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Jean Wahl: A QUE SE OPÕEM AS FILOSOFIAS DA EXISTÊNCIA

quarta-feira 23 de março de 2022

    

As Filosofias da Existência
Jean Wahl  
Trd. I. Lobato e A. Torres
Europa-América
1962

    

As Filosofias da Existência
Jean Wahl  
Trd. I. Lobato e A. Torres
Europa-América
1962

CAPITULO III - A QUE SE OPÕEM AS FILOSOFIAS DA EXISTÊNCIA

Vejamos agora a que se opõem as filosofias da existência.
Podemos dizer que estas filosofias se opõem às concepções clássicas da filosofia, tais como as encontramos quer em Platão, quer em Espinosa  , quer em Hegel  ; opõem-se de facto a toda a tradição   da filosofia clássica desde Platão.

A filosofia platônica, tal como a concebemos vulgarmente, é a investigação da ideia, na medida em que a ideia é imutável  . Espinosa quer ter acesso a uma vida eterna que é beatitude  . O filósofo em geral quer encontrar uma verdade   universal   válida para todos os tempos, quer elevar-se   acima da corrente dos eventos, e opera ou pensa operar só com a sua razão  . Seria necessário reescrever toda a história da filosofia para explicar contra o que se insurgem as filosofias da existência.

A filosofia era concebida como o estudo das essências. A maneira pela qual os filósofos da existência concebem a formação da teoria   das ideias em Platão é a seguinte: um escultor para esculpir uma estátua, um operário   para construir uma mesa, consultam ideias que estão perante o seu espírito  ; qualquer coisa feita pelo homem   é feita porque ele contempla uma certa essência  . Ora, é a partir da ação do operário ou do artista que se conceberá qualquer ação. A propriedade essencial destas essências ou destas ideias é essencialmente serem estáveis. Segundo Heidegger  , este pensamento encontra-se fortalecido pela ideia de criação tal como a concebemos na Idade Média. Tudo foi imaginado como por um grande artista, a partir de ideias.

Os filósofos da existência serão levados a opor-se à ideia de essência considerada neste sentido. Heidegger diria: os objetos, os instrumentos, têm talvez essências, as mesas e as estátuas de que ainda há pouco falamos têm tais essências, mas o criador da mesa ou da estátua, isto é, o homem, não tem uma tal essência. Posso perguntar-me o que é a estátua. É que ela tem uma essência. Mas, em relação   ao homem, não posso perguntar-me: o que é, só posso perguntar-me: quem é? E neste sentido ele não tem essência, tem uma existência. Ou então dizemos - é a fórmula de Heidegger - : a sua essência está na sua existência.

Haveria aqui que mencionar uma diferença   entre o pensamento de Sartre   e o pensamento de Heidegger. Sartre escreveu: «A essência vem após a existência.» Heidegger condena esta fórmula, porque, na sua opinião  , Sartre toma nesta fórmula a palavra   «existência» e a palavra «essência» no seu sentido clássico, inverte a sua ordem, mas essa inversão não faz que ele não permaneça no interior   da esfera   do pensamento clássico. Ele não deu devidamente conta do que, para Heidegger, constitui um dos elementos   fundamentais da sua própria teoria. Esse elemento fundamental é que a existência para ele deve ser considerada como sinônima de «ser no mundo»: ex-sistere, «ser fora de si». Se vemos que a existência é isso, e não a simples realidade   empírica, chegamos a uma fórmula que não é a de Sartre: a essência vem após a existência, mas que é esta que Heidegger adopta: a essência do homem é a existência, a essência do homem é ser fora de si (Veremos que Heidegger de modo algum nega a essência - uma essência dinâmica que está no sentido mais forte   da palavra.).

A luta   contra a essência, contra a ideia, contra Platão, continua-se por uma luta contra Descartes  . Kierkegaard   disse que a fórmula de Descartes: «Penso, portanto existo», não corresponde à realidade do homem existente, dado que quanto menos penso, mais sou  , e inversamente.

É necessário recordar, sem dúvida, que ele próprio   recorre ao que chama um pensamento existencial, ou seja, um pensamento que está simultaneamente em luta com a existência e de acordo   com ela. Em qualquer caso, é muito diferente do pensamento tal como o concebe Descartes, isto é, tão universal e tão objetivo quanto possível.