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Heidegger. Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal.

Safranski (Heidegger) – Husserl e Heidegger

Capítulo V

domingo 6 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

    

SAFRANSKI  , Rüdiger. Heidegger. Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Tr. Lya Luft. São Paulo: Geração Editorial, 2000, Capítulo V.

    

Lia Luft

Quando Edmund Husserl   foi a Freiburg em 1916, a fama da fenomenologia ainda não saíra do campo   da filosofia especializada. Mas poucos anos depois, nos primeiros anos do pós-guerra  , uma especialidade filosófica didática já é quase um portador de esperanças em nível de concepção de mundo. Hans-Georg Gadamer   relata como no começo dos anos vinte, quando os “lemas de derrocada do Ocidente eram onipresentes”, em uma “discussão entre pessoas que pretendiam consertar o mundo” se mencionou fenomenologia além de Max Weber  , Karl Marx   e Kierkegaard  , entre as inúmeras sugestões de como salvar a Europa. Portanto em poucos anos a fenomenologia se transformara em um comentário muito promissor, que levou Gadamer como tantos outros a ir a Freiburg para lá escutar   o mestre da fenomenologia e seu aprendiz de feiticeiro. A fenomenologia tinha a aura de um novo começo, o que a tornava popular em um tempo em que a consciência   oscilava entre os extremos do espírito   de derrocada e a euforia de um novo começo. Antes de 1916 os bastiões da fenomenologia eram Göttingen, onde Husserl ensinara entre 1901 e 1915, e Munique onde existia um segundo centro   em torno de Max Scheler   e Alexander Pfänder, independente “dos de Göttingen”. Queriam ser mais que uma escola, por isso designavam-se “movimento  ” [Bewegung]. Não se tratava apenas de recuperar a cientificidade rigorosa na filosofia — era assim que os fenomenólogos se autodescreviam oficiosamente, mas também de reforma de vida sob o signo   da honestidade   intelectual: queriam superar o falso patos, o autoengano ideológico, a falta de disciplina em pensar   e sentir. O espírito do círculo de fenomenólogos de Göttingen foi assim formulado por Hedwig Conrad-Martius, que pertencia a ele “era o etos da pureza   e da honestidade objetivas... Naturalmente isso se refletia em disposição  , caráter e modo de vida”.

O que o grupo de Stefan George Kreis fora na arte, era, quanto ao estilo de grupo, o movimento fenomenológico na filosofia. Os dois   círculos queriam rigor, disciplina e pureza [Strenge, Zucht und Reinheit].

“Vamos à questão!” [Zu den Sachen! - Ir às coisas] — era a divisa dos fenomenólogos. Mas o que era a questão [die Sache - a coisa]?

Era considerada oculta e perdida na floresta dos preconceitos, das grandes palavras e das elaborações da concepção de mundo. Era um impulso parecido com aquele que Hugo von Hofmannsthal expressara no começo do século na famosa carta:

“Perdi inteiramente”, escreve o lord Chandos de Hofmannsthal, “a capacidade de pensar e falar coerentemente sobre qualquer coisa... as palavras abstratas das quais a língua naturalmente ainda tem de se servir para fazer qualquer juízo  , desfaziam-se na minha boca como cogumelos embolorados”.

O que lhe rouba a fala é a evidência muda, inesgotável, opressiva mas também fascinante das coisas que se oferecem como se fosse uma primeira vez. Elas abrem-se para a evidência — também os fenomenólogos queriam isso, ignorar tudo o que até ali fora pensado e dito sobre consciência e mundo, essa era a sua ambição. Procuravam uma nova maneira de deixar as coisas se aproximarem deles sem as recobrirem com o já sabido. E preciso dar ao real uma chance de poder se mostrar. O que aí se mostra e como se mostra a partir de si, era que os fenomenólogos chamavam: o fenômeno.

Os fenomenólogos partilhavam com Hofmannsthal a certeza   de que antes de tudo era preciso reaprender o verdadeiro alfabeto da percepção [Wahrnehmung]. Era preciso antes de mais nada esquecer tudo o que até ali fora dito e reencontrar a linguagem da realidade [Wirklichkeit]. Para os primeiros fenomenólogos porém devia ser reconquistada antes de tudo a realidade da consciência [Bewußtseinswirklichkeit] e, só através dela, também a realidade externa [äußere Wirklichkeit].

