Página inicial > Antiguidade > Aristóteles (384 aC – 322 aC) > Aristóteles (EN:II,1) – duas excelências

ÉTICA A NICÔMACO

Aristóteles (EN:II,1) – duas excelências

LIVRO II, Capítulo 1

sábado 5 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

Caeiro

Sendo a excelência dupla, como disposição teórica [1103a14] [do pensamento compreensivo - διανοητικῆς] e como disposição ética [ἠθικῆς], a primeira encontra 15 no ensino [διδασκαλίας] a maior parte da sua formação e desenvolvimento, por isso que requer experiência [ἐμπειρίας] e tempo [χρόνου]; a disposição permanente do caráter [ἠθικὴ] resulta, antes, de um processo de habituação [ἔθους], de onde até terá recebido o seu nome, «hábito» [ἔθους], embora se tenha desviado um pouco da sua forma original. Daqui resulta evidente que nenhuma das excelências éticas [ἠθικῶν ἀρετῶν] nasce connosco por natureza [φύσει]. Nenhum dos entes [ὄντων] que existem a partir da natureza [φύσει] pode ser habituado 20 a existir de outra maneira. Como por exemplo uma pedra. Ela desloca-se naturalmente para baixo e ninguém poderá habituá-la a deslocar-se naturalmente para cima; ninguém a habituaria a isso nem que a arremessasse mil vezes para o alto. E o mesmo a respeito do fogo. Ninguém poderá habituá-lo a tender naturalmente para baixo. Nada do que é constituído naturalmente de uma determinada maneira poderá ser habituado a ser de outra maneira. As excelências, então, não se geram em nós nem por natureza, nem contra 25 a natureza, mas por sermos constituídos de tal modo que podemos, através de um processo de habituação, acolhê-las e aperfeiçoá-las.

Além disso, tudo o que se constitui em nós depende em primeiro lugar de havermos recebido a sua condição de possibilidade e depois de termos procedido ao seu accionamento. (O mesmo é manifesto no que respeita às percepções. Nós não constituímos a percepção visual ou a acústica apenas por vermos ou ouvirmos 30 muitas vezes, mas, ao invés, é dispondo já das suas condições de possibilidade que as ativamos. Quer dizer, mesmo que não as tivéssemos ativado, tê-las-íamos desde sempre já à nossa disposição.) É da mesma maneira, então, que adquirimos as excelências. Isto é, primeiramente pomo-las em prática. E assim também que fazemos com as restantes perícias, porque, ao praticar, adquirimos o que procuramos aprender. Na verdade, fazer é aprender. Por exemplo, os construtores de casas fazem-se construtores de casas construindo-as e os tocadores de cítara tornam-se tocadores de cítara [1103b], tocando-a. Do mesmo modo também nos tornamos justos praticando ações justas, temperados, agindo com temperança, e, finalmente, tornamo-nos corajosos realizando atos de coragem. O que acontece com as constituições políticas comprova-o também. Ou seja, os legisladores tornam os cidadãos bons cidadãos habituando-os a agir bem — é este de resto o seu propósito. E todos os [5] legisladores que não tiverem em mente esse propósito erram. É nisto, precisamente, que se distingue uma boa constituição política de uma má. Demais, é a partir do exercício das mesmas atividades e em vista das mesmas qualidades-limite que toda a excelência tanto é gerada quanto é destruída. O mesmo se passa com toda a perícia. Assim, é ao tocar cítara que executantes desse instrumento se tornam virtuosos ou maus. De modo análogo se passa com os [10] construtores de casas e com todos os restantes peritos numa determinada perícia. É ao construir bem uma casa que os construtores se tornam bons construtores, tal como é ao construir mal uma casa que se tornam maus construtores. Se assim não fosse, não precisávamos para nada de um instrutor e todos se tornavam a partir de si próprios bons ou maus a respeito de qualquer atividade. O mesmo 15 acontece com as excelências. Ao agir-se em transação com outrem, tornamo-nos justos ou injustos. É também ao agir em face de situações terríveis que sentimos sempre medo ou conseguimos ganhar confiança, isto é, que podemos ficar cobardes ou tornamo-nos corajosos. De modo idêntico a respeito das coisas que fazem nascer em nós desejo e ira. Uns conseguem tornar-se temperados e ser gentis [20], outros, porém, tornam-se devassos e são irascíveis. Resulta, então, destas considerações que é a respeito das mesmas situações, que se definem comportamentos contrários, ou seja, que é possível portarmo-nos de modos diferentes. Assim, numa palavra, as disposições permanentes do caráter constituem-se através de ações levadas à prática em situações que podem ter resultados opostos. É por isso que as ações praticadas têm de restituir disposições constitutivas de uma mesma qualidade, quer dizer, as disposições do caráter fazem depender de si as diferenças existentes nas ações levadas à prática. Com efeito, não é uma diferença de somenos o habituarmo-nos logo desde novos a praticar ações deste ou daquele modo.

Isso faz uma grande diferença. Melhor, faz toda a diferença.

