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Ensaios de Filosofia

Buzzi (EF) – conhece-te a ti mesmo

Homenagem à Carneiro Leão

terça-feira 6 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Excertos de Ensaios de Filosofia

    

No frontispício do templo   de Apolo, que engenhosas mãos, no sabor   da vida quotidiana pré-científica, construíram nas montanhas de Delfos  , na época do saber dos mitos da Grécia Antiga, havia inscrita a recomendação do deus  : gnooti s’autón — Conhece-te a ti mesmo  .

Essa recomendação — gnooti s’autón — hoje traduzida em todas as línguas e levada pelos mídia aos quatro cantos da terra  , se acha facilmente ao alcance de toda humanidade, embora nem sempre no sabor de seu saber.

Para significar visivelmente a compreensão sapiencial do Conhece-te a ti mesmo, os antigos gregos a cinzelaram no frontal do templo de Delfos, dedicado a Apolo. Na arquitetônica do templo — nessa magnífica representação visual, erguida no altiplano das montanhas de Delfos expressaram não só o conhecimento em que compreendiam a relação essencial entre o universo   sem fim e o Divino   Infinito  , mas também e sobretudo o conhecimento que tinham de si próprios como eixo   de conjunção entre o Divino Infinito e os existentes finitos. Por se reconhecerem nessa conjunção mediadora, nesse intermédio, deram-se a si próprios, isto é, ao homem  , o nome de microcosmos para diferenciá-la daquela outra do macrocosmos.

«O homem não é microcosmos no sentido de miniatura do mundo. O homem é microcosmos no sentido de con-juntura da identidade  , isto é, de con-juntura em que se juntam as diferenças no ser de tudo que é» (E.C. Leão, Aprendendo a pensar  , I, p. 84).

Conforme a imagem do templo, cada existente finito   do universo, na secreta trama de seu originar-se e na visível   figuração de seu constituir-se, estaria numa relação de vigor, de diferença   própria e de identidade com o Infinito. Os primeiros vates do pensamento falaram o mesmo nas palavras que chegaram até nós:

«O Infinito (ápeiron) engloba e governa tudo» (Anaximandro  ).

«Como a terra, o sol   e a lua  , também o éter   de tudo, a celeste via-láctea, o extremo olimpo e o calor dos astros: têm o ímpeto a tornar-se» (Parmênides  , frag. 10).

«E o vigor do homem, poderás compreendê-lo condignamente sem o vigor do todo?» (Platão, Fedro  , 270c).

No ímpeto de se tornarem, cada qual consoante seu vigor, os existentes finitos comparecem em cena dando a impressão   de serem comandantes de sua história, porque o vigor do Infinito neles se retrai. A experiência do retraimento do Infinito, do vigor do todo, porém, é o caminho   e jamais outro que pode outorgar ao pensamento a sabedoria   de si no questionamento dos existentes finitos.

«Pois retrair-se não é um nada puramente negativo. Retraimento pertence à dinâmica do próprio pensamento. O que se retrai até nos afeta e nos reivindica com mais vigor do que qualquer objeto. Um objeto apenas nos toca e atinge a pele, embora tocados pelo objeto quase sempre nos insensibilizemos para o que nos afeta. E nos afeta de um modo tão estranho que, ao tocar-nos como objeto, se retrai como mistério. O que assim se retrai é o que nos arrasta. No arrastão do retraimento estamos na tração do que, retraindo-se, nos atrai. (...) Na tração do retraimento, o homem é pensador» (E.C. Leão, Aprendendo a pensar, I, p. 86).

