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Fedro 262c-265c — Exames dos discursos de Lysias e de Sócrates

quinta-feira 24 de março de 2022

    

SÓCRATES: - Queres que procuremos agora, no discurso de Lísias que trazes contigo, bem como nos outros dois   que pronunciamos, quais as coisas que chamamos de arte e quais as que não o são?

FEDRO  : - Nada me daria maior prazer do que isso, pois até agora estivemos falando em regras abstratas; sem mencionar exemplos.

SÓCRATES: - Parece que, por felicidade  , os dois discursos contêm este exemplo: aquele que possui a verdade   pode, facilmente, iludir seus ouvintes. Eu, porém, caro Fedro, atribuo isso aos deuses deste lugar; mas pode ser também que os arautos das Musas  , os cantores acima de nossa cabeça, nos tenham inspirado; porque eu não tenho nenhum conhecimento da arte retórica.

FEDRO: - Pode ser; mas explica o que dizes!

SÓCRATES: - Então lê o exórdio do discurso de Lísias.

FEDRO: - "Conheces os meus sentimentos e, como já me ouviste dizer, acredito que nos será proveitosa a realização   deste desejo. Confio em que meu pedido não será feito em vão, pois não sou   teu amante. Os amantes, com efeito, ao saciarem sua concupiscência, arrependem-se... "

SÓCRATES: - Basta. Devemos verificar qual é o erro   do autor e em que ponto ele não se mostra à altura de sua arte, não é verdade?

FEDRO: - Sim.

SÓCRATES: - Não é evidente   que estamos de acordo   em certos pontos e em outros temos opiniões diferentes?

FEDRO: - Acho que entendo o que queres dizer, mas fala com mais clareza  !

SÓCRATES: - Quando alguém usa as palavras "ferro" ou "prata", não pensamos todos a mesma coisa?

FEDRO: - Naturalmente.

SÓCRATES: - Mas quando alguém diz "justo" ou "bom", não pensa um numa coisa e outro noutra? Não discordamos a esse respeito uns dos outros e até de nos mesmos?

FEDRO: - Sim, muito.

SÓCRATES: - Muito bem; então em alguns assuntos concordamos; em outros não.

FEDRO: - Assim é.

SÓCRATES: - Em que assuntos podemos ser iludidos com mais facilidade? Em qual dos dois casos a arte retórica tem mais poder?

FEDRO: - Evidentemente, em assuntos incertos e duvidosos.

SÓCRATES: - Segue daí que quem quiser dedicar-se à arte retórica, deve primeiro ter distinguido entre esses dois gêneros de assuntos e compreendido o caráter de cada um deles; deve também saber em que casos a massa   do povo duvida e em que casos a dúvida é impossível.

FEDRO: - O orador que alcançasse isso, caro Sócrates, possuiria por certo muita habilidade  .

SÓCRATES: - Sim, esse homem   nunca teria dúvida, perceberia logo a qual dos dois gêneros pertence o assunto sobre que pretende falar.

FEDRO: - É claro.

SÓCRATES: - Mas então, que diremos de Eros  ? Será ele um caso de dúvida, ou não?

FEDRO: - Evidentemente, é um dos assuntos sobre os quais paira dúvida. Ou acreditas que Eros te permitiria dizer o que há pouco disseste dele, afirmando primeiro que é uma desgraça   para o amado, e depois descrevendo-o como o maior dos bens?

SÓCRATES: - Falaste muito bem. Mas dize-me ainda uma coisa, pois, devido ao meu entusiasmo   não me recordo bem: no início do meu discurso, dei   uma definição do amor?

FEDRO: - Sim, por Zeus  , e uma definição excelente.

SÓCRATES: - Oh! então as ninfas do Aqueloo e o Pã de Hermes   devem possuir muito mais arte quanto a discursos do que Lísias, o filho   de Céfalo! Ou porventura estarei enganado? Deu-nos Lísias, no começo do seu discurso sobre o amor, uma definição de Eros? Ordenou ele o discurso de acordo com essa definição para assim o realizar? Queres ver mais uma vez o princípio do discurso?

FEDRO: - Se quiseres, eu o farei; mas o que procuras não está aqui.