Bonet

Existen, pues, dos clases de virtud, la dianoética y la ética. La dianoética 1103a15 se origina y crece principalmente por la enseñanza, y por ello requiere experiencia y tiempo; la ética, en cambio, procede de la costumbre, como lo indica el nombre que varía ligeramente del de 20 «costumbre». De este hecho resulta claro que ninguna de las virtudes éticas se produce en nosotros por naturaleza, puesto que ninguna cosa que existe por naturaleza se modifica por costumbre. Así la piedra que se mueve por naturaleza hacia abajo, no podría ser acostumbrada a moverse hacia arriba, aunque se intentara acostumbrarla lanzándola hacia arriba innumerables veces; ni el fuego, hacia abajo; ni ninguna otra cosa, de cierta naturaleza, podría acostumbrarse a ser de 25 otra manera. De ahí que las virtudes no se produzcan ni por naturaleza ni contra naturaleza, sino que nuestro natural pueda recibirlas y perfeccionarlas mediante la costumbre.

Además, de todas las disposiciones naturales, adquirimos primero la capacidad y luego ejercemos las actividades. Esto es evidente en el caso de los sentidos; pues no por ver muchas veces u oír muchas veces adquirimos los sentidos, sino al revés: los usamos porque los tenemos, no los tenemos por haberlos usado. En cambio, adquirimos las virtudes como resultado de actividades anteriores. Y éste es el caso de las 30 demás artes, pues lo que hay que hacer después de haber aprendido, lo aprendemos haciéndolo. Así nos hacemos constructores construyendo casas, y citaristas tocando la cítara. De un modo semejante, practicando la justicia nos hacemos justos; practicando la moderación, 1103b moderados, y practicando la virilidad, viriles. Esto viene confirmado por lo que ocurre en las ciudades: los legisladores hacen buenos a los ciudadanos haciéndoles adquirir ciertos hábitos, y ésta es la voluntad de todo legislador; pero los legisladores que no lo hacen bien yerran, 5 y con esto se distingue el buen régimen del malo.

Además, las mismas causas y los mismos medios producen y destruyen toda virtud, lo mismo que las artes; pues tocando la cítara se hacen tanto los buenos como los malos citaristas, y de manera análoga los constructores de casas y todo lo demás: pues construyendo bien 10 serán buenos constructores, y construyendo mal, malos. Si no fuera así, no habría necesidad de maestros, sino que todos serían de nacimiento buenos y malos. Y éste es el caso también de las virtudes: pues por nuestra actuación en las transacciones con los demás hombres nos 15 hacemos justos o injustos, y nuestra actuación en los peligros acostumbrándonos a tener miedo o coraje nos hace valientes o cobardes; y lo mismo ocurre con los apetitos y la ira: unos se vuelven moderados y mansos, otros licenciosos e iracundos, los unos por haberse comportado 20 así en estas materias, y los otros de otro modo. En una palabra, los modos de ser surgen de las operaciones semejantes. De ahí la necesidad de efectuar cierta clase de actividades, pues los modos de ser siguen las correspondientes diferencias en estas actividades. Así, el adquirir un modo de ser de tal o cual manera desde la juventud tiene no 25 poca importancia, sino muchísima, o mejor, total.

Saint-Hilaire

§ 1. La vertu étant de deux espèces, l’une intellectuelle et l’autre morale, la vertu intellectuelle résulte presque toujours d’un enseignement auquel elle doit son origine et ses développements ; et de là vient qu’elle a besoin d’expérience et de temps. Quant à la vertu morale, elle naît plus particulièrement de l’habitude et des mœurs ; et c’est du mot même de mœurs que, par un léger changement, elle a reçu le nom de morale qu’elle porte. — § 2. Il n’en faut pas davantage pour montrer clairement qu’il n’est pas une seule des vertus morales qui soit en nous naturellement. Jamais les choses de la nature ne peuvent par l’effet de l’habitude devenir autres qu’elles ne sont : par exemple, la pierre, qui naturellement se précipite en bas, ne pourrait prendre l’habitude de monter, essayât-on en la lançant un million de fois de lui imprimer cette habitude. Le feu ne se portera pas davantage en bas ; et il n’est pas un seul corps qui puisse perdre la propriété qu’il tient de la nature, pour contracter une habitude différente.

§ 3. Ainsi les vertus ne sont pas en nous par l’action seule de la nature, et elles n’y sont pas davantage contre le vœu de la nature ; mais la nature nous en a rendus susceptibles, et c’est l’habitude qui les développe et les achève en nous. — § 4. De plus, pour toutes les facultés que nous possédons naturellement, nous n’apportons d’abord que le simple pouvoir de nous en servir, et ce n’est que plus tard que nous produisons les actes qui en sortent. On peut bien voir un frappant exemple de ceci dans les sens. Ce n’est pas à force de voir, à force d’entendre, que nous acquiérons les sens de la vue et de l’ouïe. Tout au contraire, nous nous sommes servis de ces sens parce que nous les avions ; et nous ne les avons pas du tout parce que nous nous en sommes servis. Loin de là, pour les vertus, nous ne les acquiérons qu’après les avoir préalablement pratiquées. Il en est pour elles comme pour tous les autres arts ; car dans les choses qu’on ne peut faire qu’après les avoir apprises, nous ne les apprenons qu’en les faisant. Ainsi, on devient architecte en construisant ; on devient musicien en faisant de la musique. Tout de même, on devient juste en pratiquant la justice ; sage, en cultivant la sagesse3 ; courageux, en exerçant le courage. — § 5. Ce qui se passe dans le gouvernement des États le prouve bien : les législateurs ne rendent les citoyens vertueux qu’en les y habituant. Telle est certainement la volonté bien arrêtée de tout législateur. Ceux qui ne remplissent pas comme il faut cette tâche, manquent le but qu’ils se proposent ; et c’est là précisément ce qui fait toute la différence d’un bon gouvernement et d’un mauvais.

