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Gobry: noûs

quinta-feira 24 de março de 2022

      

noûs   (ho): espírito  . Latim: spiritus, intellectus.

Esse termo tem dois   sentidos:

  •  substância: espírito;
  •  faculdade   mental: inteligência.

    Essa forma, usual nos filósofos clássicos, é a contração de nó-os (noos), que se encontra no dialeto jônio; o radical no designa pensamento. A linguagem filosófica emprega vários derivados:

    nóesis / noesis: Razão contemplativa.

    noerós / noeros: Intelectual.

    nóema / noema: Pensamento. Arcaico, empregado por Parmênides  .

    noetón / noeton: Aquilo que é pensado. Platão   e Plotino   empregam a palavra   no plural: noetá / noeta.

    noeîn (verbo) / noein: Ato de pensar. É encontrado em Parmênides, Platão, Aristóteles   e Plotino.

    énnoia / ennoia  : Pensamento (intelectual). Empregado por Platão e Epicteto  .

    diánoia / dianoia: Razão raciocinante.

    epínoia / epinoia: Pensamento. Em Pitágoras  .

    eúnoia / eunoia  : Benevolência. Em Aristóteles.

    prónoia   / pronoia: Providência divina. Especificamente nos estoicos  .

    hypónoia / hyponoia: Conjectura  . Em Marco Aurélio  .

    ágnoia   / agnoia: Ignorância.

    Encontramos o termo noûs empregado desde a origem   tanto no sentido meta  físico quanto no psicológico. Diógenes Laércio (I, 35) cita um aforismo de Tales: "De todos os seres, [...] o mais rápido é o Espírito (nous), pois ele percorre tudo." Essa palavra pode ser entendida nos dois sentidos. Pitágoras também emprega alternadamente os dois sentidos. Diz ele: "A Mônada, que é Deus   e Bem, é o próprio   Espírito" (Aécio, I,VII, 18).Trata-se,pois, de uma realidade   substancial. Mas, em outro lugar  : "Nossa alma   é formada da tétrade, a saber: inteligência (noûs), ciência, opinião, sensação  " (íbid., I, III, 8). Aqui se trata de uma faculdade mental.

    Foi Anaxágoras   que deu ao noûs toda a sua importância metafísica. Ele apresenta eternamente duas realidades, uma material - o caos   (ápeiron) - e outra espiritual - o Espírito (noûs). O Noûs, potência ativa, organiza o caos, potência passiva, e com ele faz o mundo (D.L., II, 6). Assim, o Indeterminado   é potência (dynamis / dynamis) (Aristóteles, Met., T, 4), enquanto o Espírito é ato (enérgeia / energeia  ) (ibid., A, 6). Anaxágoras escreve: "O Espírito é eterno (fr. 14), autônomo (autokratés / autokrates), existe separadamente (uóvoç), sem se misturar a nada" (fr. 12; Aristóteles, Met., Lambda, 8). E ele que realiza a separação   dos elementos   confundidos (fr. 13). Assim, "ele é o Princípio primeiro de todas as coisas", é "a causa   da beleza e da ordem" (Aristóteles, De an., I, 2).

    Heráclito   trata do noûs como uma faculdade mental: "aqueles que falam com espírito" (fr. 114):"a erudição não é um sinal de espírito" (fr. 40). Parmênides também emprega noûs no sentido de pensamento (fr. XVI); Empédocles  , no sentido de inteligência (fr. II, 8; fr. III, 13). E também Platão:"Aquele que tem espírito" (Fedão, 62e); a Realidade transcendente só é conhecida pela inteligência espiritual: nô (dativo).

    Aristóteles dá ao noûs, sucessivamente, os dois sentidos. Sentido psicológico em De anima, onde acrescenta um elemento novo; explica o conhecimento por dupla inteligência: de um lado, o intelecto passivo (pathetikós / pathetikos  ), às vezes chamado de "intelecto paciente", de acordo   com o latim, que é "como uma tábua na qual nada ainda está escrito" (III, 4); por outro lado, o intelecto ativo (poietikós / poietikos  ), chamado às vezes de "agente", "princípio causal", que produz o conhecimento, que escreve na tábua. Ora, enquanto o intelecto passivo é corruptível  , ou seja, está associado à decadência do corpo, o intelecto ativo está "separado  ", ou seja, não ligado ao corpo; "não tem mistura, é impassível", e assim "imortal e eterno" (III, 5). O sentido metafísico aparece em Metafísica: Deus é a própria Inteligência; portanto, é Espírito, realidade primeira e perfeita; o Noûs é aí a mais divina das realidades; ele é o próprio Ato de pensar (Met., Lambda , 9). v. nóesis. Ademais, Aristóteles opõe ao intelecto prático (noûs praktikós), que se aplica às realidades sensíveis, o intelecto especulativo (noûs dianoetikós ou noetikós), que se aplica aos objetos mentais (De an., III, 7).

    Plotino segue Aristóteles. Do ponto de vista psicológico: "Há, por um lado, o intelecto raciocinante (logizómenos) e, por outro, aquele que possui os princípios do raciocínio. Essa faculdade de raciocinar não precisa de um órgão físico [...], está separada e não tem mistura com o corpo" (V, 1,10). Do ponto de vista metafísico, o lugar   do Noûs é um tanto relativo: ele é a segunda das Hipóstases que constituem a Realidade original. A primeira, absoluta e primeiro Princípio, é o Uno   (hén) ou o Bem (agathon  ); a segunda é o Espírito, ou Noûs, que dele procede necessariamente desde toda a eternidade  ; embora segundo, esse Noûs possui um conjunto   de atributos que fazem dele um absoluto  : ele é o lugar das Essências platônicas, a Inteligência em ato de Aristóteles, a Beleza eterna, o Ser, a Potência criadora (V, I, 5-7, 10; II; III, 1-12; IV, 2;VI, 4;VIII, 3, 5; IX, 3-9; I,VIII, 2). O homem  , por seu próprio espírito, participa do Noüs absoluto; por isso, é imortal. É esse espírito que é o instrumento da contemplação das Ideias, dos Inteligíveis (noetá) e faz o homem ter acesso à verdade   (V, I, 11; III, 3, 5-8). Por isso, ele é a essência do homem: "é próprio do homem, é a vida segundo o espírito": bios katà tòn noûn (I, IV, 4, 10).

    Marco Aurélio vai mais longe e garante que "o espírito de cada um de nós é um deus" (XII, 26).

    Para Proclo  , o Espírito é múltiplo; não é apenas o Espírito, que procede do Uno  , mas sim espíritos (noî / noi), que participam do Uno. Todo espírito é divino, ato, pensa-se a si mesmo  ; é substancial, indivisível, gerador de ideias (Teologia, 160-183). [Gobry  ]