Segundo a sabedoria dos antigos, a relação proporcional mais íntima e bem ajustada entre o Infinito e o existente finito, entre o vigor do todo e o existente singular, não se realizaria no macrocosmos e sim no microcosmos, isto é, no homem, conforme a admoestação inscrita no frontispício do templo de Apolo: Conhece-te a ti mesmo. A admoestação estaria como que dizendo: reconhece, oh homem, no espelho   da consciência   que o inquieta, tua pobreza  , semelhante à do templo erguido entre a terra e o céu. Um tal reconhecimento, porém, é dificílimo como podemos ler neste fragmento de Heráclito  :

«Com o Logos   (o vigor do todo), porém, que é sempre, os homens se comportam como quem não compreende tanto antes como depois de já ter ouvido. Com efeito, tudo vem a ser conforme e de acordo com este Logos e, não obstante, eles parecem sem experiência nas experiências com palavras e obras, iguais às que levo a cabo, discernindo e dilucidando, segundo o vigor, o modo em que se conduz cada coisa. Aos outros homens, porém, lhes fica encoberto   tanto o que fazem acordados como se lhes volta a encobrir o que fazem durante o sono» (frag. 1).

O vigor do Infinito que engloba e governa tudo, o Logos que sempre é, se expande e se recolhe nos entes finitos. Parece evidente   que aqui, nessa expansão difusa e contração recolhida, podemos vê-lo na magnificência de seu ser e ouvi-lo na sabedoria de sua palavra. Bastaria, por assim dizer, uma olhadela para dentro de nós mesmos e uma atenta escuta de sua voz para reconhecê-lo e assim ingressarmos na morada   de sua luz. Heráclito, porém, nos adverte que não é tão fácil vê-lo e ouvi-lo no aconchego confortável de nossas lareiras e nem sequer percebê-lo na fúria de nossos desejos, porque não nos damos ao trabalho   de tudo discernir e dilucidar segundo o seu vigor. E ainda quando nos damos a esse trabalho, a sabedoria do Logos mais parece que se retrai e, consequentemente, nos embaraçamos não só no pouco mas até e sobretudo no muito saber das impulsões de nosso próprio ser. Uma tal experiência foi testemunhada por Santo Agostinho   nesta passagem de suas Confissões:

«Então que há de mais próximo de mim   do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso» (Confissões, livro X, cap. 16).

O discernimento   dos existentes finitos e mormente a dilucidação do homem, esse existente privilegiado, só é possível na referência ao vigor do Infinito. O Logos Infinito, porém, não é o que está fora do finito. Antes o contrário! Embora absoluto em si mesmo, no gozo feliz de sua identidade, o Logos Infinito se expande e se contrai no tempo e no espaço dos existentes finitos. Numa linguagem mais criacional, podemos dizer que o Logos Infinito, pela onipotência de sua vontade, se torna, na singularidade de cada existente finito, intenção   bem amada e bem realizada de si mesmo à semelhança   do artista que na obra de arte realiza a inspiração   bem amada de sua vontade.

«O desafio do Pensamento é a identidade. O difícil não é pensar muitos pensamentos. O difícil é pensar sempre a identidade do Pensamento em tudo que se pensa. A profundidade e dinâmica desta identidade é o vigor de um pensamento. O nível de um pensador não se avalia pela extensão   de seus temas. A originalidade de um pensamento não é a novidade. (...) como o Autor do oráculo de Delfos, não nega nem afirma coisa alguma, assinala apenas o retraimento do mistério em tudo que nega e afirma. Apresentando a riqueza   da identidade, deixa aparecer os limites de todo conhecimento e de toda reflexão  . (...)’ A identidade não tira. A identidade dá. Dá a riqueza do crescimento, por não se perder nem dispersar mas se conservar e manter nas diferenças que gera» (E.C. Leão, Aprendendo a pensar, I, p. 146).

E a presença   essencial do Logos Infinito, essa inesgotável identidade, que torna cada existente finito extremamente difícil de ser conhecido em sua diferença. Isso porque o Infinito não se dá por partes nem se dá parcimoniosamente nos existentes finitos. Ele se dá por inteiro no máximo de sua identidade. Consequentemente, para conhecer os existentes finitos, no seu esplendor maior, só temos um caminho: andarmos atentos ao quanto neles o Infinito se dá e se retrai, se mostra e se esconde, se apresenta e se ausenta. Se retrai, se esconde e se ausenta não para nos perturbar mas para mais nos incentivar à pesquisa e à busca de saberes possíveis ao nosso alcance. E esta e não outra a recomendação inscrita no templo de Apolo em Delfos: Conhece-te a ti mesmo.


Ver online : Arcângelo Buzzi