SÓCRATES: - Lê, para que eu mesmo ouça o que ele diz!

FEDRO: - "Conheces os meus sentimentos e, como já me ouviste dizer, acredito que nos será proveitosa a realização deste desejo. Confio em que meu pedido não será feito em vão, pois não sou teu amante. Os amantes, com efeito, ao saciarem sua concupiscência, arrependem-se das vantagens que ofereceram... "

SÓCRATES: - Este homem, ao que parece, está muito longe de oferecer  -nos o que procuramos. Não começa o discurso pelo princípio, mas pelo fim, como alguns que tentam nadar de costas. Começa por examinar o que o amante poderia dizer ao amado depois de terminado o amor. Ou não será assim, Fedro?

FEDRO: - Sim, Sócrates, ele só trata do fim.

SÓCRATES: - E que mais diremos? Não te parece que as frases do discurso estão mal ordenadas? Nota-se que a segunda frase   deveria necessariamente ocupar o segundo

lugar, mas que o mesmo se poderia dizer das demais frases. Não sou competente em matéria de discursos, mas este me deu a impressão   de que o autor deitou ao papel sem muito cuidado   o que lhe veio à cabeça. Conheces tu alguma regra   de retórica que possa justificar a ordem adotada por ele?

FEDRO: - Lisonjeias me se pensas que eu seja capaz de penetrar todos os artifícios da eloquência de Lísias.

SÓCRATES: - Mas acho que convirás nisto: todo o discurso deve ser constituído como um ser vivo e ter um organismo próprio  ; não deve lhe faltar a cabeça nem os pés, e tanto os órgãos centrais como os externos devem estar dispostos de modo a se ajustarem uns aos outros, e também ao conjunto  .

FEDRO: - Naturalmente.

SÓCRATES: - Ora, examina o discurso do teu amigo; dize-me se ele é assim! Verás que se assemelha muito à inscrição que, segundo alguns, foi gravada no sepulcro de Midas, rei da Frígia.

FEDRO: - Que inscrição?

SÓCRATES: - Esta:

"Sou uma virgem de bronze e repouso   no sepulcro de Midas. Enquanto correr a água e as altas árvores voltares a ser verdes.
De pé, sobre este túmulo   regado de lágrimas,
Direi a todos que passam: aqui repousa Midas."

Sem dúvida, já deves ter notado que qualquer desses versos pode ocupar indiferentemente o primeiro ou o último lugar.

FEDRO: - Estás zombando do nosso discurso, caro Sócrates!

SÓCRATES: - Vamos então deixá-lo de lado, para que não te enfades, embora esse discurso oferça vários exemplos cujo exame   poderia ser muito útil a alguém que quisesse imitá-lo. Dirigiremos nossa atenção aos outros discursos, pois, a meu ver, eles contêm uma particularidade importante para os que desejam discutir sobre a arte oratória.

FEDRO: - A que te referes?

SÓCRATES: - Os dois discursos se contradizem. Um afirmava que se devem conceder favores ao apaixonado, e o outro, ao não apaixonado.

FEDRO: - E afirmaram-no com muita habilidade.

SÓCRATES: - Esperava que falasses a verdade, dizendo com muito furor: Não dissemos justamente que o amor é uma espécie de delírio?

FEDRO: - Sim.

SÓCRATES: - Mas há dois tipos de delírio: um nasce de uma moléstia da alma  , o outro de um estado   divino   que nos leva além das regras habituais.

FEDRO: - Perfeitamente.

SÓCRATES: - Em seguida, classificamos o delírio divino em quatro espécies: um era o sopro profético de Apolo; outro, a inspiração   mística de Dionísio; o terceiro, o delírio poético inspirado pelas Musas,e finalmente, a quarta espécie de delírio devia-se à influência de Afrodite e de Eros. Afirmamos que o delírio causado pelo amor é o melhor de todos. Não só como, nós   que também somos atingidos pelo sopro do deus   do amor, afastando e aproximando-nos da verdade ao fazer um discurso ao qual não faltava sentido - pudemos compor um hino mitológico ao amor, o deus dos jovens, o teu, o meu deus.

FEDRO: - Não foi sem prazer que ouvi esse panegírico.