Página inicial > Modernidade > Cassirer: Apresentação de Cassirer por Anatol Rosenfeld

Cassirer: Apresentação de Cassirer por Anatol Rosenfeld

quarta-feira 23 de março de 2022

Excertos da Apresentação feita por ANATOL ROSENFELD, à tradução em português do livro de Cassirer  , LINGUAGEM E MITO

Excertos da Apresentação feita por ANATOL ROSENFELD, à tradução em português do livro de Cassirer  , LINGUAGEM E MITO

Ernst Cassirer   (1874-1945) é considerado, pelo menos na primeira fase do seu filosofar, como um dos representantes mais marcantes da Escola de Marburg. Nascido em Breslau (Vroclav), estudou em Berlim e Marburg direito, filologia, literatura, filosofia e matemática. Foi professor em Berlim, em Hamburgo (1919-1932) e Oxford. Transferindo-se em 1941 para os Estados Unidos, lecionou na Universidade de Yale e na Columbia University.

A bibliografia de Cassirer   é extensa. Uma verdadeira história das ciências modernas é a obra em três volumes O Problema do Conhecimento na Filosofia e Ciência dos Tempos Modernos (1906 e seguintes). Em Conceito de Substância e Conceito de Função (1910) apresenta uma investigação epistemológica sobre a matemática, física e química modernas, mercê da qual procura provar que as modernas ciências exatas tendem a considerar as chamadas substâncias como pontos de partida hipotéticos de dependências funcionais, substituindo a lógica de subsunção aristotélica por uma lógica de relações. Ao contrário da maioria dos pensadores da Escola de Marburg, Cassirer   se distingue pelo profundo interesse nas pesquisas histórico-culturais, fato ressaltado por obras como Ideia e Configuração (2$ edição, 1924) e Liberdade e Forma (4A edição, 1924), nas quais examina o conceito da personalidade na civilização moderna e estuda pensadores e poetas como Leibniz  , Kant  , Goethe  , Schiller etc. Divulgação universal obtiveram obras como Indivíduo e Cosmo na Filosofia do Renascimento (1927) e A Filosofia da Ilustração (1932).

A obra principal de Cassirer   — um dos monumentos da filosofia do século XX — é a Filosofia das Formas Simbólicas (3 volumes, 1923-1929) de que o próprio autor condensou e desenvolveu algumas ideias fundamentais na famosa obra An essay on man (1944; "Ensaio sobre o Homem").

Como já foi salientado, Cassirer  , sobretudo na sua primeira fase, é considerado, por muitos, como "o mais puro e perfeito representante do neokantismo de Marburg" (Erdmann/Clemens, em Esboço da História da Filosofia) ou como "o terceiro mais importante expoente da Escola (de Marburg). . . que nas suas obras históricas e sistemáticas talvez tenha proporcionado à doutrina neokantiana a expressão mais aguda, precisa e atualmente mais eficaz" (Max Scheler  , "A filosofia alemã contemporânea", em Vida Alemã da Atualidade, 1922).

Cassirer   certamente foi, no nosso século, um dos maiores representantes do pensamento kantiano e da sua renovação marburguense. O rigor do seu pensamento não admitiu a violentação irracionalista, característica das interpretações de Heidegger   (aliás, também no campo da poesia). "Kant   é e permanece, no sentido mais sublime e belo desta palavra, um pensador da Ilustração (Aufklaerung): ele aspira à luz e à claridade, mesmo quando reflete sobre o âmago mais profundo e encoberto do Ser." Heidegger  , declara num ensaio, referindo-se à sua obra Kant   e o Problema da Metafísica, não fala como um comentador do pensamento kantiano, mas como "usurpador que, por assim dizer, penetra com o poder das armas no sistema kantiano a fim de dominá-lo e pô-lo a serviço da sua (heideggeriana) problemática".

Seria, no entanto, errado restringir o pensamento de Cassirer  , em suas fases interiores, às doutrinas marburguenses. Ultrapassa-as de longe, não só pelos interesses histórico-culturais que por vezes o aproximam da Escola de Baden, mas pela ampliação do seu processo cognoscitivo. Cassirer   adota livremente métodos fenomenológicos, sem deixar de servir-se dos resultados das ciências especializadas de que possuía um conhecimento de admirável amplitude e sem, ainda assim, nunca renegar as suas raízes kantianas.

Com efeito, a Filosofia das Formas simbólicas é, segundo comentário do próprio autor, uma fenomenologia do conhecimento, não pretendendo ser, de modo algum, uma metafísica do conhecimento. O termo conhecimento nela se define no amplo sentido de "apreensão" humana de "mundo", apreensão nunca passiva, sempre mediada pela espontaneidade enformadora da mente humana. Na ampla acepção usada por Cassirer  , o termo conhecimento não se aplica apenas ao entendimento científico e à explicação teórica, mas se refere a toda atividade espiritual em que "edificamos um ’mundo’ na sua configuração característica, na sua ordem e no seu ’ser-assim’..." Deste modo são analisadas, ao lado da função do pensamento científico, as funções da enformação linguística, mítico-religiosa e artística, cada qual diversa e cada qual instaurando mundos diversos. Em cada uma dessas formas e funções se realiza determinada objetualização, "determinada enformação não propriamente do mundo (como se houvesse mundo não enfermado), mas enformação em mundo, em significativa conexão objetiva. . ." Assim, a filosofia das formas simbólicas "não pretende estabelecer, de antemão, determinada teoria dogmática da essência dos objetos e de suas propriedades básicas, mas visa a apreender e descrever, ao contrário, mercê de trabalho paciente e crítico, os modos de objetivação que caracterizam a arte, a religião, a ciência", sobretudo, porém, a linguagem e o mito.

Pelo exposto evidencia-se a importância do pensamento de Cassirer  , mormente no campo da lógica da língua. Isto para não falar das brilhantes análises dedicadas à lógica do pensamento mítico, contra cujo emprego manipulado no mundo contemporâneo, máxime no terreno político, dirigiu as críticas contundentes da sua obra The myth of the State (1946; "O mito do Estado"). No seu todo, a obra principal de Cassirer   se afigura como uma ampla fundamentação da teoria dos símbolos ou, como se diria hoje, da semiótica. Isso foi reconhecido por Susanne K. Langer na Filosofia em Nova Chave (Editora Perspectiva, 1971), ao chamar Ernst Cassirer   "o pioneiro da filosofia do simbolismo" e ao inseri-lo entre pensadores como Russell   e Wittgenstein   que "lançaram o ataque contra o tremendo problema do símbolo e significado e estabeleceram o princípio fundamental do pensamento filosófico de nossos dias". Concomitantemente, Cassirer   esboçou, com esta obra, as bases de uma antropologia filosófica e filosofia da cultura, cuja unidade reside na atividade simbolizante do homem; unidade, todavia, que é dialética, coexistência funcional de contrários, em virtude da "multiplicidade e da polimorfía das partes constituintes", tais como mito, língua, arte, religião, história e ciência.