um nascimento ao precedente, com todos os seus detalhes e todos seus traços. Depois, Vaccha, eu vejo com a visão purificada dos devas, que supera a dos homens, criaturas morrendo [aqui] e surgindo [alhures]. Enfim, Vaccha, pela destruição dos fluxos [asava], tendo realizado neste mundo e desde agora, graças a meu próprio conhecimento superior, a liberdade do coração   e a liberdade do espirito que são sem fluxos, é nesta liberdade que permaneço [3]. [Digha-Nikaya III, 28]

Do começo das coisas, em última análise, êu tenho a presciência, ó Bhaggava; tenho a presciencia daquilo e de mais do que aquilo. Tendo esta presciência, a ela não concedo importância. Não lhe concedendo importância, conheço subjetivamente esta calma que é tal que, [77] conhecendo-a intuitivamente, o Descobridor da Verdade não cai em nenhum erro  . [Digha-Nikaya III, 28.]

“ A Roda que eu pus em movimento, diz o Senhor,
a roda do dhamma, ó Sela, sem igual,
é Sariputta que continua a fazê-la girar.
É éle o herdeiro nascido ao Assim-vindo [4]
Todas as coisas próprias a ser conhecidas, são por mim conhecidas,
próprias a ser abandonadas, são por mim abandonadas,
Assim estou eu desperto, ó brâname! ·
Dissipa tuas dúvidas a meu respeito, inclina teu coração.
É de longe em longe, bem raramente, que se vêem os Despertos.
Destes homens raros, raramente vistos no mundo,
eu sou   um; médico   sem igual,
plenamente desperto, ó brâmane, tornado
tal como Brahma, superior a toda comparação  .
Todos os inimigos foram abatidos,
esmagadas as hostes de Mara, e sem medo eu me regozijo [5]. [Suttanipata 557-561.]

Minha idade está agora madura, minha vida chega a seu término; eu vos deixo, eu me vou; é ao Eu que tomei por refúgio. [Digha-Nikaya II, 120.]

O brâmane Dona aborda o Mestre e lhe pergunta:

— O venerável deseja tornar-se deva?

— Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-me deva.

— O venerável deseja tornar-se gandharva?

— Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-me gandharva.

— Yakkha, talvez?

— Não, em verdade, brâmane, também não yakkha.

— O Venerável deseja tornar-se um ser humano?

— Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-me um ser humano.

— Quem, por gosto, deseja tornar-se o Venerável?

— Brâmane, estes fluxos que, se não fossem abandonados, far-me-iam tornar deva, estes fluxos em mim estão abandonados, extirpados na raiz, tornados iguais a um cepo de palmeira, inexistentes, não suscetíveis de reaparecer no futuro. Estes fluxos que, se não fossem abandonados, far-me-iam tornar gandharva, yakkha, ou ser humano.. . todos esses fluxos em mim estão abandonados. . . não suscetíveis de surgirem no futuro. Da mesma maneira, ó brâmanes, que um loto, azul, vermelho ou branco, se bem que nascido na água, se ergue quando atinge a superfície acima dela, sem ser maculado pela água, também, ó brâmane, embora nascido no mundo, embora tendo crescido no mundo, eu vencí o mundo e permaneço não maculado pelo mundo. Reconhece, ó brâmane, que eu estou desperto [6]”.

Os fluxos pelos quais poderíam nascer
um deva, um genio do ar
um gandharva; ou pelos quais eu mesmo
poderia atingir o estado   de yakkha,
ou bem ir nascer no seio de uma mulher:
estes fluxos agora estão por mim
aniquilados, destruidos, extirpados.
 
Como um loto, puro, admirável,
pelas aguas não é contaminado,
eu não sou contaminado pelo mundo,
é por isso, bramanes, que eu estou desperto [7] [Anguttara - Nikaya n, 38-39.]

Depois de ter ensinado, despertado, incitado e reconfortado a assembleia   falando-lhe do dhamrna, entrei no estado de fogo   [8], e me elevei acima do solo à altura de sete palmeiras; após ter produzido uma chama que ardia e fumegava à altura de sete outras palmeiras, eu tornei a descer à sala dos Pinhões no Grande Bosque. [Digha-Nikaya III, 27.]


Ver online : ANANDA COOMARASWAMY – O PENSAMENTO VIVO DE BUDA


[1Yogakkhema: geralmente é a imunidade contra os dados fornecidos pelos seis sentidos (o intelecto é o sexto sentido); literalmente: repouso, cessação de aplicação«; é antes uma»recompensa do trabalho" do que a prática do domínio dos sentidos.

[2Onde poderia mendigar seu alimento.

[3A noção destes três “conhecimentos” se encontra mais desenvolvida alhures.

[4Tathagata que em outro lugar traduzimos também por “Descobridor da Verdade”.

[5Tradução inglesa por E. M. Haré, Woven Cadenees. Trata-se ainda em outra parte da questão de Sariputta fazendo girar a roda do dhamma.

[6Budiha, como na passagem precedente do Suttanipata. Ou, se se deseja “o Desperto por excelência”.

[7Seguimos F. L. Woodward, GS. II, 44-45, mas traduzimos asava pelos ‘‘fluxos” o budha por “despeito”.

[8Tejadhatu samapajjitva. Tejas é o calor, o fogo, ou a energia ardente. Esta passagem parece provir de alguma lenda apresentando Buda como uma coluna de fogo.