Os fenomenólogos eram modestos de maneira imodesta, pois acusavam os filósofos em torno de construírem seus sistemas sem fundamento. A consciência [Bewußtsein] não estava suficientemente reconhecida, era um continente não pesquisado. Começavam pesquisando o inconsciente [Unbewußten], quando ainda nem estavam familiarizados com o consciente [Bewußtsein].

Husserl foi o iniciador do movimento. Exortava seus alunos a serem rigorosos: “Não devemos nos considerar bons demais para trabalhar   nos fundamentos” costumava dizer. Os alunos deviam considerar uma honra   serem operários “nas vinhas do Senhor” [Weinberg des Herrn], e não se definia que “Senhor” era aquele. Pensemos no espírito da humildade   e da ascese  , da honestidade e da pureza — que nos fenomenólogos por vezes também era chamada “castidade” [Keuschheit] e não pode mais ser considerado acaso que alguns dos fenomenólogos mais tarde se tornassem muito devotos. O mais destacado exemplo é Edith Stein  , agora canonizada. Ela “serviu” [diente], era a expressão   que usava — à fenomenologia nos primeiros anos de Göttingen, antes de 1914; entre 1916 e 1918 foi assistente de Husserl em Freiburg, nos anos vinte converteu-se à fé católica, por fim entrou no convento  , de onde os nazistas a tiraram, matando-a em Auschwitz por ser judia.

A fenomenologia era um projeto, disse o discípulo   de Husserl, Adolf Reinach, “que precisava do trabalho de séculos para ser executado”. Quando Husserl morre em 1938, deixa um maço de quarenta mil páginas manuscritas inéditas. E comparação   com isso sua obra publicada em vida parece modesta. Depois das Investigações lógicas, de 1901, dois livros fundamentaram sua fama e ajudaram sua filosofia a se impor: Filosofia como ciência rigorosa, de 1910, e o primeiro volume   (único publicado em sua vida) das Ideias sobre uma fenomenologia pura e filosofia fenomenológica, de 1913.

Em seus audaciosos sonhos, confiados ao diário, Husserl imaginara que o futuro da filosofia pudesse continuar tecendo o que ele iniciara. Repetia sempre que era um “iniciador” [Anfänger]. E foi isso, também na lida com sua própria obra. Quando queria aprontar para publicação um manuscrito realizado há algum tempo, começava a reescrever todo o texto, para desespero   de seus assistentes que tinham de ajudar nisso. E também sempre recomeçava com seu próprio pensar, portanto era-lhe difícil fazer valer o que escrevera. A consciência, especialmente a sua própria, era para ele um rio do qual sabidamente não se pode mergulhar duas vezes nas mesmas águas. Dessa postura desenvolveu-se nele uma verdadeira fobia de publicar. Outros filósofos, que não tinham esse problema, como por exemplo Max Scheler, para quem obviamente era uma ninharia preparar para publicação três livros ao mesmo tempo, pareciam-lhe suspeitos. As vezes falava de modo desrespeitoso de Max Scheler, apesar de reconhecer   sua genialidade: “E preciso ter boas ideias; mas não as devemos tornar públicas”, costumava dizer Husserl. Max Scheler, que tinha suas melhores ideias enquanto conversava e, se não tinha papel disponível, as anotava até nos punhos engomados, realmente não queria nem podia guardar nada para si. Diferente de Husserl, que meditava tanto em sua obra que ela cresceu naquele gigantesco maço de manuscritos que um padre   franciscano salvará dos nazistas em uma ação aventuresca em 1938 contrabandeando-a para Louvain na Bélgica — onde ainda hoje estão preservados em um local de pesquisa especialmente instalado.

Husserl, nascido na Morávia em 1859, crescendo em condições judaico  -burguesas sólidas na monarquia do Danúbio, marcado por um tempo em que a “sensação   de segurança... era o bem mais desejável, o ideal de vida comum” (Stefan Zweig), estudara matemática porque essa ciência lhe parecia confiável e exata. Depois percebera que também a matemática precisava de ser fundamentada. O fundamental, o certo, o alicerce — essa era a sua paixão. E assim ele chegou à filosofia, mas não, como escreve em seu retrospecto de vida, para uma “filosofia tradicional” na qual ele descobre “por toda parte falta de clareza  , audácia   imatura, vaguidão, quando não até desonestidade intelectual, nada que se pudesse aceitar  , deixar valer como peça, como começo de uma ciência séria”.

