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Filosofia Grega I

Carneiro Leão (FG1:120-122) – O Lógos

III – HERÁCLITO E A APRENDIZAGEM DO PENSAMENTO

quinta-feira 10 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

CARNEIRO LEÃO, Emmanuel. Filosofia Grega I. Teresópolis: Daimon Editora, 2010, p. 120-122

O desafio é como fazê-lo e o que fazer para pensar, não de certo como Heráclito, mas com Heráclito o Lógos de tudo? – A primeira condição é desvencilhar-se da lógica e de seu contrário, o ilógico, do racional e de seu oposto, o irracional, do raciocínio e de seu contraste, o sentimento, da teoria e de seu êmulo, a prática. O período helenista reduziu o Lógos à lógica. Nos cálculos da razão e do raciocínio “ficou presa” a liberdade do pensamento. Por isso, desde então, surgiu uma estória sobre o aprisionamento e desprendimento da racionalidade. Aristóteles chegara às praias de Asso e andava pela areia tentando definir num conceito o ser de todo sendo! É a questão diretriz do primeiro capítulo do sétimo livro da Metafísica: Z, l, 1028b: [citação em grego] “E assim pois, o que tanto outrora, como agora, como em qualquer hora, se procurou e para o que nunca se encontrou uma saída, foi o questionamento da questão: o que é o ser de todo sendo?”

De repente Aristóteles notou que um ancião tinha cavado um enorme buraco na areia e, com uma colher de chá, ia buscar água do mar e vinha para encher o buraco. Aproximando-se do velho, quis saber o que pretendia todo aquele esforço. – O ancião respondeu que ia transferir o mar para o buraco. – Aristóteles revoltou-se: você está maluco? Este é um esforço de Sísifo num trabalho de Tântalo! Você não está vendo o tamanho do buraco e a imensidão do mar? Será que pode haver alguma proporção entre o volume das águas e as dimensões de uma colher de chá? – Antes de calar-se, o velho ainda perguntou: e a sua cabeça será maior que o buraco na areia? E o ser será menos vasto do que a imensidão do mar? E num conceito poderá caber tudo que é o ser de uma colherinha de chá?

Esta, a estória do aprisionamento e desprendimento da razão lógica! Corre à boca pequena, tanto no Oriente, como no Ocidente, que o velho da praia era Heráclito de Éfeso! É que, para Heráclito, a realidade não é lógica, é Lógos. É tanto cósmica como caótica mas não é lógica. Que diferença se dá entre Lógos e lógica? A maneira mais direta e simples de se responder é compreender numa experiência que a lógica é uma doutrina sobre o pensamento, é uma teoria do que é a verdade, é uma disciplina das relações, enquanto o Lógos é o próprio pensamento, é a própria verdade, é o próprio relacionamento. Para ser completa, a lógica tem de ser abstrata, para ser consistente, a lógica tem de ser excludente, para ser coerente, a lógica tem de ser definida, para ser contínua, a lógica tem de ser uniforme. Para ser consequente, a lógica tem de ser sequencial e discursiva. A lógica não pode ser concreta. Basta ser discreta. Não pode ser conflitual. Basta ser linear. O Lógos, não. E integrador e concreto: pois cresce junto com a tensão dos contrários e a força inovadora dos conflitos. A cidade não é o mapa. E, ao mesmo tempo, mapa e não mapa. Somente assim, o piloto pode encontrá-la. Nenhum real pode ser substituído por variáveis e funções abstratas. E por que não? – Porque lhe pertencem sempre tanto realização como não realização. O seu “é” cumpre, enquanto é, um constante vir-a-ser, pois nele se inclui todo o ser e todo o não ser. E o que nos recorda ao pensamento um famoso poema de Alfred Tennyson (1809-1893, amigo de Gladstone e Carlyle): [121] Flower in the crannied wall, I pluck you out of the crannies, Hold you here, root and all, in my hand. Little flower – but if I could understand What you are, root and all, and all in all, I should know what God and man is.