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The Structure of Oriental Philosophy I

Izutsu (SOP1:77-79) – o "eu" no zen-budismo

THE STRUCTURE OF SELFHOOD IN ZEN BUDDHISM

quarta-feira 16 de março de 2022, por Cardoso de Castro

IZUTSU, Toshihiko. The Structure of Oriental Philosophy: Collected Papers of the Eranos Conference. Volume I. Tokyo: Keio University Press, 2008, p.

nossa tradução

A imagem do homem peculiar ao zen-budismo surge exatamente quando a imagem do homem, segundo o senso comum, seja ela pré-filosófica ou filosófica, é despedaçada. A imagem ordinária do ser humano em que se baseia a nossa vida cotidiana, bem como a nossa vida social, não cobre de modo algum, segundo a concepção Zen, a verdadeira realidade do ser humano. Porque o homem assim descrito nada mais é do que uma "coisa", no sentido de que ele nada mais é do que um homem objetificado, um homem enquanto objeto. E essa não pode ser de forma alguma uma imagem autêntica, porque o ser humano, segundo o Zen, é, em sua verdadeira realidade, um si mesmo absoluto.

Sem deter-se no plano do senso comum ou do pensamento empírico, onde a experiência primária da Realidade em sua pura “existência” [1] é necessariamente dividida em peças objetivadas, incluindo até mesmo o ego absoluto, o Zen propõe apreender diretamente o homem como uma individualidade absoluta antes de ser objetivado em uma “coisa”. Só então, sustenta, podemos esperar obter uma imagem verdadeira do Homem representando-o como ele realmente é, isto é, em sua real e imediata “existência”.

A imagem do próprio ser humano do Zen é assim sacada de uma dimensão que transcende totalmente a distinção - tão característica, por outro lado, do intelecto humano - entre sujeito e objeto. Como será visto, essa imagem não pode ser obtida, pelo menos enquanto insistimos em levantar a questão sob a fórmula "o que é homem". Tal pergunta terá que tomar a fórmula do "quem sou eu?". Em outras palavras: o homem deve ser percebido intuitivamente sob sua subjetividade mais íntima. Porque, por mais longe que penetremos na busca do "ser" no plano da análise intelectual, esse mesmo "ser" não resta por isso nem mais nem menos objetivado. Qualquer que seja a nossa penetração, jamais teremos uma imagem do "ser" percebido como objeto. O "ser" em si, o sujeito real da busca por si mesmo, permanece fora de qualquer pesquisa e de toda espera, esquivando nossas tentativas de acercamento. A subjetividade pura não chega a dar-se até o momento mesmo em que o ser humano passa além da atividade que o separa de seu próprio intelecto, cessa de captar seu próprio ser externo como objeto e o converte em seu próprio ser imediatamente. O Zazen, que é - como é conhecido - uma "meditação sentada de pernas cruzadas", é um meio específico para o sujeito, que dessa maneira pode penetrar cada vez mais profundamente no interior de si, de tal modo que o "eu" separado - o "eu" dividido em "eu" como objeto e em "eu" como sujeito - pode recuperar sua unidade original. Quando, nos limites de tal unidade, o ser humano se converte realmente nele mesmo e se transforma em eu puro e absoluto, quando não há nenhuma distinção entre o eu como sujeito e o eu como objeto, um estágio epistemológico é alcançado no qual o ser se identifica perfeitamente consigo mesmo e se converte de tal modo em um consigo mesmo também que transcende o estado mesmo do eu. O ponto exato em que o eu se faz um com um mesmo de modo absoluto é designado, na terminologia técnica de Dogen  , pela expressão "espírito-e-corpo-caído" (shin jin datsu raku). Este estádio é imediatamente substituído por outro, de fato atualizado enquanto tem lugar o primeiro - que é o de "o-espírito-e-o-corpo-caídos" (datsu raku shin jin). Esse segundo estágio está relacionado ao fato empírico de que, no exato momento em que o espírito e o corpo, ou seja, o um-mesmo cai no Nada, se encontra ressuscitado fora desse Nada o mesmo espírito-e-corpo, o mesmo velho eu, mas desta vez convertido em eu absoluto. O eu, assim ressuscitado de sua própria morte, apresenta-se, mesmo exteriormente, como a mesma fusão corpo-espírito, mas é este último o que caiu - o qual significa a mesma coisa que "transcendeu" - de uma vez por todas. tudo. A imagem do ser humano, no zen-budismo, é a de um homem que já passou por semelhante transformação de si mesmo. Ele é o "homem verdadeiro sem nenhum nível" de Lin Chi.