Raúl Gabás

Cuando Edmund Husserl llegó a Friburgo en 1916, la fama de la fenomenología no había rebasado todavía el ámbito académico. Pero ya pocos años después, en los inmediatamente posteriores a la guerra, la fenomenología deja de ser una especialidad universitaria para convertirse casi en una promesa al estilo de una concepción del mundo. Hans-Georg Gadamer relata cómo al principio de los años veinte, cuando la expresión «ocaso de Occidente andaba de boca en boca», en una «discusión entre redentores del mundo», en medio de numerosas propuestas para salvar Europa surgieron como solución los nombres de Max Weber, Karl Marx y Kierkegaard, y se mencionó también la fenomenología. Por tanto, en pocos años la fenomenología se había convertido en un rumor muy prometedor, por la cual Gadamer, como muchos otros, se sintió atraído a Friburgo, con el fin de escuchar allí al maestro fenomenológico y a su mágico aprendiz. La fenomenología ostentaba la aureola de un nuevo principio, cosa que la hizo popular en un tiempo cuyo sentimiento de sí mismo   oscilaba entre el extremo del ocaso y el de la euforia de un nuevo comienzo.

Antes de 1916 los bastiones de la fenomenología eran Gotinga, donde Husserl había enseñado entre 1901 y 1915, y Munich, donde existía un segundo centro en torno a Max Scheler y Alexander Pfänder, centro que era independiente del primero. Los fenomenólogos pretendían ser más que una escuela y por eso se autodenominaban «movimiento». No se trataba solamente del restablecimiento de la filosofía como una ciencia estricta, tal como ellos querían caracterizarse oficiosamente, sino también de una reforma de la vida bajo el signo de la honradez intelectual. Querían superar la falsa pasión, el autoengaño ideológico, la falta de disciplina en el pensar y sentir. Conrad-Martius, que se hallaba desde los comienzos entre los fenomenólogos de Gotinga, caracterizó como sigue el espíritu de ese círculo: «Era la actitud de la pureza y honradez objetiva… Y, naturalmente, esto tenía que acuñar la manera de sentir, el carácter y la forma de vida».

Lo que el círculo en torno a Stefan George significaba en lo artístico como estilo de grupo, en el campo filosófico tenía su equivalente en la fenomenología. Ambos círculos se basaban en el rigor, la disciplina y la pureza.

«¡A las cosas!», sonaba el lema de los fenomenólogos. Pero ¿qué era «la cosa»? Estaba fuera de toda duda que la cosa se hallaba escondida y perdida entre los matorrales de los prejuicios, de las grandes palabras y de las construcciones relativas a la concepción del mundo. Se había puesto en juego un impulso semejante al expresado por Hugo von Hoffmannsthal a principios de siglo en la famosa Carta. Hoffmannsthal pone en boca de su Lord Chandos: «He quedado enteramente despojado de la facultad de pensar o hablar coherentemente sobre algo…; las palabras abstractas, de las que tiene que servirse naturalmente la lengua para emitir cualquier juicio, me caían en la boca como setas enmohecidas». Lo que deja a Lord Chandos sin palabras es la muda, inagotable y oprimente, aunque también seductora, evidencia de las cosas, que se ofrecen como la primera vez. Abrirse así a la evidencia es lo que querían también los fenomenólogos; su orgullo era prescindir de todo lo que hasta ahora se ha pensado y dicho sobre la conciencia y el mundo. Andaban al acecho de conseguir un nuevo acercamiento de las cosas a ellos, sin encubrirlas con lo ya sabido. Hay que conceder a lo real la oportunidad de poderse «mostrar». Los fenomenólogos llamaron «fenómeno» a lo que se muestra allí y a la manera como esto se muestra de suyo.

Los fenomenólogos compartían con Hoffmannsthal la persuasión de que es necesario aprender de nuevo el alfabeto real de la percepción. En primer lugar hay que olvidar todo lo dicho hasta ahora; tiene que hallarse de nuevo el lenguaje de la realidad. Pero en los fenomenólogos de la primera hora lo que debía apropiarse de nuevo era sobre todo la realidad de la conciencia y, sólo a través de ella, también la realidad exterior.