§ 6. Toute vertu, quelle qu’elle soit, se forme et se détruit par les mêmes moyens, par les mêmes causes, absolument comme on se forme et comme on échoue dans tous les arts. C’est en jouant de la cithare, avons-nous dit, que se forment les bons et les mauvais artistes. C’est par des travaux analogues que se forment les architectes, et sans exception tous ceux qui exercent un art quelconque. Si l’architecte construit bien, il est un bon architecte ; il en est un mauvais quand il construit mal. S’il n’en était pas ainsi, on n’aurait jamais besoin de maître qui montrât à bien faire, et tous les artistes seraient pour toujours du premier coup ou bons ou mauvais. — § 7. Il en est absolument de même pour les vertus. C’est par notre conduite dans les transactions de tout ordre qui interviennent entre les hommes, que nous nous montrons les uns équitables, les autres iniques. C’est par notre conduite dans les circonstances périlleuses, et en y contractant les habitudes de la poltronnerie ou de la fermeté, que nous devenons les uns braves, les autres lâches. Il en est de même encore pour les effets de nos appétits ou de nos entraînements ; parmi les hommes, les uns sont modérés et doux, les autres sont intempérants et excessifs, selon que ceux-ci se comportent de telle façon dans ces circonstances, et que ceux-là se comportent d’une façon contraire ; en un mot, les modes d’être ne proviennent que de la répétition fréquente des mêmes actes. Voilà comment il faut s’attacher scrupuleusement à ne faire que des actes d’un certain genre ; car les modes d’être se forment sur les différences mêmes de ces actes et les suivent. Ce n’est donc pas une chose de petite importance que de contracter, dès l’enfance et aussitôt que possible, telles ou telles habitudes. C’est au contraire un point de très grande importance, ou pour mieux dire c’est là tout.

Ross

1. Excellence, then, being of two kinds, intellectual and moral, intellectual [15] excellence in the main owes both its birth and its growth to teaching (for which reason it requires experience and time), while moral excellence comes about as a result of habit, whence also its name is one that is formed by a slight variation from the word for ‘habit’.8 From this it is also plain that none of the moral excellences [20] arises in us by nature; for nothing that exists by nature can form a habit contrary to its nature. For instance the stone which by nature moves downwards cannot be habituated to move upwards, not even if one tries to train it by throwing it up ten thousand times; nor can fire be habituated to move downwards, nor can anything else that by nature behaves in one way be trained to behave in another. Neither by nature, then, nor contrary to nature do excellences arise in us; rather we are adapted by nature to receive them, and are made perfect by habit. [25]

Again, of all the things that come to us by nature we first acquire the potentiality and later exhibit the activity (this is plain in the case of the senses; for it was not by often seeing or often hearing that we got these senses, but on the contrary we had them before we used them, and did not come to have them by using them); [30] but excellences we get by first exercising them, as also happens in the case of the arts as well. For the things we have to learn before we can do, we learn by doing, e.g. men become builders by building and lyre-players by playing the lyre; so too we become just by doing just acts, temperate by doing temperate acts, brave by doing [1103b1] brave acts.

This is confirmed by what happens in states; for legislators make the citizens good by forming habits in them, and this is the wish of every legislator; and those who do not effect it miss their mark, and it is in this that a good constitution differs [5] from a bad one.

Again, it is from the same causes and by the same means that every excellence is both produced and destroyed, and similarly every art; for it is from playing the lyre that both good and bad lyre-players are produced. And the corresponding statement is true of builders and of all the rest; men will be good or bad builders as a [10] result of building well or badly. For if this were not so, there would have been no need of a teacher, but all men would have been born good or bad at their craft. This, then, is the case with the excellences also; by doing the acts that we do in our transactions with other men we become just or unjust, and by doing the acts that we [15] do in the presence of danger, and being habituated to feel fear or confidence, we become brave or cowardly. The same is true of appetites and feelings of anger; some men become temperate and good-tempered, others self-indulgent and irascible, by behaving in one way or the other in the appropriate circumstances. Thus, in one [20] word, states arise out of like activities. This is why the activities we exhibit must be of a certain kind; it is because the states correspond to the differences between these. It makes no small difference, then, whether we form habits of one kind or of another from our very youth; it makes a very great difference, or rather all the [25] difference.