Original

The image of Man peculiar to Zen Buddhism   emerges exactly when such a common-sense image of man, be it pre-philosophical or philosophical, is smashed to pieces. The ordinary image of man on which our daily life is based, and on which our social life is carried out, does not, according to the typically Zen conception, represent the true reality of Man. For man, as pictured in such a way, is but a “thing” in the sense that it is nothing but an objectified man, i.e., man as an object. Such cannot be a true picture because, according to Zen, Man in his true reality is, and must be, an absolute selfhood.

Without tarrying on the plane of common-sense or empirical thinking, where the primary experience of Reality in its pure “is-ness” [2] is necessarily broken up into objectified pieces, including even the absolute ego, Zen proposes to grasp directly Man as an absolute selfhood prior to his being objectified into a “thing.” Only then, it maintains, can we hope to obtain a true image of Man representing him as he really is, that is, in his real, immediate “is-ness.”

The image of Man peculiar to Zen is thus derived from a dimension which absolutely transcends the bifurcation, so characteristic of the human intellect, of the subject and object. As will be easy to see, such an image of Man can never be obtained as long as we pursue the question in the form of “what is man?” The question must necessarily and inevitably take on the form of “who am I?” Otherwise expressed, Man must be intuited in his most intimate subjectivity. For, no matter how far we may go on searching after our own “self” [77] on the plane of intellectual analysis, the “self ” goes on being objectified. However far we may go in this direction, we always end up by obtaining the image of our “self” seen as an object. The “self” itself, the real subjective subject which goes on searching after itself, remains always beyond our reach, eluding forever our grasp. The pure subjectivity is reached only when man steps beyond the ken of the dichotomizing activity of intellect, ceases to look at his own “self” from the outside as an object, and becomes immediately his own “self.” The Zazen, “sitting cross-legged in meditation,” is a way specifically devised in order that the subject might delve ever deeper into its own interior so that the bifurcated “self” — the “self” as dichotomized into the “self” as subject and the “self” as object — might regain its own original unity. When, at the extremity of such a unity, man becomes truly himself and turns into a pure and absolute selfhood, when, in other words, there remains absolutely no distinction any longer between the “self” qua subject and the “self” qua object, an epistemological stage is reached where the “self” has become so perfectly identified with itself and has so completely become one with itself that it has transcended even being a “self ” The precise point at which the “self” becomes one with it-“self” in such an absolute manner has come to be known, in accordance with the technical terminology of Dogen  , “the-mind-and-body-dropping-off” (shin jin datsu raku). This is immediately followed by the next stage — to be more strictly exact, it is a stage which is actualized at the very same moment as the actualization of the first one — that of “the-dropped-off-mind-and-body” (datsu raku shin jin). This second stage refers to the experiential fact that the moment the mind-and-body, [78] i.e., the “self” falls off into Nothingness, there is resuscitated out of the Nothingness the same mind-and-body, i.e., the same old “self” itself, but this time completely transformed into an absolute Self.The “self” thus resuscitated from its death to itself still carries outwardly the same mind-and-body, but the latter is the mind-and-body that has once “dropped off,” that is, that has transcended itself once for all. The image of Man in Zen Buddhism   is an image of Man who has already passed through such an absolute transformation of himself, the “True Man without any ranks” as Lin Chi calls him.


Ver online : The Structure of Oriental Philosophy I


[1Ou “talidade” (suchness; tathata) como os budistas a chamariam.

[2Or “suchness” (tathata) as the Buddhists would call it.