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Mitos Platônicos

quinta-feira 24 de março de 2022

    

O uso do mito   em Platão   é ainda objeto de controvérsia. As explicações baseadas na suposição de Platão se situar no limiar de uma passagem do mito à razão   (v. Do Mito à Razão) são muito comuns, como explica Geneviève Droz (Les mythes platoniciens), inclusive reforçando seu argumento   pelas próprias críticas encontradas em Platão aos poetas, ilusionistas mentirosos, rejeitando a ficção poética enquanto opinião   incerta e suspeita. No entanto, surpreende a todos os estudiosos da Obra de Platão como esta se nutre de relatos míticos: tomados da tradição  , manipulados ao gosto de sua fantasia ou das necessidades da discussão, Platão chega até a inventar partes. Há poucos diálogos que não façam uso de mitos e alegorias. Pode-se até dizer que ele cria um gênero   novo, posto que o mito platônico, embora inspirado não se confundo como os relatos da mitologia grega, e as histórias lendárias tais quais aquelas legadas por Homero   e Hesíodo  .

O que é então o mito platônico? como reconhecê-lo? qual sua função na economia   do diálogo  :

1. O mito se apresenta à maneira de um «relato fictício»: imagina uma situação  , relata uma estória, que, como toda estória, compreende uma ação e personagens: é Eros  , Prometeu ou Tot, é um cativo ou um demiurgo  , é a alma   viajando no Hades   ou se nutrindo de verdades. A forma narrativa do mito, fantasista, bufona ou dramática, o aproxima da fábula, da parábola, da alegoria  , mas o distingue da simples imagem, da metáfora, do paradigma   ou da analogia   que se tece em toda obra de Platão.

2. O mito rompe com a demonstração dialética; interrompe o discurso conceitual e se propões, mais ou menos explicitamente, como um outro tipo de discurso: não mais abstrato mas imagético, não mais dedutivo mas narrativo, não mais argumentativo mas sugestivo. Faz apelo à imaginação   ao invés do raciocínio, por vezes à sensibilidade   estética ou ao sentimento religioso. Mas ao mesmo tempo que interrompe o discurso argumentado, o substitui. E precisamente quando o raciocínio não é suficiente ou não convém mais: seja por que o sujeito  , frequentemente o interlocutor de Sócrates  , está incômodo em sua compreensão, seja sobretudo porque o objeto não se deixa facilmente pôr em conceitos. O discurso mítico se oferece como único a poder falar de certas coisas: o mundo sensível   em perpétuo devir sobre o qual nossa inteligência tem tão pouca apreensão  , as grandes questões essenciais da metafísica   (a alma antes e depois de sua estadia no corpo, a divindade   e o Bem...), em resumo o que é ao mesmo tempo aquém e além do discurso possível da filosofia.

3. O mito não enquanto tal um método para buscar a verdade, é um meio para expôr o verosímil. Se se exclui os casos limites dos relatos alegóricos, da finalidade essencialmente lúdica ou pedagógica, simples «auxiliares» a serviço da reflexão ou da compreensão, o mito, intervindo aí onde a dialética se mostra inoperante, não pode pretender à verdade: propõe, como bem mostrou Victor Brochard (LES MYTHES DANS LA PHILOSOPHIE DE PLATON), uma hipótese plausível ainda que não verificável, «sugere o provável». Este provável por conseguinte não deve ser subestimado: se é o que se pode dizer de melhor, pode ser também o objeto de uma forte   adesão interior, de uma intensa certeza   íntima. «Grande é a esperança  » que aportam por exemplo os mitos escatológicos, se «a eles se adiciona fé».

4. Se o mito não tem pretensão à verdade certa, tem pretensão sim ao sentido. Não deve ser lido ou escutado por si mesmo  : tem um sentido oculto  , é portador de mensagem, demanda portanto ser superado, traduzido, interpretado, decifrado; e se o autor não dá por vezes chaves de uma decifração possível (como no caso da alegoria, cujo sentido é explicitado imagem após imagem), o mito permanece frequentemente muito livremente aberto em muitos níveis de significação que um simples comentário não poderia esgotar.

5. O mito contém implicitamente uma dupla «intenção   pedagógica»: a princípio, certamente, porque esclarece o interlocutor em dificuldade   e desembaraça o espírito   fatigado, ou se faz o sustentador de uma discussão que escorrega e patina. Neste caso, ajuda   tanto à reflexão quanto à compreensão, mesmo se não é senão um intermediário   (metaxu) ou uma propedêutica  . Mas — altamente educador — aspira também a «tornar melhor», mais «corajoso» no Mênon, mais sereno diante da morte nos mitos escatológicos... O mito não tem somente uma «moral», no sentido onde se diria das fábulas de Esopo  , é um estimulante moral às vezes mesmo um fermento   espiritual. Eis em que é superior (Fedro  , 245c) às fábulas homéricas que desnaturalizam o divino, mais «útil» que o discurso sofístico (Mênon, 86b) que entretém preguiça   e abandono intelectuais, eventualmente mais «eficaz» mesma que a demonstração dialética, posto que dinamiza a investigação, alimenta a fé e enriquece a esperança.