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A Vida do Espírito

Arendt (VE:13-14) – razão (Vernunft) e compreensão (Verstand)

Introdução

segunda-feira 14 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

    

ARENDT  , Hannah. A Vida do Espírito  . Tr. Antônio Abranches e Cesar Augusto   R. de Almeida e Helena Martins. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000, p.

    

Abranches et alii

A distinção que Kant   faz entre Vernunft e Verstand, “razão  ” e “intelecto” (e não “entendimento”, o que me parece uma tradução equivocada; Kant usava o alemão Verstand para traduzir o latim intellectus, e embora Verstand seja o substantivo de verstehen, o “entendimento” das traduções usuais não tem nenhuma das conotações inerentes ao alemão das Verstehen), é crucial para nossa empreitada. Kant traçou essa distinção entre as duas faculdades   espirituais após haver descoberto o “escândalo da razão”, ou seja, o fato de que nosso espírito   não é capaz de um conhecimento certo e verificável em relação a assuntos e questões sobre os quais, no entanto, ele mesmo não se pôde impedir de pensar. Para ele, esses assuntos — aqueles dos quais apenas o pensamento se ocupa — restringiam-se ao que agora chamamos habitualmente de as “questões últimas” de Deus  , da liberdade e da imortalidade  . Mas independentemente do interesse   existencial que os homens tomaram por essas questões, e embora Kant ainda acreditasse que “nunca houve uma alma   honesta que tenha suportado pensar que tudo termina com a morte,” ele também estava bastante consciente de que a “necessidade   urgente” da razão não só é diferente, mas é “mais do que a mera busca e o desejo de conhecimento.” Assim, a distinção entre as duas faculdades, razão e intelecto, coincide com a distinção entre duas atividades espirituais completamente diferentes: pensar e conhecer; e dois   interesses inteiramente distintos: o significado, no primeiro caso, e a cognição, no segundo. Embora houvesse insistido nessa distinção, Kant estava ainda tão fortemente tolhido pelo enorme peso da tradição   metafísica   que não pôde afastar-se de seu tema tradicional, ou seja, daqueles tópicos que se podiam provar incognoscíveis; e embora justificasse a necessidade da razão pensar além dos limites do que pode ser conhecido, permaneceu inconsciente com relação ao fato de que a necessidade humana de refletir acompanha quase tudo o que acontece ao homem  , tanto as coisas que conhece como as que nunca poderá conhecer. Por tê-la justificado unicamente em termos dessas questões últimas, Kant não se deu conta inteiramente da medida em que havia liberado a razão, a habilidade   de pensar. Afirmava, defensivamente, que havia “achado necessário negar o conhecimento... para abrir espaço para a fé.” Mas não abriu espaço para a fé, e sim para o pensamento, assim como não “negou o conhecimento”, mas separou conhecimento de pensamento. Nas notas de suas lições sobre a metafísica, escreveu: “O propósito da metafísica... é estender, embora apenas negativamente, nosso uso da razão para além dos limites do mundo dado aos sentidos, isto é, eliminar os obstáculos que a razão cria para si própria” (grifos nossos).

O grande obstáculo   que a razão (Vernunft) põe em seu próprio caminho   origina-se no intelecto (Verstand) e nos critérios, de resto inteiramente justificados, que ele estabeleceu para seus propósitos, ou seja, para saciar nossa sede e fazer face   à nossa necessidade de conhecimento e de cognição. O motivo pelo qual nem Kant nem seus sucessores prestaram muita atenção   ao pensamento como uma atividade   e [14] ainda menos às experiências do ego pensante é que, apesar de todas as distinções, eles estavam exigindo o tipo de resultado e aplicando o tipo de critério para a certeza   e a evidência, que são os resultados e os critérios da cognição. Mas se é verdade que o pensamento e a razão têm justificativa para transcender os limites da cognição e do intelecto — e Kant fundou essa justificativa na afirmação de que os assuntos com que lidam, embora incognoscíveis, são do maior interesse existencial para o homem —, então o pressuposto deve ser: o pensamento e a razão não se ocupam daquilo de que se ocupa o intelecto. Para antecipar   e resumir: a necessidade da razão não é inspirada pela busca da verdade, mas pela busca do significado. E verdade e significado não são a mesma coisa. A falácia básica que preside a todas as falácias metafísicas é a interpretação   do significado no modelo da verdade. O último e, sob certos aspectos, mais chocante exemplo disto ocorre em Ser e tempo, de Heidegger  , que começa levantando “novamente a questão do significado do Ser.” O próprio Heidegger, em uma interpretação posterior   de sua questão inicial, diz explicitamente: ‘“Significado do Ser’ e ‘Verdade do Ser’ querem dizer o mesmo.”