Los fenomenólogos eran modestos en forma inmodesta, pues acusaban a los filósofos de su alrededor de que ellos construían su sistema sin fundamento. En efecto, decían, la conciencia todavía no es conocida ni de lejos; es como un continente inexplorado. Está en uso, añadían, comenzar por la exploración del inconsciente antes de familiarizarse siquiera con la conciencia.

Husserl fue el iniciador del movimiento. Incitaba a sus alumnos a ir hasta el fondo. «No hay que tenerse por demasiado bueno para trabajar en los cimientos», acostumbraba decir. Los alumnos han de sentirse honrados por ser trabajadores «en la viña del señor», sin que allí quedara dicho quién era propiamente el «señor». Si tenemos en cuenta el espíritu de humildad y de ascética, de honradez y pureza, que entre los fenomenólogos a veces llegó a llamarse «castidad», no puede considerarse casual el hecho de que algunos fenomenólogos fueran después muy piadosos. El ejemplo más sobresaliente es Edith Stein, tiempo después beatificada. Según su propia expresión, ella «servía» a la fenomenología en los primeros años de Gotinga, antes de 1914. Entre 1916 y 1918 fue asistente privada de Husserl en Friburgo; en los años veinte se convirtió a la fe católica; y finalmente entró en un convento; de allí la sacaron los nazis, y, por ser judía, la mataron en Auschwitz.

Según Adolf Reinach, discípulo de Husserl, la fenomenología es un proyecto «que para su ejecución necesita el trabajo de siglos». Cuando muere Husserl en 1938, deja un legajo de cuarenta mil manuscritos inéditos. En comparación con esto resulta muy modesta la obra publicada durante su vida. Después de las Investigaciones lógicas de 1901, fueron dos los libros que fundaron su fama y contribuyeron a su éxito filosófico, a saber, la Filosofía como ciencia estricta, de 1910, y el primer tomo (el único editado durante su vida) de las Ideas para una fenomenología pura y una filosofía fenomenológica, de 1913.

En sus audaces sueños, que confió a su diario, Husserl se había imaginado que el futuro de la filosofía sería un seguir tejiendo lo que él había iniciado. Una y otra vez decía de sí mismo que él era un «iniciador». Y lo cierto es que lo era también en el comportamiento con la propia obra. Si tenía que terminar para la imprenta un manuscrito redactado hacía algún tiempo, empezaba a parafrasear todo el texto, para desesperación de sus asistentes, que le ayudaban en esta tarea. Con su propio pensamiento empezaba siempre de nuevo, resultándole muy difícil conceder validez a lo que ya había escrito antes. La conciencia, sobre todo la suya propia, era para él un torrente, en el cual, según una frase conocida, nadie puede bañarse dos veces en las mismas aguas. A partir de esta actitud se desarrolló en él una auténtica fobia a la publicación. Le resultaban sospechosos otros filósofos que no tenían esta dificultad, como, por ejemplo, Max Scheler, para quien parece que era una bagatela escribir simultáneamente tres libros. A veces hablaba con desprecio de Max Scheler, a pesar de reconocer su genialidad. «Hay que tener ocurrencias, pero no hay que publicarlas», acostumbraba decir Husserl. Max Scheler, que recibía sus mejores ocurrencias en la conversación y, cuando no tenía papel a mano, las anotaba en los puños almidonados, efectivamente no quería ni podía retener algo en sí mismo. Husserl actuaba de manera distinta, incubaba su obra hasta acumular legajos enormes de manuscritos. Y en 1938 un padre franciscano hubo de acometer una acción aventuresca para salvarlos de los nazis, trasladándolos de estraperlo a Lovaina, Bélgica, donde se conservan hasta hoy en un centro de investigación erigido para este menester.

Husserl, nacido en Moravia en el año 1859 y crecido en la sólida situación judeo-burguesa de la monarquía danubiana, quedó acuñado por un tiempo en el que «el ideal de vida era el sentimiento de seguridad… de la apetecible posesión» (Stefan Zweig). Estudió matemáticas porque esta ciencia le parecía fiable y exacta. Luego notó que también la matemática necesita una fundamentación. Su pasión era lo fundamental, lo seguro, lo fundamentante. Y así llegó a la filosofía, pero, según escribe en la mirada retrospectiva a su vida, no a la «filosofía recibida»[84], en la que «descubría por doquier vaguedad inmadura, insuficiencias, e incluso a veces deshonestidad intelectual», y no encontraba nada que pudiera aceptarse como pieza, como comienzo de una ciencia seria».