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O USO DOS CORPOS

Agamben (UC:221-222) – vida

Homo Sacer IV,2

terça-feira 8 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

    

AGAMBEN  , Giorgio. O Uso dos Corpos. Homo Sacer   IV,2. São Paulo, Boitempo, 2017, p. 221-222

    

Uma genealogia do conceito de zoe   deve começar pela constatação - de nenhum modo óbvia, inicialmente - de que na cultura ocidental “vida” não é uma noção   médico  -científica, mas um conceito filosófico-político. Os 57 tratados do Corpus   hippocraticum, que reúnem os textos mais antigos da medicina grega, compostos entre os últimos decênios do século V e os primeiros do século IV a. C., ocupam, na edição Littré, dez   volumes in quarto; mas um exame   de Index hippocraticum mostra que o termo zoe aparece apenas oito vezes, nunca com significado técnico  . Assim, os autores do Corpus podem descrever minuciosamente os humores que compõem o corpo humano e cujo equilíbrio determina a saúde e a doença, podem interrogar-se a respeito da natureza do nutrimento, do crescimento do feto e da relação entre modos   de vida (diaitai) e saúde, além de descrever os sintomas das doenças agudas e, por fim, refletir   sobre a arte médica, sem que jamais o conceito “vida” assuma importância nem função específica. Isso significa que não é necessário o conceito “vida” para construir a techne iatrike.

Dos oito textos de Corpus em que aparece a palavra zoe, três (Carta a Damagete, O discurso no altar [Oratio ad aram] e Discurso à embaixada de Téssalo [Tessali legati oratio]) não têm caráter médico e certamente são apócrifos  . Das outras cinco   ocorrências, três referem-se à duração da vida do paciente com respeito à morte iminente: Art., 63: “Sua vida se prolongará só por alguns dias” (zoe oligomeros toutoisi ginetai). Affect., 23: “Não há nenhuma esperança   de vida” (zoes oudemia elpis); Praec., 9: “Perdem a vida” [metallassousi tes zoes]. Por fim, em duas, o sentido podería ser relevante, mas ficou totalmente indeterminado  : Cor., 7: “Eles [os grandes vasos] são as fontes da natureza humana, os rios que borrifam o corpo e trazem a vida ao homem  ” [ten zoen pherousi toi anthropoi]; Alim., 32: “Potência uma e não uma, pela qual tais coisas e as outras são administradas — uma para a vida do todo e da parte [zoen hollou kai merou], a outra para a sensação do todo e da parte”. Esta última ocorrência   é a única na qual, pela oposição entre vida e sensação, o termo zoe parece adquirir um significado menos genérico.

Também o verbo zen, “viver”, que aparece 55 vezes no Corpus, nunca tem significado técnico e, quando não designa genericamente os “seres vivos ”, refere-se à duração da vida ou, na fórmula estereotipada ouk an dynaito zen, à impossibilidade de sobreviver em determinadas condições.