As tentações para resolver a equação — que se reduzem à recusa de aceitar   e pensar por meio da distinção que Kant faz entre razão e intelecto, entre a “necessidade urgente” de pensar e o “desejo de conhecer” — são muito fortes e não podem de modo algum ser unicamente tributadas ao peso da tradição. As descobertas de Kant tiveram um efeito liberador extraordinário sobre a filosofia alemã, desencadeando a ascensão   do idealismo alemão. Não há dúvida de que abriram espaço para o pensamento especulativo; mas esse pensamento voltou a tomar-se o campo   de um novo tipo de especialistas presos à noção   de que o “assunto próprio” da filosofia é “o conhecimento real do que verdadeiramente é.” Libertados por Kant da velha escola dogmática e de seus exercícios estéreis, os especialistas construíram não apenas novos sistemas, mas uma nova “ciência” —, o título original da maior dentre as suas obras, a Fenomenologia do espírito, de Hegel  , era “Ciência da Experiência da Consciência  ” —, empalidecendo precipitadamente a distinção que Kant fez entre o interesse da razão pelo incognoscível e o interesse do intelecto pelo conhecimento. Buscando o ideal cartesiano de certeza, como se Kant não houvesse existido, eles acreditaram, com toda honestidade  , que os resultados de suas especulações tinham o mesmo tipo de validade que os resultados dos processos cognitivos.

Original

Crucial for our enterprise is Kant’s distinction between Vernunft and Verstand, “reason” and “intellect” (not “understanding,” which I think is a mistranslation; Kant used the German Verstand to translate the Latin intellectus, and Verstand, though it is the noun of verstehen, hence “understanding in current translations, has none of the connotations that are inherent in the German das Verstehen). Kant drew this distinction between the two mental faculties after he had discovered the “scandal of reason,” that is, the fact that our mind   is not capable of certain and verifiable knowledge regarding matters and questions that it nevertheless cannot help thinking about, and for him such matters, that is, those with which mere thought is concerned, were restricted to what we now often call the “ultimate questions” of God, freedom, and immortality. But quite apart from the existential interest men once took in these questions, and although Kant still believed that no “honest soul ever lived that could bear to think that everything is ended with death,” he was also quite aware that “the urgent need” of reason is both different from and “more than mere quest and desire for knowledge.” Hence, the distinguishing of the two faculties, reason and intellect, coincides with a distinction between two altogether different mental activities, thinking and knowing, and two altogether different concerns, meaning, in the first category, and cognition  , in the second. Kant, though he had insisted on this distinction, was still so strongly bound by the enormous weight of the tradition of metaphysics that he held fast to its traditional subject matter, that is, to those topics which could be proved to be unknowable, and while he justified reason’s need to think beyond the limits of what can be known, he remained unaware of the fact that man’s need to reflect encompasses nearly everything that happens to him, things he knows as well   as things he can never know. He remained less than fully aware of the extent to which he had liberated reason, the ability to think, by justifying it in terms of the ultimate questions. He stated defensively that he had “found it necessary to deny knowledge...to make room for faith,” but he had not made room for faith; he had made room for thought, and he had not “denied knowledge” but separated knowledge from thinking. In the notes to his lectures on metaphysics he wrote: ‘The aim of metaphysics...is to extend, albeit only negatively, our use of reason beyond the limitations of the sensorily given world, that is, to eliminate the obstacles by which reason hinders itself (italics added).

The great obstacle that reason (Vemunft) puts in its own way arises from the side of the intellect (Verstand) and the entirely justified criteria it has established for its own purposes, that is, for quenching our thirst, and meeting our need, for knowledge and cognition. The reason neither Kant nor his successors ever paid much attention to thinking as an activity and even less to the experiences of thinking ego is that, all distinctions notwithstanding, they were demanding the kind of results and applying the kind of criteria for certainty and evidence that are the results and the criteria of cognition. But if it is true that thinking and reason are justified in transcending the limitations of cognition and the intellect—justified by Kant on the ground that the matters they deal with, though unknowable, are of the greatest existential interest to man-then the assumption must be that thinking and reason are not concerned with what the intellect is concerned with. To anticipate, and put it in a nutshell: The need of reason is not inspired by the quest for truth but by the quest for meaning. And truth and meaning are not the same. The basic fallacy, taking precedence over all specific metaphysical fallacies, is to interpret meaning on the model of truth. The latest and in some respects most striking instance of this occurs in Heidegger’s Being and Time, which starts out by raising “anew the question of the meaning of Being.” Heidegger himself, in a later interpretation of his own initial question, says explicitly: “‘Meaning of Being’ and ‘Truth of Being’ say the same.”

The temptations to make the equation—which comes down to a refusal to accept and think through Kant’s distinction between reason and intellect, between the “urgent need” to think and the “desire to know”—are very great, and by no means due only to the weight of tradition. Kant’s insights had an extraordinary liberating effect on German philosophy, touching off the rise of German idealism. No doubt, they had made room for speculative thought; but this thought again became a field for a new brand of specialists committed to the notion that philosophy’s “subject proper” is “the actual knowledge of what truly is.” Liberated by Kant from the old school dogmatism and its sterile exercises, they erected not only new systems but a new “science”—the original title of the greatest of their works, Hegel’s Phenomenology of Mind, was “Science of the Experience of Consciousness”—eagerly blurring Kant’s distinction between reason’s concern with the unknowable and the intellect’s concern with cognition. Pursuing the Cartesian ideal of certainty as though Kant had never existed, they believed in all earnest that the results of their speculations possessed the same kind of validity as the results of cognitive processes.


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